“Recebemos mulheres que chegam aqui desesperadas. Já recebemos mulheres com cabelo cortado a faca. O cabelo era comprido e o companheiro cortou. E essa mulher procurou a gente”. O depoimento é da coordenadora da Escola Kalu de Cabeleireiros, Janete Scavassa, que participa do projeto Beleza Solidária, lançado esta semana pela Prefeitura de Araçatuba (SP).
A iniciativa, mesmo sendo uma novidade no município, já conta com mais de 60 profissionais da beleza participantes, divididos entre salões e autônomos. Com o tema “Bonito é ter Respeito”, o objetivo é ajudar no combate à violência doméstica e familiar contra a mulher.
Beleza Solidária traz a proposta de qualificar profissionais da área da beleza para serem agentes multiplicadores de informação ao combate à violência. Com isso, a ideia da Prefeitura é reduzir os índices.
“Onde a mulher tende a ir mais e acaba se abrindo? Nos salões de beleza. Quem nunca foi fazer uma unha, um cabelo? Muitas mulheres têm confiança na cabeleireira e aí acaba falando quando não está bem. Às vezes, aquela mulher que sempre chega alegre, de repente chega meio triste no salão e o profissional já percebe”, explica a coordenadora do CRM (Centro de Referência da Mulher), Sandra Ferreira Costa. O CRM é um equipamento ligado à Secretaria Municipal de Assistência Social, é um dos parceiros da iniciativa.
Capacitação
Os salões e autônomos foram escolhidos para o projeto porque possuem um contato grande com as mulheres e uma relação de confiança com elas. A coordenadora também destaca a importância de envolver designers de sobrancelhas, depiladoras, esteticistas, entre outros, porque podem perceber quando a mulher apresenta hematomas e machucados pelo corpo.
Nesses casos, os profissionais estão orientados a ofertar para a mulher um kit composto por folder informativo, lixa de unha e escova de cabelo, com dados do CRM.
“Nós somos um equipamento que acolhe mulher em situação de violência doméstica. Nosso trabalho é o de fortalecimento dessas mulheres. Temos técnicas, psicólogas e atendimento jurídico por meio de parceria com a Defensoria Pública”.
Apostila
Janete, que coordena aproximadamente 60 alunos atualmente, na escola, acredita que o projeto irá ajudar tanto profissionais da beleza, que antes não sabiam orientar essas mulheres, e vítimas. Os estudantes, além de saírem formados da escola, saem como agentes multiplicadores.
Além de terem passado pela capacitação, a meta é incluir a temática na apostila do curso.
“Vamos inserir informações sobre a lei Maria da Penha, o que é cada tipo de violência, para os alunos já terem esse conhecimento. Hoje, não temos nada desse tipo. A gente pretende ajudar as mulheres, que sofrem tanto com essas violências. E como é um ciclo, elas não conseguem sair dele sozinhas. A gente percebe muito isso no dia a dia, porque atendemos muitas mulheres aqui”, detalha Janete.
Além do caso relatado pela coordenadora, também já vivenciaram outros, como o de uma mulher que apareceu na escola com a cabeça raspada, fruto de violência praticada por seu parceiro.“Essas mulheres conversam com a gente e às vezes desabafam muito mais do que com um amigo ou membro da família. Aqui, elas relaxam e se sentem seguras para conversar”, finaliza Janete.
O projeto ainda recebe o apoio da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e Cras (Centro de Referência de Assistência Social). Segundo a assessoria de imprensa da Prefeitura, estão envolvidos com a iniciativa 50 profissionais das áreas de Assistência Social, Judiciário e Administrativo.
