Educação

Ana Carolina de Oliveira, mãe de Isabella Nardoni, ministra palestra em Birigui e Guararapes

É a primeira vez que ela traz para a região o projeto "Silêncio que Grita", iniciativa de combate à violência e ao abuso infantil

Agência Trio Notícias
30/06/26 às 07h11
Ana Carolina visitou o Hojemais Araçatuba em passsagem pela região (Foto: Milene Gratão)

“Não é sobre a minha filha, mas como a gente transformou toda nossa história para fazer com que crianças hoje sejam salvas” . É assim que Ana Carolina de Oliveira descreve o projeto "Silêncio que Grita", que tem como objetivo, combater o abuso e à exploração sexual infantil e infanto-juvenil.

Mãe da Isabella Nardoni, menina que morreu aos 5 anos, ao ser jogada da janela do apartamento onde estava com o pai e com a madrasta em São Paulo, em março de 2008, ela está na região de Araçatuba para ministrar duas palestras.

Na noite desta terça-feira (30) ela estará na Câmara de Birigui e na noite de quarta-feira (1), na sede do Lions Clube de Guararapes, que apoia o evento, sempre com início às 19h. A participação é gratuita, porém, como os espaços são limitados, é necessário inscrição prévia, no site da Sympla.

Ana Carolina é vereadora em São Paulo, tem percorrido várias cidades para levar esse trabalho de conscientização e é a primeira vez que ela visita a região de Araçatuba. Em conversa com o Hojemais Araçatuba, ela comentou que para poder falar para outros públicos é um prazer, pois mostra o interesse das pessoas pela causa.

“O projeto ‘Silêncio que Grita’ veio para prevenir, combater e conscientizar as pessoas, toda uma nação, todo ser humano, sobre a prevenção e o combate ao abuso e à exploração sexual infantil e infanto-juvenil, pois isso tem assolado muitas famílias” , explicou.

A palestrante comentou que essa questão está dentro das casas e, por isso, é preciso informar todas as pessoas, para que todos estejam atentos. “Serão dois dias intensos de palestras, em que eu acredito que as pessoas irão sair de lá também transformadas e refletindo sobre qual que é o papel que hoje a gente está executando com relação à proteção” , acrescenta.

Público

Ainda de acordo com Ana Carolina, a palestra é voltada para toda as pessoas que querem entender e aprender sobre a proteção à criança, independentemente da função que desempenhe na sociedade. “Não tem um público direcionado. O que a gente espera é que as pessoas se interessem e venham, porque todo mundo tem contato com uma criança em algum lugar” , reforça.

Para ela, poder levar esse projeto para o público do interior é importante, porque ele traz a informação. “É uma realidade nossa achar que nunca vai acontecer com a gente, que é uma realidade distante. Eu também já ocupei esse lugar de achar que o crime só aconteceria nos canais da televisão, até que ele entrou dentro da minha casa” , descreveu.

Assim, segundo Ana Carolina, a situação de cidades menores é um agravante para esse tipo de crime, pois as vítimas acabam tendo medo da exposição, o que muitas vezes as levam a se calar. “As pessoas não querem falar porque todo mundo se conhece, as pessoas não querem comentar porque vai ser apontada na rua. Então, o silêncio, eu acredito que ainda predomina” , comentou. 

Ainda mais por isso, a palestrante considera importante que as pessoas tenham a informação, para saber como tratar e prevenir. “Porque é óbvio que depois que acontece um caso, a tratativa já é diferente. Uma criança ou um adolescente abusados é outra questão que você vai ter que se aprofundar ainda mais” , disse.

Assim, ela considera fundamental os trabalhos de conscientização, como são as palestras que ela promove e que agora chegam à região de Araçatuba. “Se a gente hoje tem a informação e pode ter, por que que a gente não trabalha com ela e com a prevenção?” , questiona.

Legislação

Para Ana Carolina, não é necessário criar mais leis, mas é preciso fazer com que as leis existentes sejam efetivas. Ela considera o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) Digital um grande avanço, por exemplo, ao restringir a exposição das crianças nas redes sociais.

“Essa restrição na venda de conteúdos, na venda de produtos, quando você fala da infância. Porque hoje a Inteligência Artificial é algo que veio para ficar, mas ela deve ser usada de forma extremamente responsável” , alerta. 

