Regina assumiu o cargo a convite do presidente Jair Bolsonaro, em março deste ano (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)
Após entrevista polêmica da secretária especial da Cultura, Regina Duarte, à emissora CNN, na última quinta-feira (7), a qual ela se recusou a responder um questionamento da atriz Maitê Proença, mais de 500 artistas se uniram e publicaram um manifesto reprovando tanto as palavras da secretária, quanto as atitudes que vêm tendo no governo.
Regina Duarte assumiu o cargo na secretaria, que hoje é uma pasta subordinada ao Ministério do Turismo, em março, a convite do presidente Jair Bolsonaroo (sem partido). Nesses 60 dias de gestão, tem recebido críticas da classe artística pelo seu posicionamento, principalmente com relação a políticas culturais durante a pandemia do novo coronavírus.
Em todo País, artistas têm sofrido com o isolamento social, que causou o cancelamento de eventos, projetos e aulas. Em Araçatuba e região, a situação não é diferente. Por isso, a reportagem do
Hojemais Araçatuba
conversou com autoridades municipais e artistas de diversas linguagens, sobre como têm visto a gestão de Regina Duarte nesses 60 dias e suas expectativas.
Sérgio Tumelero (secretário municipal da Cultura de Araçatuba)
“Acompanho com extrema preocupação, visto a quantidade de desencontros que se tem observado dentro da pasta da Cultura. Isso demonstra o quanto ela necessita de organização e conhecimento técnico para o seu andar. A interlocução com os atores culturais se faz de extrema importância, especialmente neste momento.
Dessas interlocuções podem surgir possibilidades bastante importantes para a resolução de questões relacionadas à Cultura. São essas interlocuções, ou a falta delas, tanto com a equipe quanto com os atores culturais, que parece que a secretária e a secretaria têm enfrentado dificuldade, o que impossibilita as ações e consequentemente a cobrança por resultados na pasta.
Outra questão são as ingerências que parecem estar acontecendo dentro da pasta, visto que a equipe não é coesa, nem com a secretária nem com o próprio governo”.
Paulo Bernardes, secretário da Cultura em Birigui (Foto: Manu Zambon/Hojemais Araçatuba)
Paulo Bernardes (secretário municipal de Cultural e Turismo de Birigui)
“Com relação à Secretaria Especial da Cultura (...), a nossa expectativa é de que seja retomado o SNC (Sistema Nacional de Cultura), que seria o ‘SUS da Cultura’, instituído em 2012 como um processo de gestão e promoção conjunta de políticas públicas de cultura, democráticas e permanentes, pactuadas entre os entes da federação (Estados e municípios) e a sociedade. O sistema (...), atualmente, está desarticulado e teve os seus processos paralisados, concomitante à extinção do Ministério da Cultura.
A demanda mais importante neste momento, reivindicada pelos produtores e artistas, é a liberação do Fundo Nacional da Cultural e do Fundo Setorial Audiovisual (...).
A nível de gestão, compreendo que 60 dias é um curto período para conseguirmos avaliar com efetividade o resultado prático da mudança estrutural da gestão da cultura no setor público (...) Infelizmente, por questões contingenciais diante da reorganização da pasta ou não, é de consenso geral que o acesso à Secretaria Especial da Cultura está limitado e não há o movimento claro que mostre a abertura (...)”
Júnior Viana (músico, ator e produtor cultural de Araçatuba)
“Vejo que o artista brasileiro foi colocado em descrédito a partir do momento em que foi extinto o MinC. Por mais que tenha mantido a pasta junto a outro ministério, o simples fato de sua extinção diminui o valor do artista, da arte e da cultura diante da sociedade. Somado a isso, veio a troca constante de secretários até chegar à atual, Regina Duarte. Não a vejo como preparada para o cargo.
