Opinião

O que está por trás do mau hálito dos pets?

Todos os cães e gatos estão sujeitos à essa condição, sendo que os sintomas são mais intensos e debilitante nos felinos.

Claudimir Couto Jr
27/04/26 às 20h00

Você já deve ter notado que alguns animais apresentam um meu cheiro na boca, às vezes até observou um ou mais dentes faltando. Normalmente estes achados são subestimados pelos tutores, e podem estar relacionados com uma doença silenciosa, que dia após dia vai degradando a gengiva, os ossos e os dentes do seu pet, podendo inclusive gerar um risco de vida a eles em longo prazo.  

Estamos falando aqui da doença periodontal, que é considerada hoje em dia a doença mais comum dos animais de companhia. Estudos já demonstraram que cerca de 85% dos cães acima de 3 anos de idade podem estar sofrendo com esse problema hoje em dia. 

É comprovado que os cães e gatos possuem mais de 400 espécies de microrganismos na boca. Estes microrganismos se alimentam de resíduos de comida, e realizam a formação e o acúmulo de biofilme sobre as superfícies dos dentes.  Este biofilme é composto principalmente por um aglomerado de bactérias, proteínas, restos alimentares e toxinas bacterianas, que vão gerar, no primeiro momento, o mau cheiro (halitose) e uma inflamação na gengiva dos animais (gengivite). Com o passar do tempo, esse biofilme vai se tornando mais denso e começa a acumular cálcio e outros minerais, naturalmente presentes na saliva, e com isso começam a mineralizar, e cerca de 2 a 3 dias depois já formam o cálculo dentário, chamado de tártaro. Após a formação do tártaro, surgem condições ainda melhores para a proliferação das bactérias, que leva a um aumento rápido da quantidade de tártaro nos dentes, e com isso há um agravamento do quadro. Nessa fase é comum observar uma piora na qualidade de vida do animal, pois vai começar a afetar todas as estruturas de sustentação dos dentes, incluindo os ossos e as raízes dos dentes, provocando dor, mobilidade dos dentes, dificuldade para mastigar, salivação, retração de gengiva, secreção nasal, espirros, sangramentos, perda de dentes e até mesmo fraturas de mandíbula ou maxila. Nesse estágio já temos a periodontite instalada. 

Além dessas complicações mencionadas acima, algo muito pior pode estar ocorrendo. A inflamação na gengiva e o aumento da porosidade dos ossos acometidos, favorecem que as bactérias e suas toxinas atinjam a corrente sanguínea e vasos linfáticos, podendo provocar doenças nos mais diversos órgãos do corpo, como, por exemplo, rins (levando a pielonefrite e glomerulonefrite), fígado (hepatite), coração (endocardite e degeneração valvar), pulmões (bronquite e pneumonia), intestinos (enterite), articulações (osteoartroses), sistema nervoso (meningite), complicações na gestação (abortos) e agravamento da diabetes mellitus. 

Então dito tudo isso, é fácil constatar que a saúde oral é fundamental para melhorar a qualidade e a expectativa de vida dos nossos animais. Como já ouvimos diversas vezes na vida, a saúde começa pela boca, sendo ela uma grande porta de entrada para infecções problemas mais graves. 

Após a instalação da doença periodontal, devemos intervir para impedir sua progressão. O tratamento consiste na remoção do tártaro, realizando uma raspagem da coroa dos dentes, seguido de polimento dos dentes após a raspagem, para evitar que superfícies irregulares promovam maior aderência do biofilme após o procedimento. Durante o tratamento, é extremamente recomendado realizar diversas radiografias da boca do paciente, afim de detectar alterações nas raízes dentárias e no arcabouço que sustenta os dentes, pois essas lesões muitas vezes não são observáveis à olho nu, e dentes com alterações nessas estruturas, possuem indicação de serem extraídos, pois podem se tornar focos de infecção e dor futuramente.

Todos os cães e gatos estão sujeitos à essa condição, sendo que os sintomas são mais intensos e debilitante nos felinos. Apesar da doença periodontal ser mais comum em animais mais velhos, há diversos fatores que podem promover o surgimento mais precoce desta doença, como por exemplo ter o focinho encurtado (raças braquicefálicas), como é o caso dos shih tzus , lhasa apso e yorkshire terrier. Outros animais de raças pequenas também podem apresentar tártaro a partir dos 12 meses de idade, devido à redução do espaço entre os dentes, como os spitz, poodles, dachshund, entre outros. Outras condições também podem aumentar incidência da doença periodontal em animais mais jovens, como apinhamento dentário, persistência de dentes decíduos (dentes de leite), má oclusão oral, dentes supranumerários, deficiências do esmalte dos dentes e redução na produção de saliva. Se a maior parte da dieta do paciente for feita com comida caseira ou alimentos industrializados úmidos e macios, isso também reduz o atrito dos dentes, que pode promover a manutenção do biofilme bacteriano, acelerando o surgimento de tártaro nesses animais. 

O ideal é sempre trabalhar com a prevenção, ou seja, enfrentar as bactérias antes que ela se tornem um problema. A melhor maneira de prevenir a doença periodontal, é evitar que o biofilme se forme e se mineralize, para isto devemos investir na escovação diária dos pets, com escova e pasta de dente apropriadas para a espécie. Muitos dos tutores que afirmam escovar os dentes dos pets, os fazem de forma inadequada, uma ou duas vezes por semana, e isso tem a mesma eficácia de não fazer nada, pois após a formação do biofilme, o tártaro vai se fixar em no máximo 2 dias, e ele não vai sair com uma simples escovação. Então a higienização diária da boca dos animais é crucial para prevenir o surgimento do tártaro. 

Muitos animais não colaboram com a escovação, principalmente se não forem acostumados desde filhotes. Nestes casos são sugeridos métodos alternativos, que não tem a mesma eficácia da escovação diária, mas ajudam em uma intensidade menor, como por exemplo: fornecimento de brinquedos de nylon ou borracha dura, materiais de couro tratado e ossos, porém este último item pode promover fraturas de dentes, engasgos e obstrução intestinal, sendo então pouco recomendados para os animais.  Há também rações específicas para prevenção de tártaro, que possui grãos maiores e mais duros, que estimulam a mastigação. Porém vale frisar novamente que nenhum destes métodos é tão eficaz quanto à escovação diária. 

Os animais também sofrem com dor de dente, e ao negligenciar os problemas orais deles, isso pode gerar, além do mau cheiro e dificuldade em se alimentar, problemas graves em órgãos extremamente importantes do corpo. Então caso note qualquer coisa diferente na boca do seu pet, por mais irrelevante que pareça ser, é sempre recomendado levá-lo para uma avaliação com um médico veterinário experiente para começar a investigar o que pode estar acontecendo, e assim estar dando início ao tratamento o quanto antes para evitar sofrimento e melhorar a qualidade de vida dos nossos bichinhos. 

Claudimir Couto Junior,

Nascido em São Bernardo do Campo, formado em medicina veterinário pela Faculdade de Ciências Agrárias de Andradina, fez residência em Clínica Cirúrgica de Pequenos Animais na Unesp/Araçatuba, fez o VIII Curso de Aperfeiçoamento em Cirurgia de Pequenos Animais pela UNESP/Jaboticabal, atua como médico veterinário cirurgião em Araçatuba desde 2020

Claudemir Couto Jr.
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