Cotidiano

Projeto recupera áreas verdes e possibilita produção de alimentos em Birigui

Você já ouviu falar em agrofloresta urbana? Conheça dois projetos que foram implantados e que estão dando certo em Birigui

Aline Galcino - Hojemais Araçatuba
08/12/20 às 09h00
Plantio de árvores é feito em linhas e podas viram adubo (Foto: Aline Galcino/Hojemais Araçatuba)

Aliar a preservação de áreas verdes das cidades com a produção de alimentos parece uma situação impossível. Mas não é o que mostra o resultado de dois projetos de agroflorestas urbanas implantados pela Secretaria de Meio Ambiente de Birigui (SP).

Em pouco tempo – menos de dois anos – os espaços que serviam para descarte irregular de entulho e materiais foram transformados em locais arborizados por famílias que abraçaram a ideia.

O diretor de Práticas Sustentáveis da Secretaria de Meio Ambiente de Birigui, Jefferson Rabal, conta que o projeto nasceu da busca por uma solução a um sério problema do município, que são as áreas verdes abandonadas, usadas para outras finalidades que não a ambiental.

“Então veio a ideia de aproveitar e transformar uma área verde que está abandonada, como essa aqui (do bairro Granville), tendo esse olhar ambiental e o olhar social”, explicou à reportagem.

Quando se fala em espaços sustentáveis, segundo Rabal, é preciso inserir o ser humano. No caso da agrofloresta do bairro Granville, o projeto começou com uma sensibilização de moradores da região, ainda em 2018, envolvendo as questões econômica e social. As famílias passaram pelo Cras (Centros de Referência da Assistência Social) e elas podem utilizar a área para a geração de renda, comercializando o excedente do que é produzido.

Todas moram em bairros próximos e têm uma “linha” (um espaço com cerca de 5 metros de largura por 100 m de comprimento, totalizando 500 m² por família) dentro da agrofloresta para plantar o que quiserem. A área total tem cerca de 8 mil m² (metros quadrados) e começou a ser utilizada efetivamente para o plantio em 2019.

A partir da esq., Marcos Queiroz Silva, Valmir de Almeida e Edson Carlos Nardin, o Mazola na agrofloresta da Tijuca (Foto: Aline Galcino/Hojemais Araçatuba)

Iniciativa

Já no bairro Tijuca foram os próprios moradores que tiveram a iniciativa de procurar a Secretaria de Meio Ambiente com intuito de reflorestar e cuidar da área e acabaram recebendo suporte para a implantação da agrofloresta. Diferente da Granville, no projeto da Tijuca estão envolvidas 15 famílias que moram ao redor da área verde, o que garante uma vigília permanente. O terreno também tem cerca de 8 mil m².

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Renda

A dona de casa Zilda Vitorino, 48 anos, moradora do Portal da Pérola 2, está no projeto da agrofloresta Granville desde o início e mostra orgulhosa os frutos de seu trabalho na “linha” que cuida. “Já colhi maxixe, verduras, feijão e isso ajuda a economizar com mercado”, conta ela, que tem a ajuda do marido e de uma filha nos cuidados com a plantação.

No seu espaço há 17 árvores, entre elas, várias frutíferas: tangerina, limão, laranja, manga e banana são algumas que já estão com frutos.

Zilda mostra com orgulho o pé de manga carregado de frutos (Foto: Aline Galcino/Hojemais Araçatuba)

O aposentado José Rodrigues de Souza, 74 anos, morador do bairro Candeias, é apontado pelo grupo como “líder”. É dele a “linha” com maior variedade de alimentos, que exige sua ida ao local pelo menos três vezes ao dia. Mandioca, pimenta, cebola, quiabo, jiló, banana, mamão, laranja, mexerica, rabanete, berinjela são alguns dos itens que ele mostra para a reportagem.

“Minha mulher não precisa mais fazer feira em mercado, pois aqui eu consigo uma grande variedade de alimentos, não damos conta de comer tudo. Alguns eu doo, outros eu vendo e ainda consigo dinheiro para comprar mais mudas e sementes”, disse.

Mesmo com experiência de anos com trabalho na agricultura, seu Zé, como é chamado, conta que aprendeu muitas técnicas diferentes com o projeto, que o ajudam a ter uma boa produção. Outro benefício que ele cita é o emocional. “Não gosto de ficar em casa, estar aqui é também uma distração para mim, me faz bem”, ressalta.

