Tem gente que acha que ansiedade é frescura. Outros transformam qualquer angústia cotidiana em diagnóstico. Entre um exagero e outro, muita gente sofre calada sem entender exatamente o que está acontecendo consigo mesma.
A verdade é que a ansiedade faz parte da experiência humana. Ela não nasceu com a internet, nem com o excesso de trabalho moderno. O medo, a apreensão e o estado de alerta sempre acompanharam o ser humano como mecanismos de sobrevivência. O problema começa quando esse alerta deixa de ser uma reação passageira e vira moradia permanente.
Um estudo publicado em 2024 pelo psicólogo Marcos Vitor Costa Castelhano discute justamente isso: como a ansiedade atravessa a vida psíquica contemporânea e afeta o funcionamento emocional das pessoas.
Fenômeno complexo
O trabalho dialoga com duas áreas importantes da psicologia — a psicobiologia e a psicanálise — para mostrar que ansiedade não é apenas “coisa da cabeça” nem apenas “desequilíbrio químico”. É um fenômeno complexo, humano e profundamente ligado ao modo como vivemos.
Na prática, nosso cérebro foi programado para reagir ao perigo. A psicologia explica que a ansiedade funciona como um sistema de defesa. A professora Linda Davidoff, referência clássica na área da psicologia, descreve a ansiedade como um estado de apreensão que ajuda o organismo a se preparar para situações adversas. O coração acelera, a respiração muda, os músculos tensionam. O corpo entende que algo precisa ser enfrentado.
Isso é normal.
Ansiedade crônica
O problema aparece quando o perigo nunca vai embora — mesmo que ele nem exista de forma concreta. É aí que surge a ansiedade crônica. O estudo lembra que esse estado contínuo desgasta o organismo física e emocionalmente. A pessoa vive cansada, irritada, hipervigilante. Dorme mal. Pensa demais. Sente culpa por descansar. E, muitas vezes, nem consegue explicar exatamente o motivo do sofrimento.
Talvez isso explique por que tanta gente hoje diz estar “exausta” sem necessariamente ter feito esforço físico extremo. O cérebro contemporâneo raramente descansa. A lógica da produtividade permanente criou uma geração que sente culpa até quando para.
Autocuidado
O estudo também mostra que diferentes áreas da ciência vêm dialogando mais sobre o tema. Hoje sabemos que neurotransmissores como serotonina, noradrenalina e GABA participam da regulação da ansiedade. Mas reduzir tudo apenas à química cerebral também empobrece a discussão. Ser humano não é só biologia. Existe história, ambiente, relações, frustrações e modo de vida envolvidos nisso tudo.
E talvez esteja aí um dos maiores erros do nosso tempo: tratar sofrimento emocional como defeito individual. Como se bastasse “pensar positivo”, acordar às 5h da manhã ou tomar um chá milagroso para resolver dores psíquicas profundas.
Não resolve.
Ansiedade não é falta de força. Também não deve virar identidade. Ela é um sinal. Um alerta do corpo e da mente de que alguma coisa precisa ser olhada com mais cuidado. Em muitos casos, buscar ajuda profissional não é exagero. É maturidade emocional.
