Cultura

“A cultura não é a cereja do bolo, é o fermento”, diz novo secretário

Confira entrevista com o novo titular da Secultur de Birigui, Paulo Bernardes

Manu Zambon  - Hojemais Araçatuba 
04/08/19 às 11h00
Paulo Bernardes estava como diretor da pasta desde fevereiro deste ano (Foto: Manu Zambon)

O gestor cultural e psicólogo Paulo Bernardes foi nomeado, nesta semana, o novo secretário da Secultur (Secretaria da Cultura e Turismo) de Birigui. A pasta estava sem titular desde dezembro de 2018, após a exoneração do professor Elder Scanferla.

Bernardes, que ocupava o cargo de diretor da Cultura desde fevereiro de 2019, conversou com a reportagem do Hojemais Araçatuba sobre reformulação de alguns itens, como o Fundo Municipal de Cultura de Birigui, e projetos futuros para a pasta.

O secretário é autor do projeto que deu origem ao Flibi (Festival Literário de Birigui), onde ocupa o posto de diretor-geral; é responsável técnico dos programas Ponto MIS (Museu da Imagem e do Som), Viagem Literária, Mapa Cultural Paulista, Lê no Ninho, Agenda Cidadã, entre outros.

“Vamos focar em questões que são necessárias para colocar projetos em prática, como por exemplo, rever legislação, trabalhar com as áreas estruturantes da secretaria. Enquanto diretor, não tinha essa autonomia e esse foi um dos motivos da minha nomeação. Fiquei feliz com isso, porque estou na secretaria há mais de cinco anos, passando de etapa em etapa”, disse Bernardes, que iniciou sua carreira na Prefeitura como estagiário.

Trajetória

Quando eu comecei psicologia, já gostava de trabalhar com projetos. Eu fazia parte do Núcleo de Artes Cênicas do Sesi. Comecei a trabalhar com projetos dentro da psicologia e escolhi a biblioteca como local de atuação. Fiz um projeto que se chamava BiblioPOP, que era direcionado a pessoas em situação de rua. Esse projeto consistia em toda sexta-feira receber essas pessoas e o Centro Pop (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua) fazia o papel de juntá-los e levá-los. Cheguei a compartilhar em um seminário internacional sobre os seus resultados.

Em 2014 e 2015 foram os anos que iniciamos os grandes eventos, as oficinas formativas e alguns projetos. Participei dos fóruns de cultura, da conferência, montamos o conselho, teve o Plano Municipal de Cultura. Enfim, tive uma trajetória que converge no cenário de hoje.

A partir dessa construção, fui entendendo quais eram as demandas dos artistas, o que a população precisava. Então, vamos caminhando e trazendo boas referências, porque cultura é conceito, é reflexão, então exige estudo, tempo, um tempo sozinho e ao mesmo tempo exige que você esteja no meio das pessoas.

Parcerias

A secretaria não atua sozinha, principalmente no interior, onde nós não temos um orçamento tão significativo. Hoje, o nosso orçamento é mais direcionado para essa questão de custeio, mas isso é regional. E com o tempo, as políticas públicas vão se direcionando para que isso se expanda, a partir do nosso potencial de ação. Hoje, nossa atuação une poder público, sociedade civil, instituições, voluntariado e patrocínio por meio de leis de incentivo. Uma vez que todos esses setores estão inseridos, eles começam a fazer parte.

Reestruturação

Primeiro, vamos reorganizar todo Sistema Municipal de Cultura. Nós estamos reconstruindo as legislações, atualizando para justamente atender essas novas demandas que a gente tem hoje. Recriaremos Fundo Municipal de Cultura, que já existiu e agora queremos reformulá-lo para que ele tenha possibilidade de fomento, tanto local quanto externo. São diversas fontes orçamentárias que hoje é possível e que ainda nós não estamos prontos para receber. Então, recriando o fundo, a gente pode criar os mecanismos de incentivo.

