“Tudo posso
Contra o que não me fortalece”.
Dr. Parmênides.
Segunda-feira. O dia catalogado.
Carimbado, diria melhor.
Acho que essa qualificadora preenche com mais exatidão os seus contornos de gesso, como um pincel que colore a vida na cor exata e cinzenta que as coisas carregam por hábito. Mas eu não sou assim. Não penso e recuso-me a aceitar que seja assim. As cores devem ser escolhidas conforme o tom que a alma almeja. As coisas só são como são porque assim foram rubricadas nos guichês do esquecimento; aceitamos, por mera conveniência, nossa incapacidade de contrariar os julgamentos alheios. Certo ou errado é questão de ajuste de perspectiva, e a norma nem sempre acerta. Vive-se da norma — é fato. Afinal, as regras são os trilhos necessários ao controle do contornável.
Não tenho tido tempo para mais nada.
Depois de tanto brigar com a minha própria mecânica interna, procurei ajuda médica.
O Doutor Parmênides confiou-me que não havia nada de errado comigo, apenas uns desajustes de engrenagem, como qualquer outro, passíveis de reparo. Ponderou, contudo, com a sabedoria dos que enxergam as frestas, que a ideia não era me endireitar. Isso sim seria um problema. Endireitar enrijeceria as benesses dos meus distúrbios — ou melhor, das controvérsias do meu olhar. "Essa ideia, como as outras, muitas vezes abstratas, é de fácil compreensão, embora árdua na prática. O mais difícil é aceitar ser quem é", diziame ao final de uma consulta. E é exatamente aí que habita a minha ruína e a minha libertação: sei, com uma certeza quase mineral, que fui escrito para ser descompensado. A loucura de que me acusam é apenas o nome funcional que dão àquilo que escapa à gramática do ministério.
Segunda-feira. O dia macabro, criado para ser o primeiro. Por ironia, era o segundo.
Aprontei-me para mais uma jornada, ciente dos desafios que habitam a geometria asfixiante de uma repartição pública. Meu ofício: escritor. Ou melhor, escriturário. Deram este nome no lugar daquele por mera convenção administrativa. Prefiro o primeiro. No fundo, é a mesma coisa. Escrever é sacerdócio, além de vocação. É o ato último e a necessidade visceral de quem pensa. Todos pensam, por óbvio. Mas há quem pense melhor — não é o meu caso, eu apenas traduzo em marcas o que os outros calam.
Chego a tempo na repartição, lugar permeado de normas por todos os cantos, coladas às paredes como musgo seco. As normas são como bichos pertencentes a determinados habitats: mais sutis em uns, avassaladores em outros. Numa repartição, elas são a própria razão de existir. Devemos observá-las, compreendê-las, interpretá-las e, acima de tudo, dar-lhes carne e vida concreta. O escritor burocrata submete-se a duas ordens de normatividade: deve obediência às leis funcionais e às leis gramaticais. Vivo nesse claustro ambíguo enquanto o tempo regula a existência material.
O ideal é encontrar a frequência da harmonia (Parmênides).
O relógio de bronze marca onze horas, num turno que se alongará até as sete da noite. Oito horas contínuas de reflexões subsumidas às atribuições legais. Nesse interstício, nada de pensamentos absurdos — ou melhor, pensamentos sim, expressões não. Afinal, é perigoso ser o que se é; mais perigoso ainda é mostrar-se ser o que se é. Pensar ainda é um território inviolável. Até quando, não sei.
Guardo meus pertences. Antes mesmo de me sentar à mesa de escriturações, Adeílson, o chefe da unidade, grita de longe com sua voz tremendamente aguda. O médico já me advertira sobre o perigo das frequências agudas ao meu distúrbio, ainda não identificado, embora cheio de indícios que apontem para isso ou aquilo. "Melhor não dar nomes", dizia o doutor. “Os nomes enrijecem e engessam o atributo das coisas. Evite as frequências agudas." De fato, sinto-me melhor na presença dos graves medianos, daqueles harmônicos que soam nos ouvidos como abraços de veludo. Sugeriu-me, ao menos, não parar com os instrumentos de corda, focando nesses tons graves, que afagam os ouvidos.
Adeílson, com sua voz estridente, gritava. Aquilo me furava como alfinete, travando-me por completo — menos por medo e mais por pura sensibilidade acústica. Era o próprio porta-voz da normatividade:
— Isso lá é hora?
