Maio é tradicionalmente marcado pelas homenagens do Dia das Mães, mas também tem se consolidado como um mês de alerta para uma pauta que precisa de atenção: a saúde mental materna. Criado no Brasil, o Maio Furta-Cor é um movimento voltado à conscientização sobre os impactos emocionais da maternidade e à defesa do cuidado com mulheres-mães como questão de saúde pública.
O movimento foi idealizado em 2019, na porta de uma creche, por duas mães — uma psiquiatra e uma psicóloga — e lançado nacionalmente em 2021. A escolha de maio está relacionada ao mês do Dia das Mães. Já o termo furta-cor simboliza a diversidade das experiências maternas, que podem envolver afeto e realização, mas também cansaço, culpa, solidão, medo e sobrecarga.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 1 em cada 5 mulheres pode desenvolver algum transtorno mental durante a gestação ou no pós-parto, reforçando a importância de discutir o tema de forma ampla e acessível.
Para Dra. Daniela Costa Lobo, médica psiquiatra, mãe de duas crianças e professora do IDOMED (Instituto de Educação Médica), a campanha é importante porque ajuda a romper a idealização da maternidade.
“Durante muito tempo, a maternidade foi tratada quase sempre pelo viés da entrega e do amor incondicional. Esses aspectos existem, mas não eliminam o sofrimento emocional que muitas mulheres enfrentam. Quando a mãe sente que precisa dar conta de tudo sozinha, sem demonstrar fragilidade, ela pode demorar mais para pedir ajuda” , afirma a professora.
A psiquiatra explica que sinais como tristeza persistente, irritabilidade intensa, crises de ansiedade, isolamento, sensação constante de culpa, alterações no sono e no apetite, perda de interesse pela rotina e sentimento de incapacidade devem ser observados com atenção. Quando esses sintomas se tornam frequentes ou começam a comprometer o dia a dia, a recomendação é procurar apoio profissional.
“O sofrimento psíquico não é fraqueza nem falta de amor pelos filhos. Muitas vezes, é sinal de sobrecarga. A mãe também precisa ser cuidada, escutada e acolhida” , reforça Daniela.
Para Fabrício Otoboni, professor de Psicologia do Unitoledo Wyden, a sociedade precisa substituir a romantização da “mãe forte” por apoio real.
“Muitas mães organizam toda a vida em torno das necessidades dos filhos e acabam deixando de olhar para si. Isso é ainda mais comum entre mães atípicas, que convivem com uma carga emocional e prática muito intensa. O cuidado não pode depender apenas da resistência individual dessa mulher” , afirma.
Segundo ele, a rede de apoio precisa ser concreta. “ Apoiar uma mãe não é apenas dizer ‘conte comigo’. É ajudar com uma tarefa, acompanhar em uma consulta, preparar uma refeição, ficar com a criança por algumas horas ou escutar sem julgamento. Pequenas atitudes podem reduzir muito a sensação de solidão” , completa.
O que as mães podem fazer por si
Embora o cuidado com a saúde mental materna não deva ser uma responsabilidade exclusiva da mulher, algumas atitudes podem ajudar a reconhecer limites e buscar apoio.
Entre elas estão nomear o que sente, pedir ajuda de forma objetiva, evitar comparações, reservar pequenos momentos de pausa e manter acompanhamento de saúde quando necessário.
Cansaço, tristeza, irritação, medo ou frustração não tornam uma mulher menos mãe. Ao contrário, reconhecer esses sinais pode ser o primeiro passo para perceber que algo precisa de atenção.
Pedir ajuda também pode ser mais efetivo quando a solicitação é direta, como apoio em uma consulta, ajuda com uma refeição, cuidado com a casa ou algumas horas de descanso. Especialistas reforçam ainda que psicoterapia, consultas médicas e, quando necessário, acompanhamento psiquiátrico podem ajudar a mãe a lidar melhor com sintomas persistentes e reorganizar a rotina
