Mais do que nunca, o século XXI está atravessado por múltiplas dimensões objetivas, produtivas e pragmáticas que, quase inadvertidamente, vão moldando o mundo à medida de uma racionalidade cada vez mais abrangente e contundente. Algoritmos calculam probabilidades, governos produzem indicadores, empresas organizam pessoas em planilhas, decisões são fundamentadas em dados e números. À primeira vista, é patente afirmar, então, que a hodiernidade se estrutura a partir de métricas, eficiência e desempenho, como destaca Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano, no bestseller A Sociedade do Cansaço. Paradoxalmente, é preciso refletir sobre o fato de que muitas dessas condutas, ainda que perfeitamente racionais, são profundamente desarrazoadas. De maneira inequívoca, a racionalidade é deveras fecunda. No entanto, seu alcance depende de determinadas condições e de limites que lhe são inerentes, como tudo na vida. O problema emerge, portanto, quando a racionalidade da mensuração se converte na pretensão de fazer da mera quantificação o horizonte último de toda ação, escolha e existência humana.
A tradição filosófica moderna encontrou em Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão e um dos principais pensadores do Iluminismo, uma das maiores defesas da racionalidade. Segundo o pensador, além de ser uma faculdade de orientar o pensamento e buscar princípios que ultrapassam a experiência imediata, a razão assume, em sua dimensão prática, uma exigência moral fundamental. Seu imperativo categórico assenta-se no princípio de que toda pessoa deve ser reconhecida como um fim em si mesma, e jamais instrumentalizada em função de outros fins. A filosofia moral kantiana, por conseguinte, possui uma exigência ética concernente ao reconhecimento de que agir racionalmente implica reconhecer a humanidade e a dignidade do outro.
Contudo, a história mostrou que a razão pode sofrer uma espécie de amputação, já que permite a sistematização, a estimativa e o planejamento, mas perde sua seara moral e, diante disso, intersubjetiva. Assim, torna-se eficiente sem ser humana. É justamente nesse ponto que o pensamento de Achille Mbembe, filósofo e cientista político camaronês, ilumina essa tensão entre razão e razoabilidade. Ao analisar as formas contemporâneas de poder, Mbembe demonstra que Estados, mercados e instituições podem administrar a vida e a morte de populações inteiras por meio de procedimentos administrativos e politicamente racionalizados. Há estatísticas, protocolos, pareceres técnicos, cálculos orçamentários que pautam todas essas ações. A rigor, tudo parece coerente. Porém, essa coerência frequentemente convive com a produção sistemática da exclusão, da precarização e até da morte. Dito de outra forma, os movimentos de gestão política, muitas vezes, podem ser compreendidos à luz da necropolítica, na medida em que determinadas estruturas de poder passam a definir quem merece proteção e quem pode ser exposto à vulnerabilidade, à violência ou à morte, exatamente como ocorreu no período da COVID-19, quando determinados grupos foram mais expostos ao risco ou tiveram acesso desigual à proteção.
É nesse momento que a distinção entre racionalidade e razoabilidade demanda profunda reflexão. “A decisão segue uma lógica consistente?” , pergunta a racionalidade. Já a razoabilidade indaga: “ Essa lógica continua sendo compatível com a dignidade e as idiossincrasias humanas, tais como singularidade, historicidade, emoções e finitude?” Vale ressaltar que políticas públicas podem reduzir custos e, ainda assim, condenar milhares à precariedade. Um algoritmo pode selecionar candidatos de maneira estatisticamente eficiente e, simultaneamente, reproduzir desigualdades históricas. Uma universidade pode distribuir recursos seguindo critérios objetivos, mas ignorar que igualdade formal nem sempre produz justiça material. Certamente, tudo isso pode ser racional, mas provavelmente não seja razoável.
A razoabilidade introduz aquilo que os números não conseguem definir, isto é, contexto, proporcionalidade, sensibilidade, percurso sócio-histórico, percepções, vivências e responsabilidade ética, dentre outros meandros da complexidade e vivência humana. Essa prudência reconhece a experiência de existir para além das variáveis de um sistema, ao acolher vidas permeadas por significados, visões de mundo, circunstâncias, repertórios diversos, bem como trajetórias que escapam aos dispositivos uniformizantes de avaliações.
É possível que esse seja o maior desafio da contemporaneidade. A racionalidade mantém sua importância, desde que reconheça que suas próprias limitações exigem algo para além dela. Quando a razão deixa de dialogar com a experiência humana, transforma-se numa máquina de produzir justificativas para injustiças perfeitamente organizadas. Kant afirma, em sua filosofia moral, que toda pessoa possui dignidade. Mbembe mostra que as estruturas contemporâneas frequentemente decidem quais dignidades serão efetivamente reconhecidas. Entre um e outro, desponta a tarefa ética e hercúlea de reconstruir uma racionalidade que possa permanecer essencialmente humana.
Para além da correção técnica de suas decisões, o verdadeiro senso de humanidade de uma sociedade se revela na disposição de ponderar continuamente sobre sua pertinência diante das fragilidades, das necessidades e do espaço do outro. Embora a racionalidade, de algum modo, possa configurar o nosso modus vivendi, é a razoabilidade que pode impedir essa organização numérica de deixar de servir à própria humanidade, considerando sua forma ímpar de ser, estar e pensar. Na contemporânea era das indefectíveis telas, em que tudo parece poder ser avaliado e previsto com base na aferição dos algoritmos, nas céleres respostas das inteligências artificiais e na virtual “aproximação” promovida pelas redes sociais, sempre elas, a indiferença e o egoísmo parecem, contraditoriamente, ampliar-se. Diante disso, talvez seja preciso perguntar menos sobre os limites de nossa racionalização do mundo e mais sobre nossa potencialidade de, em nome da dignificação humana, reconhecer no outro aquilo que nos torna humanos.
Em uma perspectiva mais ampla, quando tudo pode ser calculado, resta-nos pensar que essas reflexões sobre a razoabilidade da racionalidade possam nos conduzir à compreensão de que nenhuma máquina, algoritmo, cálculo ou instrumento de aferição pode decidir por nós o valor que atribuímos à vida, à humanização do mundo, à diferença, aos sentimentos e à legitimidade dos pontos de vista do outro. Afinal, há dimensões da existência que escapam àquilo que pode ser previsto, quantificado ou sistematizado e que, justamente por isso, exigem de nós algo que nenhuma racionalidade instrumental pode substituir, ou seja, nossa singular faculdade de ponderar, sentir, reconhecer e acolher o outro em sua irredutível humanidade.
Dedicatória
À querida amiga Dra. Elisabeth Ramos da Silva, cuja provocação, surgida em uma banca de qualificação de mestrado, fez da racionalidade uma questão e da razoabilidade uma inquietação.