Secretário se diz otimista sobre novos projetos (Foto: Manu Zambon)

"Atuar na cultura no interior é mais difícil. Não é um caminho profissional que as pessoas olham e querem seguir. É por isso que a gente vem com as atividades formativas como um eixo da secretaria"

Premiação

Estamos pensando em trabalhar logo de início com algumas frentes. Uma será criar uma bolsa para artistas, produtores e profissionais que vão desenvolver projetos em diversos segmentos, como dança, música, pintura, artes plásticas e visuais, para que eles possam apresentar suas ideias. Essa bolsa seria como um prêmio, para eles desenvolverem seus projetos. Então, além dos profissionais que já fazem monitoria dentro dos nossos setores, nós pretendemos expandir, porque hoje nós temos uma demanda bastante represada por atividades.

E com isso a gente incentiva que o artista/profissional trabalhe, apresente seu trabalho para a comunidade e ao mesmo tempo a comunidade tem o acesso a atividade sem custo. E também teremos uma economia estimulada, porque esse artista/profissional que fez o trabalho, ele vai pagar imposto, que volta para o município, ele vai consumir em estabelecimentos. É tudo que gira. É por isso que a cultura não é a cereja do bolo, ela é o fermento.

Esse projeto terá o nome do “Giovani Machado” (assassinado na época em que era secretário da Cultura, em 2015), que recomeçou essa reconstrução da secretaria. Ele abriu todas as portas.

A intenção do prêmio é que seja por meio do orçamento municipal. A intenção é mandar esse projeto de lei para a primeira sessão da câmara para aprovar e já em setembro ter o primeiro edital. Já está sendo estruturado. O prêmio viria de uma verba municipal, mesclado com recurso do Estado. A intenção do projeto é instrumentalizar os artistas para que eles também cadastrem seus projetos na lei de incentivo, ProAc (Programa de Ação Cultural), na lei de incentivo à cultura.

Na secretaria, abrimos um cadastro nesse ano para pessoas que têm interesse de fazer alguma atividade. E por esse cadastro a gente já consegue mensurar o que a gente precisa colocar. Hoje, há uma demanda maior para os pequenos. Os editais que a gente abrir de início são para atender esses projetos, como o Lê no Ninho.

Conselho

A outra frente que vamos trabalhar é na recondução do Conselho Municipal de Políticas Culturais e fortalecê-lo, porque sem ele a gente não consegue fazer todo esse processo, ir construindo políticas públicas. É um mecanismo de controle e está ligado ao fundo.

Projetos

Outra vertente dos projetos é o ProAc Municípios. Já estamos com as questões burocráticas prontas pra receber o ProAc e nós o receberíamos neste ano, mas foi contingenciado pelo governo do Estado. É uma pausa que a gente dá, para o próximo ano executar. Tenho uma perspectiva muito otimista com relação a todas essas questões da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, porque a construção está se solidificando para que quem venha, ou esteja participando de agora em diante, tenha as condições de trabalhar com as ferramentas necessárias.

A ideia é que os artistas e os produtores tenham a capacidade por si próprios de irem caminhando e estruturando seus projetos. Por exemplo, isso é importante pra nós da gestão, para a comunidade, que tem acesso ao trabalho, e todos os atores da cultura. Esse é um nicho de atuação muito necessário, porque nossa intenção é colocar todos os nossos equipamentos para acontecer atividades o tempo todos.

Flibi é um dos eventos consolidados do município; edição do ano passado contou com a preseça da youtuber Jout Jout (Foto: Divulgação)

Formativas

Atuar na cultura no interior é mais difícil. Não é um caminho profissional que as pessoas olham e querem seguir. É por isso que a gente vem com as atividades formativas como um eixo da secretaria. De mostrar qual é o potencial de atuação dentro da cultura, da economia da cultura ou economia criativa. Dentro desse segmento, tem muitas possibilidades e é um dos campos que mais rentabilizam.

A gente tem se estruturado nesse sentido, para ter construção de projetos. Tanto é que a gente teve há pouco o primeiro Ciclo de Gestão Cultural, que é justamente para ter uma mentoria de projetos e transformar eles em uma ação. Esse ciclo é um programa em parceria com o governo do Estado e a nossa intenção é criar um ciclo municipal e de tempos em tempos a gente vai tendo essas ações com os artistas e produtores, para falar sobre como elaborar um projeto, como colocar seu projeto numa lei de incentivo, em editais, como fazer a captação de recurso e executar, e como prestar contas.