Não respondo. Melhor não transparecer. Como a norma, devo soar transparente. Ou melhor, normal (atributo da norma). Que diabos, pensava. Pensar, ao menos por enquanto, ainda é possível.
Essas coisas, se deixar, pegam.
Mas a virtude da minha descompensação está na capacidade de estabelecer pontes onde aparentemente só há abismos. Em instantes, outro pensamento invade-me o ânimo. Ânimo, aliás, é o atributo de todos os animais, a qualidade primeira de ter alma e estar vivo. Adeílson, acredito, no fundo talvez não grite por maldade; talvez o faça por imitação. Assim também são os bebês: imitam o que lhes vêm aos olhos. Ou talvez seja essa apenas a sua maneira de ressoar. Afinal, ele também é enquadrado pelas normas e, por atribuição, faz com que os outros as cumpram, num labirinto vertical de gritos. Não sei. Esforço-me para a melhor interpretação possível dos fatos e das pessoas. No âmago, somos todos parecidos naquilo que nos é nuclear, com qualificativos inerentes a todos, sem exceção. Mas isso é mera conjectura.
Sento-me à mesa. A tela em branco diante de meus olhos e o painel luminoso repleto de senhas distribuídas aos contribuintes, que merecem toda a atenção. Isso é direito e deve ser respeitado. Mas não sei o que ocorre com essa mania de gritar. Nesses lugares, gritase com frequência: para o ego de uns, à submissão de outros, como num zoológico, onde os animais mais fortes uivam para impor sua razão de ser e se fazerem obedecidos.
Princípio de sobrevivência.
"Ganha mais quem menos grita" , lembrei-me do médico. Não são palavras do doutor Parmênides, mas achei conveniente imbuti-las em sua boca, por mera afinidade ideológica. O médico padecia dos mesmos males; estudou para melhor compreendê-los. "Autoridade não se impõe, desconquista", disse um imperador antigo sobre o qual não se tem muita notícia por falta de vestígios. Talvez não tenha sequer existido e alguém o tenha inventado para que pudesse dizer algo bonito. Certamente um poeta. Moisés, Jesus e Maomé foram poetas. Coisas de escritor: cria para não morrer compadecido com a falta de sentido.
O assunto, todos os dias, sempre reboca no dinheiro. Dizem que ele é a meta final dos seres humanos. Discordo em partes. Quem sou eu pra discordar? No geral, todos reclamam. Devem ter lá seus motivos. Ainda assim são livres em escolhas. As portas estão sempre abertas. Julgo que a meta mesmo é o sentido. Mas quem sou eu pra julgar? Dinheiro serve sim, não como fim. Como meio. Pra comprar a experiência do comportamento ainda não vivido. Esperto mesmo é o relógio, que dispensa qualquer moeda ou nota. Dispensa também todos os títulos inscritos nos degraus da hierarquia social. O relógio impõe sua lei sem precisar dizer palavra. O relógio não precisa disso. O relógio é dono do silêncio que maltrata.
Ouço novos gritos.
“O diretor vem aí” , anunciava o arauto com sua trombeta aguda.
Dia de inspeção ( In -: prefixo latino que significa "em", "sobre" ou "dentro de". Specere : verbo latino que significa "olhar", "observar" ou "examinar").
De olhares amarrados e cabeça erguida, como manda a norma-etiqueta. Conversava com um, com outro. Parava. Escolhia um: gritava. Outros gritos aos seus se assomava. Um campeonato? O mais agudo ganhava. Juntos, formavam uma sinfonia desafinada, acompanhada de sussurros à cabeça baixa de alguns reprimidos. Aquela ópera carregava o peso de um prédio inteiro. Almas infladas. Outras maculadas. Normal. É a norma. É a fórmula matemática da discórdia. Dialética (Tese + Antítese = Síntese). Resultado: almas vis-ceradas. O ego inflamado luta contra a própria justa saia.
Sinto o cheiro de fumaça.
No entanto, nada com o que se abale. As coisas são assim. Ao menos, assim foram convencionadas.
Manda quem pode, obedece quem tem umbigo (Parmênides).
Enquanto isso, escrevo. É meu trabalho.
