Cotidiano

Setembro Verde: a inclusão das pessoas com deficiências

Conheça as histórias de quatro moradores de Araçatuba (SP) que superaram as barreiras do preconceito

Aline Galcino - Hojemais Araçatuba
20/09/20 às 14h41

A lei 13.146, de 6 de julho de 2015, conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência, considera “pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.”

Embora o próprio texto cite que não há condições de igualdade, diferente de alguns anos atrás, hoje as pessoas com deficiência (PCDs) estão cada vez mais participativas na sociedade.

Neste Setembro Verde, mês oficial da inclusão da pessoa com deficiência, o Hojemais Araçatuba conta histórias de quatro moradores de Araçatuba (SP) que superaram as barreiras do preconceito.

Setembro foi o mês escolhido, pois no dia 21 é comemorado o Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência. Já o verde simboliza a esperança e o renascimento.

Ana Cláudia, Pedro, Lilian e Luís Alberto são adultos e usuários da Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Araçatuba, instituição que frequentam há décadas e que trabalha para dar autonomia a pessoas como eles, que têm uma deficiência, porém que têm muitos talentos a serem explorados.

Preconceito e superação

"Hoje penso que o preconceito existe na hora que ele te atinge", diz Maria Célia, ao lado da filha Lilian (Foto: Aline Galcino/Hojemais Araçatuba)

Maria Célia de Jesus Gonçalves soube que a filha tinha Síndrome de Down assim que a menina nasceu, em Santos (SP). Com apoio de um primo, estudante de medicina na época, buscou atendimento de imediato. Lilian Célia de Jesus Gonçalves, hoje com 48 anos, foi assistida por um médico especialista em alterações cromossômicas, que informou à família que ela poderia ser alfabetizada normalmente.

Começou a andar aos 2 anos e 3 meses de idade, quando soltou também as primeiras palavras: “papai”, “mamãe” e “água”.

Maria Célia, que na época morava em Cubatão, matriculou Lilian aos 4 anos em uma escola particular de ensino regular. Porém, foi depois que a irmã nasceu (Lilian tinha 6 anos na época) que o desenvolvimento de Lilian acelerou.

“A Daniela (segunda filha de Célia) andou com 9 meses de idade. Ela era muito precoce. E a Lilian passou a acompanhar a irmã”, conta a mãe.

Lilian sofria com problemas respiratórios, por isso, a família escolheu Araçatuba, uma cidade de clima quente e ar puro para viver.

Contente pela saúde da filha, que melhorou muito após a mudança, a família se viu triste e quase foi embora da cidade devido ao preconceito.

“Matriculei ela numa escola particular e dias depois a diretora me chamou dizendo que não poderia aceitar a Lilian, porque perderia alunos. Os pais não queriam minha filha na mesma escola que os filhos deles. Aquilo me marcou. Chorei muito, mas muito e queria ir embora, pois uma cidade que não acolhe minha filha, não serve para mim também.”

Uma vizinha, que também tinha uma criança especial, orientou Maria Célia a procurar a Apae. “Quando eu levei a Lilian no médico em São Paulo e ele viu as atividades que ela fazia na associação, ficou encantando e disse que eu estava no caminho certo”, recorda.

"Pit down"

Na Apae, Lilian aprendeu as atividades cotidianas básicas, além de escrever (função que ela executa muito bem) e a leitura mais básica. Também gosta das aulas de educação física, natação e pintura em papel e tecido.

Fora da escola, a dança era uma paixão, mas devido a um problema no joelho, não pode praticar mais. Também gosta muito de música e é fã do cantor Daniel. Tem coleção de CDs e DVDs dele e já teve duas oportunidades de estar perto e tirar fotos com o cantor, a última delas no aniversário de Araçatuba no ano passado.

Lilian conta que não gosta de sair sozinha de casa, porém adora passear, principalmente com as duas irmãs e os três sobrinhos, por quem tem um carinho especial e fez questão de citar várias vezes durante a entrevista. “Adoro ir ao Hot Planet, nas piscinas, mas agora não pode mais”, cita chateada com o isolamento que está sendo obrigada a fazer.

É excelente com serviços domésticos: lava louça, quintal , limpa a casa e cozinha sempre com a supervisão da mãe que teme pelo uso do fogo.

