Cotidiano

“Não somos contra os homens, somos a favor das mulheres”

A afirmação é da contadora Elisângela Almeida, líder do núcleo de Araçatuba do Grupo Mulheres do Brasil, que inicia as atividades no município

Manu Zambon - Hojemais Araçatuba
05/07/20 às 16h09
Encontro de voluntárias do Mulheres do Brasil, no Paraíso, em São Paulo (Foto: Divulgação)

Matéria atualizada em 9 de julho, às 10h16*

Criado em 2013, a partir da união de 40 mulheres, o Grupo Mulheres do Brasil reúne, atualmente, cerca de 46 mil integrantes em várias partes do Brasil e de outros países, como França, Estados Unidos, Luxemburgo, Japão, Espanha, entre outros.

Araçatuba (SP) acaba de entrar para a lista de cidades brasileiras a ter um núcleo do movimento, presidido pela empresária e ex-CEO do Magazine Luiza, Luiza Helena Trajano, uma das fundadoras do Grupo Mulheres do Brasil.

No município, o núcleo está em fase de estruturação e já possui uma líder, a contadora Elisângela Almeida, que reside em Araçatuba desde janeiro deste ano a trabalho, e uma colíder, a advogada Patrícia Leyser; ambas integram o time da empresa Solinftec, com sede em Araçatuba. 

O processo de liderança é tríplice, portanto, ainda estão à procura de uma terceira pessoa para se unir à dupla.

A reportagem entrevistou Elisângela e Patrícia, via plataforma Zoom. As voluntárias contam sobre como pretendem atuar em Araçatuba e algumas cidades da região, como Birigui, e colaborar com o cenário local. Além disso, destacam algumas pautas que acham importantes, como o feminismo, o empoderamento da mulher negra e políticas públicas.

O que é o grupo?

“É um grupo suprapartidário. Lutamos, entendemos e queremos um Brasil melhor. E é pra isso que trabalhamos. Muito importante a nossa vinda pra cidade, porque o núcleo tem como objetivo apoiar o que já existe”, explica Patrícia. Efetivamente, o grupo, que não tem fins lucrativos, promove uma série de encontros, campanhas e desenvolve cursos, em várias áreas.

“A gente não é contraponto a nenhuma associação. Nós nos unimos a todas. Uma coisa que é muito importante no Grupo Mulheres do Brasil é que somos suprapartidárias. Nem direita, nem esquerda. A gente dialoga com todos os lados. É uma posição importante para que saibam que a gente tem espaço para todos. Somos abertos independente do credo, da posição política”, completa Elisângela.

Os valores do Grupo Mulheres do Brasil são agir com leveza e dar aconchego, destaca a líder. Com relação aos objetivos, o movimento segue também os ODSs (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas), mas sempre levando em consideração as necessidades da mulher local e os projetos que já existem.

Como o Grupo Mulheres do Brasil vai agir em Araçatuba?

Nesta fase inicial, o grupo pesquisa o perfil e quais são as necessidades de Araçatuba, para que assim possa entender como serão os caminhos a serem tomados. “A primeira coisa é resolver aquilo que é necessidade aqui. O que podemos fazer por Araçatuba? Quem faz acontecer não sou eu ou a Patrícia; quem faz, são as pessoas”, destaca Elisângela.

Esse trabalho cooperativo é possível graças à formação de comitês. No total, são mais de 20 grupos com autonomia, que cuidam de temas específicos, como igualdade racial, saúde, agronegócio, políticas públicas, combate à violência contra a mulher, educação, cultura, empreendedorismo, inclusão da pessoa com deficiência, entre outros.  

Em Araçatuba, o comitê do agronegócio é o que está mais adiantado, frisam as líderes. As mulheres que queiram ser voluntárias, podem enviar mensagem no perfil oficial no Instagram . Devido à pandemia, os encontros estão acontecendo on-line.

Para traçar esse perfil de mulheres e meninas do município – o grupo tem o comitê Meninas do Brasil -, incluindo os índices de educação, de violência contra mulher, empregabilidade, entre outros, o grupo ainda busca parceiros que possam fornecer informações de forma precisa.

Feminismo

Elisângela teve seu primeiro contato com o Grupo Mulheres do Brasil em São Paulo, no início do ano passado, se dedicando, principalmente, no comitê de igualdade racial, um dos mais ativos do grupo.

“Quando você pensa que mais da metade da população é negra e vive às margens, numa posição de pobreza, tem que criar políticas públicas específicas para esse grupo, até que um dia exista uma situação mínima de igualdade. Por isso são importantes essas ações”.

Um dos exemplos que Elisângela comenta é sobre o acelerador de carreiras voltado às mulheres negras. De acordo com a líder, uma mulher branca ganha menos do que um homem branco, ocupando a mesma posição hierárquica numa empresa. A mulher negra ganha menos ainda que uma mulher branca, no mesmo cargo.  