Seu Zé passa grande parte de seus dias cuidando de seu espaço na agrofloresta do bairro Granville (Foto: Aline Galcino/Hojemais Araçatuba)

Ricardo Veloni, de 43 anos, morador no bairro Atenas, é um dos mais novos integrantes do projeto. “Eu via esse terreno e as pessoas aqui dentro, mas eu achava que era particular, até que um dia eu perguntei e fui orientado a procurar o Cras”, conta.

Sem emprego fixo desde janeiro deste ano, ele conta que o projeto ajuda muito na alimentação da família e ainda garante uma renda. “Se não fossem os roubos eu conseguiria pagar todas as contas da casa só com a produção da agrofloresta. Essa parte desanima, mas o projeto em si é excelente”, disse.

Embora a área seja cercada com um alambrado, conseguido em parceria com um empresário local, já foi invadida várias vezes. Os bandidos levaram grande parte da produção que estava próxima da colheita.

Na Tijuca, iniciativa partiu dos moradores

Mazola mostra poda feita em pé de manga para garantir copas altas (Foto: Aline Galcino/Hojemais Araçatuba)

A realidade é diferente na agrofloresta do bairro Tijuca, onde os envolvidos no projeto moram todos ao redor da área verde, garantindo a segurança. Esse item, aliás, é um dos pontos mencionados quando eles falam das mudanças que o projeto proporcionou ao bairro.

Tudo começou com uma ida do aposentado Edson Carlos Nardin, conhecido como Mazola, à Secretaria de Meio Ambiente para pedir mudas de árvores.

Morador do bairro há cerca de 8 anos, ele não aguentava mais ver o descaso com o local, que recebia entulho, lixo e até animais mortos. Quando precisou fazer uma cirurgia, que o afastou das atividades de rotina, conseguiu mais tempo para observar o espaço e pensar em soluções.

Começou pelo trecho em frente à casa dele, limpando o terreno e plantando algumas árvores. “Fui na secretaria pedir algumas mudas e lá me perguntaram onde eu queria plantar. Depois, eles vieram ver a área e iniciaram um levantamento para ver se era realmente uma área verde. Com a resposta afirmativa, me apresentaram o projeto da agrofloresta”, lembra Mazola.

Com mais tempo em casa, o aposentado ficou encarregado de conversar com os demais moradores para viabilizar a implantação do projeto, que já é considerado modelo.

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Resgate

Em pouco mais de um ano, foram plantadas 396 árvores no local, entre nativas e frutíferas. Várias espécies são um resgate de plantas nativas do cerrado que não existem mais na região de Araçatuba (que é de transição de cerrado para mata atlântica), tais como: emburana, pau-d’alho, jaracatiá, ipês, copaíba, pequi, entre outras.

As árvores são plantadas em linhas e recebem manejo de modo a garantir o cultivo de alimentos entre elas. A poda, por exemplo, é feita para viabilizar o crescimento da árvore e permitir a entrada de sol nos alimentos que ficarão aos seus pés. As folhas são reutilizadas como adubo e não é feito uso de agrotóxicos.

Há ainda grande variedade de ervas medicinais, pancs (Plantas Alimentícias Não Convencionais) e até plantas ornamentais

Área verde ganhou iluminação LED em julho deste ano; moradores agora esperam pista de caminhada (Foto: Divulgação)

Melhorias

Os moradores também conseguiram iluminação para o local. Em julho deste ano, foram instalados 38 postes, com lâmpadas LED, posicionadas abaixo das copas das árvores existentes. Agora, eles podem usufruir do espaço mesmo no período noturno.

A próxima melhoria, segundo Mazola, é a construção de uma pista de caminhada, já prometida por deputado federal, por meio do intermédio do vereador Fabiano Amadeu (Cidadania), que é um dos apoiadores do projeto no Tijuca.

Birigui tem cerca de 300 árvores verdes

Levantamento da Secretaria de Meio Ambiente de Birigui indica cerca de 300 áreas verdes cadastradas na Prefeitura, a maioria delas abandonada.

Para mudar essa situação, foi apresentado o projeto de agroflorestas urbanas ao Conselho do Meio Ambiente em 2018. O objetivo é aliar o respeito ao meio ambiente com a melhoria da qualidade de vida da população, já que áreas arborizadas melhoram a qualidade do ar.

Segundo Jefferson Rabal, a agrofloresta nada mais é do que o plantio de árvores de várias espécies com produção agrícola de interesse alimentar. O plantio é planejado de acordo com o tempo que a árvore ficará dentro do sistema – tem plantas que ficam 30 dias e outras, 500 anos.

O sistema imita a natureza. O solo é coberto por vegetação que cai naturalmente das árvores e que serve com adubo, há muitos tipos de plantas juntas e não é utilizado agrotóxico.

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