Também sabe definir a síndrome que possui. “Pit down (como ela pronuncia) é uma pessoa feliz, que sai com pais e a família, que vai a festas. Tem problema na cabeça, na língua, tem mãozinha, cabecinha, os olhos, mas é feliz”, disse.

Maria Célia afirma que ela e o marido (falecido em 2013) lutaram para que a filha pudesse fazer o que qualquer criança faria. “Hoje penso que o preconceito existe na hora que ele te atinge. Por isso, levo a Lilian em todo lugar que vou, é minha companheira de todas as horas, independente do que pensam ou falam”, diz. 

Amigo de todos

Mesmo com dificuldade de locomoção, Pedro costumava "bater perna" pelo bairro Planalto, onde sempre morou (Foto: Aline Galcino/Hojemais Araçatuba)

Ao contrário de Lilian, Pedro Nilton Quintana, 52 anos, adora “bater perna” sozinho. Mesmo com dificuldade de locomoção, desde pequeno, ele sai sozinho para conversar com a vizinhança do bairro Planalto que ele conhece como a palma da mão.

“Todo mundo conhece o Pedro por aqui. Ele andava pelas calçadas de bumbum no chão, desde criança. Direto ele voltava para casa com carro de polícia ou de conhecidos que o encontravam e o traziam e ele adorava”, conta a mãe Gilca Silveira Quintana de Faria.

De tanto “conversar”, os vizinhos já aprenderam a entender os gestos e palavras pronunciadas com certa dificuldade por Pedro.

“Eu posso sair de casa e se alguém aparece aqui, ele explica certinho que eu fui à igreja ou que eu fui à farmácia, sabe se vou demorar ou se volto rápido porque eu converso e explico tudo para ele e ele entende perfeitamente”, diz a mãe.

Duas vezes na semana, Pedro frequenta as atividades para adultos na Apae. Desenho e capoeira são as preferidas. Vai e volta de ônibus com outros estudantes e usuários.

Agora, está bravo com a pandemia de covid-19 que impede que ele interaja com os colegas. “No início, ele achava que era eu quem não queria deixar ele ir para a Apae. Saiu perguntando para todos os vizinhos se não estava tendo aulas mesmo, até que ele se conformou”, conta a mãe.

Fraturas

Pedro teve uma lesão cerebral no parto, que afetou a locomoção e fala. Segundo filho de quatro irmãos, dona Gilca conta que ele teve várias fraturas de ossos ao nascer causado pelo uso de fórceps e ficou cerca de dez dias na incubadora.

“Os médicos falaram que como ele era bebê, os ossos colariam rapidinho e foi o que aconteceu. Eu só percebi que tinha algo errado quando ele tinha uns seis meses de idade, porque ele não tinha firmeza para sentar. Falei para o meu marido, que a princípio relutou, dizendo que a doente era eu. Mas ele passou a observar também e algum tempo depois conversamos sobre buscar ajuda médica”, lembra a mãe.

O diagnóstico veio de um médico alemão que morou em Araçatuba por um tempo. Devido às lesões do parto, Pedro demoraria muito mais a andar e falar, mas conseguiria desenvolver essas capacidades motoras.

Pedro fazia sessões de fisioterapia particular e os pais conheceram o trabalho da Apae por meio de um vizinho, que também tinha um filho especial. Com as atividades na associação, desde os 4 anos de idade, o desenvolvimento de Pedro acelerou.

Dona Gilca, Pedro e a irmã Cláudia: tratamento era igual para os quatro filhos (Foto: Aline Galcino/Hojemais Araçatuba)

A locomoção começou com o “bumbum” no chão. Andar mesmo foi aos 13 anos, a “alegria do avô”, como definiu Gilca.

Mesmo com algumas dificuldades, Pedro tem autonomia. Consegue cuidar da higiene pessoal e da alimentação, e ainda desenvolve as atividades na Apae. Santista, não perde um jogo na televisão. Aniversários da família também são sempre lembrados por Pedro.

Ao ser questionada sobre o modo como criou Pedro, dona Gilca diz que sempre o tratou igual aos demais filhos, pois não será eterna.

A irmã de Pedro, Cláudia Regina Quintana de Faria, diz que só hoje entende o pensamento da mãe. “Tudo o que a gente fazia, ela deixava o Pedro fazer também, inclusive as broncas e castigos quando aprontávamos. Eu achava que por ele ser especial, deveria ter um tratamento diferente. Hoje eu entendo a intenção dela”, explica Cláudia.

