Opinião

Reconhecimento legal da síndrome de Burnout

"Na prática, essa mudança reforça que o adoecimento mental também pode ser consequência das condições de trabalho"

* Amanda Giomo Delalata
04/08/26 às 09h39

Durante muito tempo, o esgotamento extremo relacionado ao trabalho foi tratado como um sinal de fraqueza, falta de resiliência ou incapacidade de lidar com a pressão. Hoje, esse entendimento vem sendo substituído por uma visão mais responsável e baseada em evidências. O reconhecimento da Síndrome de Burnout como doença ocupacional representa um importante avanço para trabalhadores, empresas e para toda a sociedade.

Na prática, essa mudança reforça que o adoecimento mental também pode ser consequência das condições de trabalho. Jornadas excessivas, metas inalcançáveis, ambientes tóxicos, sobrecarga constante e a ausência de apoio emocional deixam de ser vistos apenas como desafios da rotina profissional para serem reconhecidos como fatores que podem comprometer seriamente a saúde. Esse é um passo importante para combater o estigma que ainda cerca os transtornos relacionados à saúde mental.

A Síndrome de Burnout não se resume ao cansaço após um dia intenso. Trata-se de um estado de exaustão física e emocional decorrente do estresse crônico no ambiente de trabalho, acompanhado por sentimentos de distanciamento, desmotivação e redução da eficácia profissional. Quando não identificada precocemente, pode afetar relacionamentos, desempenho, qualidade de vida e favorecer o surgimento de outros transtornos, como ansiedade e depressão.

Entretanto, o reconhecimento legal da síndrome não deve ser encarado apenas como um mecanismo para afastamentos ou direitos trabalhistas. Seu maior valor está em incentivar uma mudança de cultura. As organizações precisam compreender que cuidar da saúde mental não é um benefício adicional, mas parte da responsabilidade de promover ambientes de trabalho saudáveis, onde haja diálogo, respeito aos limites humanos e políticas efetivas de prevenção.

Da mesma forma, os trabalhadores também devem estar atentos aos sinais do próprio corpo e das emoções. Normalizar o sofrimento, acreditar que "é só uma fase" ou sentir culpa por buscar ajuda apenas prolonga o problema. Procurar acompanhamento psicológico nos primeiros sintomas é uma atitude de cuidado consigo mesmo e pode evitar que o quadro evolua.

Falar sobre Burnout é, acima de tudo, falar sobre qualidade de vida. O trabalho deve proporcionar realização, desenvolvimento e dignidade, e não adoecimento. O reconhecimento dessa síndrome como doença ocupacional representa um marco importante porque amplia a conscientização sobre a saúde mental e reforça que produtividade e bem-estar não são objetivos opostos, mas complementares. Afinal, pessoas saudáveis constroem ambientes mais humanos, equipes mais engajadas e organizações mais sustentáveis.

Foto: Divulgação

* Amanda Giomo Delalata é psicóloga do Centro de Terapias Integrativas Psico Benedita Fernandes

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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