Cotidiano

Projeto mobiliza profissionais da beleza no combate à violência em Araçatuba 

Iniciativa da Prefeitura possui mais de 60 profissionais participantes e grupo com 50 colaboradores

Manu Zambon  - Hojemais Araçatuba 
07/09/19 às 09h00
Escola Kalu de Cabeleireiros vai incluir em apostila informações de lei Maria da Pena (Foto: Divulgação)

“Recebemos mulheres que chegam aqui desesperadas. Já recebemos mulheres com cabelo cortado a faca. O cabelo era comprido e o companheiro cortou. E essa mulher procurou a gente”. O depoimento é da coordenadora da Escola Kalu de Cabeleireiros, Janete Scavassa, que participa do projeto Beleza Solidária, lançado esta semana pela Prefeitura de Araçatuba (SP).

A iniciativa, mesmo sendo uma novidade no município, já conta com mais de 60 profissionais da beleza participantes, divididos entre salões e autônomos. Com o tema “Bonito é ter Respeito”, o objetivo é ajudar no combate à violência doméstica e familiar contra a mulher.

Beleza Solidária traz a proposta de qualificar profissionais da área da beleza para serem agentes multiplicadores de informação ao combate à violência. Com isso, a ideia da Prefeitura é reduzir os índices. 

“Onde a mulher tende a ir mais e acaba se abrindo? Nos salões de beleza. Quem nunca foi fazer uma unha, um cabelo? Muitas mulheres têm confiança na cabeleireira e aí acaba falando quando não está bem. Às vezes, aquela mulher que sempre chega alegre, de repente chega meio triste no salão e o profissional já percebe”, explica a coordenadora do CRM (Centro de Referência da Mulher), Sandra Ferreira Costa. O CRM é um equipamento ligado à Secretaria Municipal de Assistência Social, é um dos parceiros da iniciativa.

Capacitação

Os salões e autônomos foram escolhidos para o projeto porque possuem um contato grande com as mulheres e uma relação de confiança com elas. A coordenadora também destaca a importância de envolver designers de sobrancelhas, depiladoras, esteticistas, entre outros, porque podem perceber quando a mulher apresenta hematomas e machucados pelo corpo.

Nesses casos, os profissionais estão orientados a ofertar para a mulher um kit composto por folder informativo, lixa de unha e escova de cabelo, com dados do CRM.

“Nós somos um equipamento que acolhe mulher em situação de violência doméstica. Nosso trabalho é o de fortalecimento dessas mulheres. Temos técnicas, psicólogas e atendimento jurídico por meio de parceria com a Defensoria Pública”.

Apostila

Janete, que coordena aproximadamente 60 alunos atualmente, na escola, acredita que o projeto irá ajudar tanto profissionais da beleza, que antes não sabiam orientar essas mulheres, e vítimas. Os estudantes, além de saírem formados da escola, saem como agentes multiplicadores.

Além de terem passado pela capacitação, a meta é incluir a temática na apostila do curso.

“Vamos inserir informações sobre a lei Maria da Penha, o que é cada tipo de  violência, para os alunos já terem esse conhecimento. Hoje, não temos nada desse tipo. A gente pretende ajudar as mulheres, que sofrem tanto com essas violências. E como é um ciclo, elas não conseguem sair dele sozinhas. A gente percebe muito isso no dia a dia, porque atendemos muitas mulheres aqui”, detalha Janete.

Além do caso relatado pela coordenadora, também já vivenciaram outros, como o de uma mulher que apareceu na escola com a cabeça raspada, fruto de violência praticada por seu parceiro.“Essas mulheres conversam com a gente e às vezes desabafam muito mais do que com um amigo ou membro da família. Aqui, elas relaxam e se sentem seguras para conversar”, finaliza Janete.

O projeto ainda recebe o apoio da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e Cras (Centro de Referência de Assistência Social). Segundo a assessoria de imprensa da Prefeitura, estão envolvidos com a iniciativa 50 profissionais das áreas de Assistência Social, Judiciário e Administrativo. 

Mulheres atendidas receberão kits com informações da lei Maria da Penha (Foto: Manu Zambon)


Número de mulheres atendidas no CRM diminuiu

Em 2018, o CRM (Centro de Referência da Mulher), de Araçatuba, atendeu 817 mulheres. No mesmo ano, no período de janeiro a julho, foram 436 mulheres atendidas, quase o dobro do número registrado neste ano, que foi de 293, segundo a coordenadora do centro, Sandra Ferreira Costa.

No CRM, a mulher passa por uma assistente social, que faz a primeira escuta qualificada. Se for o caso, a vítima é encaminhada para a psicóloga do centro. O objetivo é fortalecer e recuperar a autoestima da mulher, para que ela consiga procurar a delegacia, se for necessário. “Nossa assistente social vai com ela até a delegacia, se precisar ir no IML também”.

Sandra destaca os tipos de violências sofridas pelas mulheres, previstas na lei Maria da Penha, que são: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial. O maior número de casos é de violência psicológica, oriunda de relacionamentos abusivos e dependência afetiva. No entanto, muitas mulheres chegam com vários direitos violados.

“Porque muitas chegam aqui adoecidas psicologicamente. Então, fazemos o que é necessário”, explica Sandra, que destaca que nem toda violência doméstica é cometida por parceiro, podendo ser praticada por filho, neto, padrasto, tio, primo, entre outros.

Perfil

As vítimas mais frequentes têm em torno de 30 e 40 anos, trabalham foram e possuem um certo grau de escolaridade. “Não é só a mulher mais vulnerável, carente. Atendemos funcionárias públicas, professoras, vendedoras, tem de tudo. São de classe média. Violência não tem classe e nem religião”, diz.

Essas mulheres, quando decidem procurar ajuda, é porque já foram submetidas a vários episódios de violência. Nunca é na primeira vez, destaca Sandra. “No ciclo da violência, tem o momento das discussões, depois vem a explosão e em seguida a fase da lua de mel, que é o momento que ele fala que vai mudar. Fica calmo por um tempo e depois começa novamente”, conta Sandra.

Atendimento

O atendimento é gratuito, sigiloso e a mulher recebe outros encaminhamentos, caso precise, para o mercado de trabalho, saúde mental, IML (Instituto Médico Legal) etc. Atualmente, o local conta como trabalho de duas assistentes sociais e duas psicólogas.

Para ser atendida no CRM, a mulher não precisa ter feito boletim de ocorrência. Basta procurar o atendimento, na rua Chiquita Fernandes, 615, no bairro das Bandeiras ou ligar no telefone (18) 3623-4909. A mulher vítima de violência doméstica e familiar pode também ligar no 180, gratuitamente.

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