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Sonho era trabalhar

Ana Cláudia comemora as conquistas que teve com o novo emprego (Foto: Aline Galcino/Hojemais Araçatuba)

Ana Cláudia de Almeida Sueros, 37 anos, conta com satisfação a conquista do tão sonhado primeiro emprego.

A oportunidade com empacotadora, dada por uma rede de supermercados com loja em Araçatuba, teve início em julho do ano passado, e deu ainda mais confiança à jovem, que se destaca pela quantidade de amigos que faz por onde passa.

A mãe de Ana Cláudia, Valdelice Vieira de Almeida Sueros, conta que a filha pedia muito para trabalhar. Chegou a ser encaminhada para vagas em outras empresas, mas não conseguiu aprovação. Porém, não desistiu.

“No ano passado, o mercado procurou a Apae porque precisava de PCDs. A instituição ofereceu o curso de empacotador e ela participou, aprendendo rapidinho a função”, lembra orgulhosa a mãe.

Ana Cláudia diz que também passou por treinamento no mercado antes de iniciar e que adora o que faz, embora o emprego tenha mudado sua rotina e tirado alguns prazeres, como as aulas de zumba que ela tanto gostava e as visitas à casa da vizinha, onde costumava passar parte das tardes.

Também conta com entusiasmo as coisas que conseguiu comprar com o salário que recebe. “Uma televisão no quarto, meu aparelho dentário e as consultas no dentista e um micro-ondas de presente para minha mãe”, enumera.

Nas primeiras férias, foi com os pais para a casa da irmã em Araras e fez questão de ajudar com o combustível e pedágios. “Também tenho uma lista de desejos, de coisas que ainda vou comprar”, ressalta.

Dificuldade

Ana Cláudia entre os pais Valdelice e Ziquiel, de quem sempre teve apoio (Foto: Aline Galcino/Hojemais Araçatuba)

Ana Cláudia deu os primeiros passos e falou as primeiras palavras como toda criança. A descoberta do problema só se deu depois que ela entrou na rede pública municipal, onde frequentou a antiga pré-escola (equivalente hoje ao 1º ano do ensino fundamental) e a 1ª série (2º ano). “Na 1ª série fomos chamados à escola porque ela não conseguia acompanhar a turma. A orientação foi que procurássemos a Apae para uma avaliação. Passamos por uma triagem na instituição e depois tivemos um laudo médico que apontava para um retardamento mental e deficiência motora leves”, lembra Valdelice.

Foi matriculada na Apae em 1992, aos 9 anos. Porém, mesmo com empenho para a alfabetização, Ana Cláudia não conseguiu aprender a ler e escrever. Por outro lado, tem facilidade para gravar imagens, decorar letras de músicas e etc. “Nesses anos todos, ela desenvolveu outras habilidades e hoje, graças a Deus, ela é independente de nós. Ela lava louça, cozinha muito bem, pinta tecidos, frequenta a igreja e trabalha”, enumera a mãe.

O pai Ziquiel de Almeida Sueros ressalta a importância da inclusão e da oportunidade no mercado de trabalho para as PCDs. “No início, ficamos inseguros. Mas se não tivesse essa oportunidade, nem nós saberíamos que ela é capaz. É importante esse acolhimento”, disse.

Amor por esportes

Se fosse para definir Luis Alberto da Silva, 49 anos, com uma palavra, seria “esportista”. Já foi goleiro em campeonatos de futsal, nos quais ganhou medalhas em vários municípios, exibe com orgulho um troféu que conquistou em campeonato de pipa e está na terceira corda da capoeira. “Era para eu ter a quarta já, mas não estou indo nas aulas porque parou tudo”, conta sobre os reflexos do novo coronavírus em sua vida.

“Corinthiano roxo”, coleciona itens com o símbolo do timão - de quadros a camisetas e cobertor - e não perde um único jogo na televisão. A paixão é tanta que, há oito anos, fez uma viagem a São Paulo para conhecer o campo do Corinthians, onde tirou foto com alguns jogadores.

Também gosta de dançar e faz desenhos e artesanato durante as idas à Apae. Católico, não perde uma missa aos domingos. Mesmo sem saber ler e escrever, fez catecismo, primeira comunhão e crisma, e ainda frequentou grupo de jovens da igreja do bairro.