Para a palestrante, é importante que as pessoas tenham consciência de que expor uma criança ou um adolescente como um produto, de forma explícita, passa a ter uma regra e um conceito. “A gente sabe que todo mundo acaba burlando isso, mas que ele (o ECA Digital) realmente seja cumprido, pois é o que eu digo, leis não faltam, falta elas serem cumpridas” , reforça.

Mulheres

Por outro lado, quando se trata da proteção às mulheres, Ana considera que as leis são brandas, pois entende que o homem que está decidido a matar, ele irá cometer o feminicídio, independentemente de a vítima obter medida protetiva ou não.

Para ela, a medida protetiva é importante para o agressor que tem medo da Justiça, que tem medo de poder vir a ser preso se for flagrando descumprindo a determinação judicial. “Então, a gente só precisa aprimorar e fazer que as medidas sejam efetivamente aplicadas” , reafirma.

Para ela, outras inciativas que estão sendo adotadas pelo poder público, como no caso do governo do Estado, que implantou a Cabine Lilás e a Sala Lilás, para trazer maior atenção à mulher vítima de violência, são importantes, porém, é impossível saber quais medidas serão suficientes quando se trata de um agressor ou um assassino em potencial.

“Mas é um avanço e mostra que o poder público está de olho e está com essas mulheres. Porque não tem sensação pior do que você estar numa dor, você estar vivendo uma situação difícil e você se sentir desamparada” , comenta, acrescentando que o mais importante nessas medidas é saber que tem alguém olhando, que está avançando, apesar de ainda ter muito a ser feito. 

Imprensa

Da mesma forma, Ana Carolina considera fundamental o papel da imprensa no combate à violência, por ser a ferramenta que propaga a informação de forma rápida e intensa para grandes públicos, e para ela, isso é o que faz a diferença. “Quando você tem uma imprensa engajada, com a informação correta, com a transparência, em passar aquilo que as pessoas precisam saber, de forma intencional, eu acho que isso é primordial” , diz.

Ela comenta que no caso da filha dela por exemplo, a imprensa cumpriu esse papel fundamental de cobrar, de fazer pressão para que as autoridades apresentassem uma resposta. A palestrante acredita até que o tempo considerado curto para o julgamento dos acusados pela morte da filha dela, que aconteceu em dois anos, foi muito porque a imprensa teve essa atuação.

"É obvio que eu sei de pessoas que não tiveram o mesmo sucesso em relação à imprensa, mas no meu caso, posso dizer que estávamos em parceria e parabenizo mais uma vez o trabalho da imprensa” , declara, reforçando que quando se dá luz a um assunto, esse caso vai ser tratado de forma diferente.

Tremembé

Ana Carolina conta que por opção própria, não assistiu a série Tremembé, que retratou o caso da morte da Isabella, na versão dos réus, pai e madrasta dela, que foram condenados pelo crime. Ela justifica que mesmo que não seja real, que seja uma ficção, a série conta a história dela. “Então são gatilhos, eu faço parte dela (da história), eu vi o tamanho da repercussão” , comenta.

A mãe da Isabella afirma que não vê problema no fato de as plataformas contarem as histórias e terem sucesso com isso. Porém, revela que teme o fato de que a sociedade não saiba dividir o que é real e o que é ficção, pois ela considera Tremembé como um entretenimento, assim como ocorre com vários outros filmes de ficção que retratam crimes.

“Você olhar grandes crimes que aconteceram, com os seu assassinos, e olhar para essas pessoas na rua, querer tirar foto, fazer fã clube e fazer com que a pessoa viralize de uma forma errada, é assustador. Isso mostra a sociedade em que a gente está vivendo, em que o errado passou a ser o certo; e isso não pode acontecer” , declara.

Lembrança

Questionada se ela imagina como Isabella seria hoje, com seus 24 anos, Ana Carolina comentou que o que ficou foram sonhos e uma história que ainda poderia ser contada, mas foi interrompida com seus quase 6 anos.

Por fim, Ana Carolina comentou que tem uma afilhada, quase que com a mesma idade da filha dela, que é arquiteta. E afirma que é um sonho poder viver com essa afilhada, o que poderia estar vivendo com a própria filha, que infelizmente não pode ter uma formatura.

“Quando me despedi dela, eu disse que ela poderia ir, que eu cuidaria de tudo aqui. Da forma com que esse projeto cresceu, eu acho que é uma forma de ela própria dizer: Agora vai você, que eu tô cuidando de tudo aqui!” , finalizou. 

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