Traduzo o sentimento alheio com as normas do meu mundo. Sem sair da linha, é claro. Sair da linha é coisa de literato, louco. Mas loucura é só uma palavra. Interpreta-se como melhor convém. A manga também é palavra, também é fruta, também é parte integrante de uma roupa. Tudo é relativo. Melhor que seja louco e faça-se compreender — ou melhor mesmo é ser incompreendido. As normas também são feitas por palavras, e as palavras são flexíveis; logo, o são as normas. Os números, não. Esses são estritamente exatos. O relógio não os flexibiliza, não grita, nem passa pano às justas causas. Melhor obedecer ao seu pêndulo. Nele é a pior autoridade.
Adeílson olha o relógio, anda de sala em sala distribuindo gratuitamente o agudo dos dias. Uma agulha que perfura a alma. Não de todas. Pelo menos a minha. Lá de cima, o cheiro das lágrimas... E lágrimas têm cheiro? Eu as sinto, pelo menos enquanto palavra. Sou ruim de lástimas. Há quem seja bom em criar problemas onde não existem; há aqueles maleáveis, talvez mais experimentados pelas dores da vida, que se fazem compreender pois também já foram incompreendidos. Aqueles são os melhores produtores de lágrimas.
A ideia é alimentar o vazio (Parmênides).
Demorei para entender isso. Doutor Parmênides tinha o seu lado poeta, embora não o aceitasse. Dizia que poeta é ser grande, mas pouco valorizado. “O vazio é a inércia dos pensamentos”. Ainda dava exemplo: a palavra atinge quem lhe dá conforto e guarida. Quem rejeita sua entrada mata a palavra, que ali mesmo cai ao chão e deixa de ter vida.
Esse é o exercício do vazio.
São quatro horas.
E as reflexões me atravessaram.
O medicamento tem essas coisas de foco extremo: alimenta e trata o que vem à cabeça.
Voltando a mim, os passos, em desarmonia com o relógio e o seu compasso. Gosto de dar voz aos ritmos. Também reconheço as pessoas pelos passos. O barulho e os tons das pisadas me são reconhecidos. Cada um tem um jeito próprio de se movimentar, calçados próprios, a preferência de se calçar. Outros trazem junto com os passos os sons das correntes, das chaves penduradas ao cinto, do couro macio que se adere a cada tipo de piso.
Não precisa ser músico pra entender isso.
Lá vinha Adeílson, eu sabia. Era ele. O passo pouco cadenciado produzia o som de uma ansiedade que lhe era desconhecida. Lá vinha...Lá vinha...
— São quatro horas! Você não produziu nada! Comunicarei o diretor! Tome nota!
Não dei muita atenção. Não por insubordinação, coisa de que sou incapaz, mas mais por uma desconexão natural. Foquei-me nos sons; atribuo mais importância a isso. Os sons também têm suas palavras. Em outros tempos, talvez me aborrecesse, mas eu cumpro minhas funções. Do meu jeito, é claro. Não minto. Mas também não imito. No máximo, crio... inverdades — mas como são criadas, ganham vida, e passam a viver sua própria realidade.
Uma pausa. Um café amargo. Amargado por quem o fez, não por culpa, mas por mera opção — ou melhor, por mera condição de quem enxerga no amargo a essência de assim o ser. Conversas vêm e vão, amarradas à norma e à convenção de não dizer o que possa ser aquém ou além da norma. O dinheiro era assunto outra vez. Ouço mais do que falo.
No máximo, e quando oportuno, lanço uns trocadilhos, para que não fiquem presos a mim. As ideias têm asas. Devem voar: voem desgraças!
O silêncio, enfim, chegava.
— Cadê o chefe? — ouvia-se no saguão.
— Foi almoçar, não sei se volta.
Doutor Parmênides dizia que chefe também era só mais uma palavra.
E não voltou. Dizem que os deuses o favoreciam. Vai ver, devia ser o deus-relógio que algumas exceções lhe concedia.
Fim de expediente.
Só restavam algumas palavras, daquelas poucas, que chamam o dever cumprido.
Sete horas. O relógio tocava.
Acordava! Era sonho? Esquisito. O gosto de boca amarga.
O que foi isso?
Que salada!
A verdade é que o dia mal começara.
Segunda-feira.
Acho que o desacato de um narrador me sonhava. Narrador-personagem? Sinceramente, eu não sei.
Vai ver foi a repetição de teorias que estudava.
Tomei banho. Me arrumei.
Sobre a mesa, uma máscara: ao trabalho!