Toda essa desenvoltura a mãe Carmelita Gonzaga da Silva atribuiu à associação, a qual Luis Alberto frequenta há 43 anos.

Luis Alberto exibe troféu, cordas da capoeira e medalhas conquistadas em esportes (Foto: Aline Galcino/Hojemais Araçatuba)

Lesão

Quando nasceu, Luis Alberto não aparentava problema algum. Começou a andar com 1 ano de idade. A fala demorou um pouco mais, porque tinha a língua presa e precisou passar por cirurgia para correção.

Aos 2 anos de idade, começou a ter lacrimejamento constante. Os pais o levaram a um oftalmologista, que encaminhou a criança para um neurologista.

“Na época, após exames, o médico me disse que ele tinha uma lesão no lado direito do cérebro, por isso as lágrimas. Mas nunca me explicaram o que causou essa lesão”, diz a mãe.

Aos 3 anos, Luis Alberto entrou na Apae, no prédio localizado na rua Humaitá. A família morava numa chácara, pois havia escutado que o ar do campo faria bem ao menino e mesmo com a distância, o levava para os atendimentos. Depois, ele passou a usar o transporte com os demais alunos.

A partir de então, o desenvolvimento do menino foi bem rápido. Não aprendeu a ler e escrever, mas desenvolveu habilidades que tornam sua rotina semelhante a de qualquer pessoa. “Em casa ele se vira. Acho que ele não conseguiria ser independente, morar sozinho, por exemplo. Mas ele toma banho, come, escova os dentes, me ajuda na limpeza da casa, vai numa padaria, mercado, sem problema algum”.

Outros prazeres são passeios e festas. À reportagem, Luis Alberto disse que estava chateado por não poder comemorar seus 50 anos no próximo dia 26 de outubro porque não pode ter aglomeração. “Eu já decidi que vou deixar para os 51”, contou.

Luis Alberto com a mãe Carmelita, com quem mora (Foto: Aline Galcino/Hojemais Araçatuba)

Adultos têm estimulação de habilidades na Apae

Ana Cláudia, Pedro, Lilian e Luís Alberto estão entre os 102 atendidos pelo Serviço de Proteção Social Especial para Pessoas com Deficiências e suas Famílias da Apae de Araçatuba.

O atendimento diário a pessoas com mais de 30 anos ocorre por meio de estimulação das habilidades sociais, comunitárias e atividades socioeducativas, como oficinas de capoeira, artesanato, música e grupos com a psicóloga e assistente social. Além do usuário (como é chamado o aluno já adulto), é feito um trabalho com os familiares, que visa apoiar e diminuir a sobrecarga no cuidado diário da pessoa com deficiência intelectual e múltipla.

Todos os atendidos, segundo a coordenadora do serviço Lucila Santana, têm uma rotina bem ativa, respeitando suas preferências e limitações, mas sempre com estímulo para romperem com as barreiras que lhes são impostas.

“As oficinas são uma forma dinâmica de estimular os usuários a produzirem respostas criativas para questões que vivenciam diariamente, rompendo com os estereótipos e paradigmas de que a pessoa com deficiência intelectual não consegue realizar determinada atividade. Nosso trabalho consiste na execução de propostas de artesanato, criação de danças, teatros e músicas, participação em oficinas e eventos de capoeira com a comunidade”, explica a psicóloga Ana Caroline Cesari.

A assistente social Crislaine Fantin destaca que o foco do trabalho é a autonomia dos usuários. “O apoio que a pessoa com deficiência necessita para a realização de determinada atividade é repensado diariamente pela equipe de trabalho, para que haja uma participação ativa do sujeito durante a execução de todas as tarefas”.

Vídeos

Em decorrência da pandemia, as atividades do Setembro Verde, mês que visa a inclusão social da pessoa com deficiência, sofreram alterações.

O serviço de Proteção Especial está lançando uma série de vídeos nas redes sociais da Apae, com depoimentos de pais e usuários sobre a deficiência intelectual, preconceitos e trajetórias pessoais. O objetivo é disseminar o conhecimento e possibilitar que a pessoa com deficiência tenha voz diante das questões que lhe afeta diretamente.

Veja abaixo, os vídeos produzidos e já publicados pelo Serviço de Proteção Social Especial da Apae. 

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