Dessa forma, a líder frisa que é importante destacar que o grupo é feminista. “O que é feminismo? É colocar homens e mulheres como iguais. Isso é condição indiscutível. A gente coloca essa força feminina a serviço do nosso País. Não somos contra os homens, somos a favor das mulheres, nessa posição de protagonismo, na construção de um País melhor. Como a gente faz isso tudo? Atuando nas causas sociais”, explica Elisângela.  

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Elisângela, formada em ciências contábeis, reside no município desde janeiro deste ano (Foto: Arquivo pessoal)

Políticas públicas

Para Elisângela, o problema atual do Brasil é a falta de políticas públicas que suprem as necessidades do povo. A líder destaca que o Grupo Mulheres do Brasil não faz assistencialismo, apesar de lançar campanhas para ajudar em alguns casos específicos, como nesta época de pandemia.

Dentre as políticas públicas, Elisângela expõe como exemplo o novo marco legal de saneamento básico (Projeto de Lei 4162/2019), que é uma pauta bem forte do Grupo Mulheres do Brasil. O assunto foi trabalhado pelo grupo, que atuou de forma efetiva na articulação com os senadores que estavam em dúvida ou contra o projeto. No último dia 24, o novo marco foi aprovado.

Essa aprovação já está tendo efeito direto na vida de cidadãos. Na favela de Paraisópolis, por exemplo, moradores entraram na Justiça contra a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), exigindo seus direitos, após a decisão.

Elisângela aponta outras pautas também, como o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), onde as mulheres se articularam em prol da mudança da data da prova devido à pandemia, e temas antirracistas.

“A pauta este ano era educação, seguida de combate à violência contra a mulher e igualdade racial. Era um projeto muito grande de valorização dos professores, mas por causa da pandemia, não foi possível. Então, parte do grupo teve que agir nas causas sociais”, frisa Elisângela.

Nesse sentido, uma das causas sociais que Patrícia ressalta é o aumento significativo da violência contra a mulher nos últimos quatro meses. Com o isolamento, as vítimas ficam confinadas dentro de casa, muitas vezes com o próprio agressor, o que contribui para que haja esse aumento de casos. “Precisa de uma mobilização, que foi o que a Luiza (Trajano) fez por meio do grupo. Se não tomarmos uma medida, teremos muito mais mortes”, afirma a advogada.

Igualdade racial

Nos últimos 10 anos, pouca coisa mudou no Brasil com relação o negro no mercado de trabalho, destaca Elisângela. “Fala-se bastante hoje, mas ainda faltam muitas políticas e ações públicas. E a mulher negra, historicamente, empreende mais, pela falta de oportunidade no mercado corporativo. Ela vai empreender na costura, na alimentação, em vendas, porque ela não teve a oportunidade. O fato é que o brasileiro empreende por necessidade”, reflete Elisângela.

Patrícia é advogada e atua como supervisora administrativa na Solinftec (Foto: Arquivo pessoal)

Um dos pilares mais fortes dentro do Grupo Mulheres do Brasil é o comitê de igualdade racial, que tem como objetivo também reverter essa situação.

Elisângela conta que atualmente há políticas em empresas voltadas a empregar essa população, no entanto, é preciso acelerar o processo. 

“Essas empresas devem, conscientemente, pelo menos empregar algumas metas. Falar: - ‘Olha, neste ano, vamos contratar pelo menos 30% de mulheres, de negros’. Tem que ser intencional, não esperar acontecer ou um negro bater na sua porta. Muitas vezes, quando um negro vê uma empresa grande, pensa em nem levar seu currículo. Por isso que o acelerador de carreira é importante. É reativar a mulher que deixou de sonhar. Elas têm competência técnica”, constata Elisângela.

Elisângela apoia o movimento #VozesNegrasImportam, que surgiu no início de junho, após a morte do adolescente João Pedro e do assassinato do norte-americano George Floyd. Como parte da campanha, influenciadores e profissionais com destaque cederam espaços on-line para que vozes negras pudessem falar de seus trabalhos e expor conteúdos educativos sobre a temática.

“A gente vê, muitas das vezes, a mulher e o homem negro sendo chamados só para falar de diversidade. Vai falar de racismo, só tem negros falando sobre isso. Não chama uma mulher ou homem negro para falar de finanças, tecnologia. Não que não devamos falar sobre racismo; queremos falar sobre isso e queremos que brancos também falem. Nunca fui da opinião sobre o lugar de falar. Todo mundo tem que falar. O racismo estrutural é um problema do Brasil, é o que emperra o crescimento do País”, salienta.

“Não basta não ser racista, tem que ser antirracista. Ou você é uma coisa ou outra, se não, você é simpatizante. Então, esteja do lado antirracista. Muitas vezes, as pessoas participam do racismo estrutural inconscientemente. Mas se quer passar por um nível acima, se torne antirracista”, conclui.

*Matéria atualizada a pedido do grupo para substituir a palavra apartidário por suprapartidário, alterar as formas de participação no grupo. 


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