A mulher que esfaqueou um cabeleireiro em São Paulo após reclamar de um corte de cabelo virou notícia pela brutalidade do caso. Mas o episódio revela algo maior e mais preocupante: estamos vivendo uma sociedade emocionalmente no limite.
A violência não começa na faca. Ela costuma aparecer antes, em ameaças, explosões verbais, intolerância e na incapacidade de lidar com frustrações simples do cotidiano.
Hoje, muita gente vive cansada, ansiosa, pressionada financeiramente e emocionalmente sobrecarregada. Some a isso as redes sociais, onde o ódio virou espetáculo e a agressividade ganha curtidas. O resultado aparece nas ruas, no trânsito, dentro de casa e nas relações de trabalho.
A psicologia alerta há anos para a banalização da violência. Quando discussões agressivas passam a parecer normais, a sociedade perde sensibilidade. O problema é que ninguém explode do nada. Quase sempre existe um acúmulo emocional mal elaborado.
Isso não significa justificar comportamentos violentos. Significa entender que saúde mental também é aprender a suportar frustração, limite e contrariedade, sem transformar tudo em ataque.
Parar e respirar
Talvez esteja faltando justamente isso: gente capaz de parar, respirar e perceber que nem toda irritação precisa virar confronto.
Como psicólogo, uma coisa me chama atenção: as pessoas estão cada vez mais reativas e cada vez menos conscientes do próprio estado emocional. E quem não reconhece o próprio limite acaba descarregando no outro.
Freud, o pai da psicanálise, já dizia que a civilização exige que o ser humano aprenda a conter seus impulsos mais primitivos para tornar possível a vida em sociedade. O problema é que, quando o diálogo desaparece, a empatia enfraquece e a frustração vira intolerável, aquilo que deveria ser elaborado pela palavra passa a sair pelo ato.
E uma sociedade que perde a capacidade de falar sobre sua dor, começa, inevitavelmente, a se ferir.