A nossa expectativa é até o final do ano que vem abrir umas três mil vagas em todos os cursos formativos, tanto para cursos fixos como para oficinas e workshops mais pontuais.

Geração de renda

No CEU das Artes, a gente quer iniciar cursos de arte e cultura, e geração de renda. Ainda mais agora, que os profissionais estão tendo que empreender para garantir seu sustento. Tem as atividades de tecnologia, que são por meio de computadores. Na biblioteca municipal a gente tem o AcessaSP e a informática no CEU das Artes. Juntando esses dois locais, temos 30 computadores. A intenção é começar no próximo mês um curso nesses dois locais, juntando parcerias. O primeiro curso que teremos é o de operador de computador, para as pessoas aprenderem o básico e coisas mais complexas, para que elas consigam trabalhar com isso.

Vamos começar a trabalhar também com cursos técnicos. Estamos estruturando e a expectativa é que a gente abra em janeiro o curso de técnico em teatro, que tentamos abrir no período da tarde, mas tivemos um problema com relação aos horários. E esse curso é justamente focado para trabalho.

Temos ainda na área de cinema o Pontos MIS, programa estruturante que dá um resultado muito positivo. Nós conseguimos trazer profissionais de referência para desenvolver atividades de fotografia, audiovisual, produção de vídeos. Esse é um nicho que está voltado tanto para o desenvolvimento da prática pela experiência quanto para o profissional. A gente atinge muitos profissionais do audiovisual.

Eventos

Além das formativas, temos o eixo voltado a eventos e lazer, que são atividades necessárias também. Temos os nossos grandes eventos e festivais. Nesta semana mesmo teremos a Festa da Agricultura e toda a verba que eles arrecadam volta para os produtores.

Em setembro, ocorre a Festa das Nações, reunindo todos os clubes de serviços, maçonarias. São mais de 18 tendas, com pratos específicos. Além de proporcionar experiência gastronômica, cada barraca direciona o lucro para uma entidade.

Nossa expectativa é expandir os festivais. Tivemos há poucos dias o Pérola Rock e fomos muito felizes na produção dessa edição. Ele acontecia só em um dia, depois passou para dois, e era realizado numa praça de bairro, mais restrito. Voltamos para o Parque do Povo, um local centralizado, para atrair famílias. E aí fomos surpreendidos. A gente viu que, por mais que seja rock, tinha todo tipo de público. A gente colocou uma praça de alimentação junto. Então o evento vai expandindo. A nossa intenção é que tenha bandas locais e regionais, e que tenha pelo menos uma grande atração para alavancar a visibilidade do evento.

O Flibi (Festival Literário de Birigui) é outro evento que entrou no calendário do município e já se consolidou. Nesse ano, estamos indo para a sexta edição e pretendemos continuar trabalhando com diversas linguagens. Então além da literatura, que é o carro-chefe, teremos outras atividades, como dança, teatro, contação de histórias. Porque é isso que possibilita o acesso das pessoas.

Diversificação

Birigui é diversificada. Ao mesmo tempo que a gente tem os bairros rurais com festas intensas, temos a cultura urbana, como a Festa de Rua. Em Birigui, temos movimentos independentes, que vão começando. A gente detecta esses movimentos e fortalece eles para que caminhem sozinhos. Temos nichos e a intenção é que eles cresçam de forma independente e juntos.

Hoje, a gente tem o potencial de sonhar junto. Atrair a galera dos conselhos, dos movimentos, das instituições, de dentro da Prefeitura. Porque as pessoas não têm culpa que não sabem o que é política cultural. Mas nós temos. Então eu, enquanto gestor, preciso ter um trabalho mais intenso. Tem arte para todo mundo, cultura para todo mundo.

Talvez você não goste de um espetáculo mais forte, mas talvez goste de levar o seu filho para ver o espetáculo O Pequeno Príncipe, por exemplo, ou leva-lo para fazer um balé ou aula de violão. Então, porque jogar pedra em algo que pode ajudar todo mundo?


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