E não sei se alguém apto seria viável, pois sinto que trabalham de acordo com o que lhe mandam fazer e não com autonomia. Assim, ela apenas está cumprindo o seu papel. Em relação a situação do artista diante da pandemia, nem sei o que falar... Artistas famosos, além de terem um bom respaldo financeiro, ainda continuam com lives patrocinadas, propagandas, canais de YouTube lotados etc. Já os artistas ‘anônimos’ estão se virando como dá. Vaquinhas virtuais, doações. Creio que, mesmo quando acabar os períodos de quarentena (pois já estou parado há 55 dias), os artistas serão os últimos a serem contratados. Porém, estamos com saúde. E isso é o que importa.”
Márcia Porto é de Araçatuba e atua em São Paulo (Foto: Arquivo Pessoal)
Márcia Porto (artista plástica de Araçatuba, com atuação em São Paulo)
“Penso que o desserviço da secretária especial da Cultura aponta uma nuvem enorme que existe entre o que é coisa pública e vida privada. A impressão que dá é que ela limita suas ações ao que é reconhecido como cultura apenas no seu quintal. Ela não vê a complexidade do seu cargo, principalmente no atual estado. Mas pra mim o que é mais assustador é o prazer sórdido em cada gesto impróprio desse governo.
Não há gestão, não tem o que dizer. Não existe. E o que existe é um desgoverno, uma cegueira ideológica. Gostaria de acrescentar que acho que os editais e verbas emergenciais são fundamentais, atitudes concretas e posicionamento perante uma fase tão séria como essa.”
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Caique Teruel (presidente do Conselho Municipal de Política Culturais de Araçatuba, ator, coreógrafo e diretor-geral do Festara - Festival de Teatro de Araçatuba)
“Creio que dentro dessa política, a Cultura perdeu o foco. Era o objetivo desde o início tirar o poder de revolução que a cultura tem e foi isso que foi feito. Depois do momento que a pasta virou uma secretaria, teve a troca de secretário e do lugar onde ela ficava, e agora com a Regina, perdeu muito trabalho.
O trabalho da Regina está sendo zero, não está repercutindo, e ela mesma disse que ainda está na montagem da equipe, elaboração de algumas coisas. Eu não vejo nenhuma movimentação em relação ao apoio do governo federal ou o pensamento dele em relação às políticas públicas ou estratégias para os artistas antes da pandemia e após. E nesse momento, também não. Só vemos os artistas procurando a Regina.
Paula é de Araçatuba; na foto, atuação em peça em Portugal (Foto: Divulgação)
Paula Liberati (atriz em Araçatuba)
“O que ela (Regina) fez? Ficou 60 dias, como ela diz, trabalhando para apresentar as propostas que fez anteontem ao presidente e que leu na ‘cola’ da entrevista para a CNN. E como não tem nada, só enrolava. O auxílio de R$ 600 por três meses foi para o trabalhador informal geral e não só para os artistas.
O que ela fez de fato para a nossa classe? Nada. E ainda reclamou que ninguém nem esperou dar os comuns 100 dias de trabalho para cobrar resultado. Após assumir como secretária, explodiu o coronavírus no Brasil. Se não podemos trabalhar, cadê o dinheiro dos fundos da Cultura que cada cidade tem? Que o País tem? Por que já não foi pensado algo de emergência? Ela quer esperar 100 dias.
E num discurso vergonhoso, voltou a citar o pum do palhaço, o qual é tão fissurada. Minimizou mortes, enalteceu a ditadura. E ainda disse que não achou necessário comentar as mortes de quatro grandes artistas brasileiros. E acharam que colocando a namoradinha do Brasil para fazer risinhos e jogadas de cabelo, enganariam a todos nós.”
Arnon Gomes (presidente da Academia Araçatubense de Letras e autor de livros como "Com véu de alegoria - cem anos de carnaval de Araçatuba" e “Napo, o arquivo da Velha Senhora”)
“Eu praticamente não enxerguei ações do governo federal nesse período. Em relação à pandemia, a postura do presidente, do governo, foi desastrosa, bem aquém do que a população precisa. Mais aquém ainda com relação ao que os outros líderes mundiais estão fazendo. Num momento de grande alerta nacional, nós vemos um presidente caminhando totalmente na contramão (...).
