Cultura

Em ‘King Richard’, Will Smith convence como o pai de Venus e Serena Williams

“Ator captura a certeza inabalável, a energia e os métodos drásticos do personagem que fez de suas filhas campeãs com sua visão irreplicável.”

Valter Soares de Souza Junior*
30/01/22 às 15h00
(Foto: Divulgação)

Aos investidores que tentou atrair e aos técnicos para os quais acenou com glórias futuras, Richard Williams nunca deixou de afirmar que os planos para as filhas Venus e Serena estavam traçados desde a concepção, e por isso ele as preparou de modo incansável e implacável a fim de alcançarem tal objetivo.

Soa como exagero, mas consta que Venus foi a número 1 do mundo em simples e em duplas, e Serena, que soma 23 Grand Slams, é tida como a maior atleta da história do tênis mundial até então. E é no pai dessas potências do esporte que está o foco de ‘King Richard: Criando Campeãs’. Um filme sobre a construção e execução de um plano de vida e desse objetivo em curso.

Em uma das suas melhores interpretações dos últimos anos, (demasiadamente intensa, ainda assim, convincente) Will Smith captura em Williams a certeza inabalável no talento das filhas, a energia meio maníaca, o gosto por slogans positivos e as estratégias para inserir duas meninas pretas em um esporte branquíssimo. E, se a exigência com o desempenho escolar e o treino nas quadras arruinadas do bairro parece extremada, avise-se que o longa o suaviza, apesar de não esclarecer o mistério de onde ele teria tirado sua visão e metodologia de ensino. Por isso mesmo, claro, ela é tão fascinante — além de irreplicável.

O filme começa com as duas ainda na primeira infância, treinando com o pai e a mãe em quadras dilapidadas e procurando (a princípio, em vão) um técnico, e as acompanha até o primeiro torneio profissional de Venus, aos 14 anos. Trata-se, portanto, de um recorte que se debruça, exclusivamente, no início da carreira das atletas, ao invés de uma recapitulação de triunfos que já são de domínio público; perspectiva que colabora para evitar os clichês e fragilidades estruturais do gênero cinebiográfico. Pressupõe-se, no entanto, que o espectador conheça as atletas expostas em tela.

Narrativa

(Foto: Divulgação)

A dinâmica entre as meninas e a mãe, as outras irmãs e o pai é de um charme encantador. A intensidade e o amor presente na relação entre esses personagens é o que os une em busca de seus objetivos e, consequentemente, engaja o público até o final da produção. Apesar de não serem personagens tão profundos na trama, Venus, Serena e Oracene são trabalhadas bem o suficiente para compor a narrativa. Neste sentido, igualmente pouco explorada foi a importância racial e social da ascensão das duas garotas. No momento em que Richard diz à Venus que ela irá representar milhões de meninas mundo afora, não é como se isso fosse realmente sentido, apesar de o filme tratar de maneira bastante orgânica a questão racial.

Para além de Smith, o longa deixa algumas outras atuações sólidas passarem quase despercebidas. John Bernthal, além da caracterização bastante similar, possui uma presença cativante, e sua dicotomia ideológica com Richard proporciona os momentos mais engraçados do filme.

As cenas que envolvem a prática do esporte são muito boas e a fluidez das tacadas e trocas de bola é bastante interessante. O filme apresenta um bom desenvolvimento, consegue escapar de muitas convenções cinematográficas com um drama familiar envolvente e emocionante, e acerta em cheio ao tratar sobre a perseverança em tornar seus sonhos realidade, mesmo com todas as probabilidades “jogando” contra.

No mais, a produção sabe que está lidando com dois fenômenos esportivos e que por isso certas contextualizações são desnecessárias para indicar o futuro brilhante das atletas. Por isso, o filme termina de uma forma bastante provocativa e inspiradora, sem precisar cair na mesmice da superação pela moral familiar que deve estar acima de tudo. É um drama familiar descontraído, mas intenso.

‘King Richard: Criando Campeãs’ está atualmente disponível no catálogo do HBO Max.

Título Original: King Richard

Estreia: 2 de dezembro de 2021 (Brasil)

Duração: 144 minutos

Gênero: Drama/Esporte

Direção: Reinaldo Marcus Green

Elenco: Will Smith, Aunjanue Ellis, Saniyya Sidney, Demi Singleton, Tony Goldwyn, Jon Bernthal, Dylan McDermott.

(Foto: Arquivo pessoal)

*Válter Soares de Souza Júnior é jornalista, pesquisador e entusiasta das mídias. Cinéfilo, com aprofundamento em críticas cinematográficas pelo Espaço Itaú de Cinema. Apaixonado por música e pelos esportes. Enquanto o Timão existir, estará sempre do lado alvinegro da Força!

* Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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