A crescente preocupação com a saúde mental de crianças e adolescentes tem levado muitas famílias a buscar respostas rápidas para mudanças de comportamento, dificuldades escolares e crises emocionais. Porém, segundo a psicóloga Lívia Benez Breda, é preciso cuidado para não transformar fases difíceis da vida em diagnósticos precipitados.
Formada em Psicologia e pós-graduanda em psicanálise lacaniana, Lívia atua com crianças, adolescentes e adultos. Ela explica que momentos difíceis fazem parte do desenvolvimento humano e não devem ser automaticamente classificados como transtornos mentais. “Um adolescente, um adulto ou uma criança vai viver fases difíceis, como luto, separação, discussões e perdas. Não podemos transformar tudo isso em um transtorno mental” , afirma.
Segundo a profissional, o principal sinal de alerta está na intensidade e na duração dos sintomas. Quando o sofrimento emocional se torna recorrente e permanece por um longo período, é importante procurar ajuda especializada. “Se passar muito tempo acontecendo com intensidade, aí sim precisamos trazer esse paciente para uma escuta clínica, entender o porquê dessa recorrência” , explica.
Como funciona a avaliação psicológica
Lívia destaca que existem diversos testes, escalas e métodos utilizados para avaliar a saúde mental, mas reforça que cada paciente exige uma abordagem diferente.
No caso das crianças, o atendimento costuma acontecer de forma lúdica, utilizando brincadeiras, desenhos, tintas e brinquedos como ferramentas de expressão emocional. “É no brincar que a criança fala. Muitas vezes ela não consegue ficar sentada 50 minutos respondendo perguntas. Então, pela massinha, pela pintura ou por um carrinho, ela consegue mostrar o que está sentindo” , comenta.
Já com adolescentes e adultos, a escuta e a fala ganham mais espaço durante as sessões, embora recursos lúdicos também possam ser utilizados.
Além do acompanhamento clínico, a psicóloga ressalta que família e escola têm papel fundamental na identificação de mudanças de comportamento, rendimento escolar, isolamento ou alterações emocionais.
O peso do preconceito e diagnóstico via redes sociais
Outro ponto observado com frequência no consultório é o medo que muitos pais sentem diante da possibilidade de um diagnóstico psicológico ou psiquiátrico. “Os pais perguntam muito se o filho vai precisar tomar remédio ou como será daqui para frente. Existe um preconceito muito grande em relação à terapia e ao diagnóstico” , afirma.
Para Lívia, é importante compreender que nem toda dificuldade emocional significa um transtorno. “Muitas vezes, não é sobre um diagnóstico. É sobre o paciente precisar ser ouvido e acolhido” , ressalta.
O avanço das redes sociais também trouxe um novo desafio para os profissionais da saúde mental: o autodiagnóstico baseado em vídeos da internet.
Segundo a psicóloga, adolescentes chegam ao consultório afirmando ter TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), autismo ou outros transtornos após assistirem conteúdos nas plataformas digitais.
“Muitos pais chegam dizendo que o filho tem TDAH ou autismo porque viram um vídeo na internet. Na maior parte dos casos, o filho não tem esse doagnóstico, ele apenas precisava passar por uma escuta profissional” , alerta.
Lívia explica que conteúdos curtos nas redes sociais podem gerar identificação superficial e aumentar a ansiedade das famílias, dificultando o trabalho clínico. “Rede social não é lugar de buscar ajuda. Temos visto muitas IAs e redes sociais substituindo profissionais especializados que estudaram anos para atuar nessa área” .
Ainda de acordo com a psicóloga, mudanças de comportamento, dificuldades emocionais e conflitos vividos por crianças e adolescentes precisam ser observados com atenção, mas sem conclusões precipitadas. Para ela, o acompanhamento psicológico permite compreender cada caso de forma individual e evita que informações superficiais das redes sociais substituam a avaliação profissional.