O Brasil infelizmente vai amargar esse período com muita tristeza e inércia por conta de um governo que consegue criar crise política (...). Eu acho que não houve ação, ainda mais na parte artística. Se já estava praticamente parado desde quando começou a atual gestão, agora, nos últimos dois meses, nada se viu de política, de incentivo. Nenhuma ação nesse sentido. Então, acho que a saída, a solução, está realmente com os governadores dos estados (...)”
Márcio Kadá é músico em Araçatuba (Foto: Fernanda Russo/Divulgação)
Márcio Kadá (músico em Araçatuba e criador do projeto Óptica Sonora)
“Realmente é preocupante para a classe artística em geral a falta de possibilidades presenciais devido à pandemia. Vemos mobilização individual, de grupos, associações e entidades no intuito de continuarmos com nossas expressões por meio virtual.
Não é novidade que a arte sempre ficou em planos menos prioritários e não seria diferente nesse período. Em meio a tantas divergências e emergências, acredito que o poder público, em todas as esferas, poderia seguir as iniciativas particulares e criar editais para a contratação e apresentação no formato virtual , enquanto perdurar essa fase (...) Seria, a princípio, uma forma de amenizar a ausência de rendimento dos profissionais.
Se houvesse menos especulações, interesses políticos ideológicos partidários e mais responsabilidade social e direcionamento para o que realmente precisa ser feito, acredito que passaríamos mais ilesos nessa tormenta. Poucos têm condições de ficar sem o exercício de suas atividades para o sustento próprio e de seus dependentes por muito tempo.”
Banda Código de Conduta (Araçatuba)
“A neutralidade e o silêncio configuram um posicionamento político: o de conformidade. É fato que existem aqueles que preferem não tornarem públicos seus pensamentos e ideais, porém quem se exime do discurso de seus próprios alinhamentos ou oposições políticas, exprime conforto com o discurso dominante (...)
São milhares de mortos, Regina. Alguns da classe que você finge representar. Nenhuma palavra de acalanto, nem que fosse atuação. Mas pelo visto é muito difícil atuar para o bem. Não há projetos para subsidiar artistas que, como todas as outras classes profissionais, já estão passando necessidades. Você (Regina) preferiu apoiar tortura, violência, assassinato e censura a apoiar os que querem trazer leveza ao mundo, através da arte.
Você (Regina) ainda será vítima dos que defende. Torça para que, no fim, reste alguém que lhe ajude a sair da escuridão.”
Renan é de Birigui e atua em bandas de Araçatuba (Foto: Flávia Baxhix/Divulgação)
Renan Augusto Dias (músico em Birigui)
“Acho que o maior benefício que ela (Regina Duarte) trouxe até agora foi o Alvim (Roberto Alvim, antecessor de Regina na pasta) ter saído, um nazista alegórico. Mas no fundo, eu achei que seria a menos pior das escolhas, até porque ela nem conseguiria fazer o mínimo, já que a autonomia financeira que o governo dá pra Secretaria Especial da Cultura é próxima de zero.
Mas ela se mostrou tão desqualificada quanto o Alvim, até mais desrespeitosa com os colegas de classe e imprensa. Fora os flertes com a ditadura e expondo o total descontrole psicológico frente a uma questão decente. Até mesmo os artistas que apoiam o atual governo deveriam se envergonhar da postura dela(...)
Hélio Consolaro (ex-secretário municipal de Cultura de Araçatuba)
“A pasta da Cultura em qualquer governo é a mais ideológica. É difícil encontrar uma pessoa para comandá-la que seja neutra, mas ela precisa admitir a pluralidade e a diversidade. Aliás, eu não acredito em neutralidade. Não cobro da Regina Duarte outra ideologia que não seja a dela, mas ela poderia ser competente, porque até agora é uma dondoca no cargo de ministra.
Ela é boa atriz, mas não entende nada de gestão. E agora, por pressão, está assumindo comportamentos ultradireitistas, concepção do Bolsonaro, que não tolera o contraditório. Um secretário de Cultura num governo de qualquer cor ideológica precisa ser um guerrilheiro para conseguir fazer alguma coisa, porque há uma concepção que perpassa todos os partidos de que cultura se adquire na escola, uma coisa embalsamada. Cultura é ebulição que dá fisionomia à sociedade.”