Há momentos em que o modus vivendi de uma época parece consubstanciar-se em sua eloquente materialidade linguística, pois algumas expressões, ainda que aparentemente banais, condensam modos específicos de pensar, ser, existir sentir, desejar e conviver. Para além de descrever aquilo que somos e fazemos, as palavras, sem escapatória, constituem o que nos tornamos. Nesse sentido, a emergência e a circulação acelerada de determinados enunciados do cotidiano, em especial entre os mais jovens e nas redes sociais, sempre elas, podem ser compreendidas como fenômenos sociais que revelam as contradições do nosso existir contemporâneo e de como nos relacionamos com o outro. “ Farmar aura” e “misantropia” são duas dessas modernas formulações discursivas. Enquanto a primeira traduz o investimento na construção de uma imagem de si para angariar admiração, prestígio e reconhecimento, a segunda nomeia, em sua circulação hodierna, certa aversão, recusa ou desencanto diante da convivência com os outros. Entre o desejo do olhar e a recusa do encontro, por intermédio da linguagem, as duas formulações indicam materializar subjetividades cada vez mais autocentradas, atravessadas pelo individualismo, egoísmo, narcisismo e isolamento, em particular, nas bolhas das incontornáveis e ubíquas vitrines algorítmicas.
“Farmar aura” é uma exteriorização discursiva curiosa. O verbo “farmar” deriva do inglês farming que se popularizou no universo dos jogos eletrônicos para designar a realização repetida de determinadas ações com a finalidade de acumular recursos, patrimônios, pontos ou vantagens. Ao ser transportado para a vida social, o termo sofre um deslocamento semântico particularmente revelador, uma vez que, na hodiernidade, em termos estritos, não se acumulam mais moedas, troféus, itens ou acontecimentos, mas, a princípio, “auras ”. Portanto, “ farma aura ” aquele que realiza algo para anabolizar seu prestígio, sua presença, seu carisma ou sua desejabilidade diante do escrutínio arbitrário da arena virtual. Em tempos de plataformas de sociabilidade digital, essa manifestação é um grande trunfo de exposição para se manter nos holofotes e estar no centro das atenções.
Afinal, se é possível “ farmar aura”, aquilo que parecia pertencer ao campo do imponderável, ou seja, presença, carisma e singularidade, passa, simbolicamente, para o âmbito da produção e da acumulação. A tal da “aura” torna-se quase um legado quantificável. Pode-se ganhar, perder e/ou acumular “auras ”. Uma linguagem nascida nos jogos oferece, assim, uma metáfora surpreendentemente precisa para uma sociedade na qual até mesmo o nosso singular modo de ser tende a estar submetido à lógica do desenfreado desempenho, como assevera Byung-Chul Han. Nesse ponto, o filósofo sul-coreano, ao analisar a sociedade do tempo presente, observa a passagem de formas externas de disciplina para maneiras interiorizadas de se produzir incansavelmente. O sujeito da atualidade é, em caráter permanente, convocado a propagar resultados, trajetórias, visibilidade e, em última instância, a si próprio.
Sob essa perspectiva, “ farmar aura” demonstra cristalizar linguisticamente transformações profundas, posto que o próprio eu se converte em uma espécie de empreendimento neoliberal, submetido, sem cessar, à exigência da valorização de si. Originalmente ligadas ao mercado, essas características passam a organizar também a subjetividade no tocante ao desempenho, à produtividade, à competitividade, ao investimento, à valorização, aos resultados e à autogestão. Ou seja, o sujeito é compelido a gerir a si próprio como capital para ampliar de forma contínua seu “valor”, o que, a priori, o torna mais competitivo. Logo, o outro deixa de ser reconhecido, acima de tudo, como presença constitutiva e agentiva de nossa própria existência e passa, não raro, a ser percebido como concorrente, obstáculo, audiência ou instrumento para a afirmação de si, o que intensifica a hipertrofia do eu, o autocentramento, a segregação, bem como o disseminado e desgastado “protagonismo” (todos viraram protagonistas!?! Será mesmo?? Food for thought ...)
Nesse esteio, as indefectíveis e onipresentes fotografias (tudo hoje em dia é fatiga e inadvertidamente fotografado!), ou ainda um silêncio bem calculado podem “farmar aura” . Sob a mesma lógica, uma roupa, uma viagem, um prato num restaurante descolado, uma opinião inesperada, uma demonstração de coragem, uma referência cultural pouco conhecida ou mesmo uma atitude deliberadamente indiferente podem fazê-lo. O sujeito torna-se, em concomitância, produtor, produto e divulgador de si.
Em paralelo, à primeira vista, existe outro acontecimento linguístico situado no extremo oposto no que se refere ao incremento do prestígio social. A crescente banalização da palavra “misantropia” e seus desdobramentos em expressões, tais como: “odeio gente”, “não suporto pessoas” e “ prefiro ficar sozinho” são paradoxos para quem quer ascender ao centro das atenções. Em termos históricos, a misantropia designa uma aversão ou um profundo descrédito em relação aos seres humanos. Pode nomear saturação, irritação, desencanto, retraimento, intolerância, preconceito, desrespeito ou simplesmente cansaço diante das exigências da sociabilidade coetânea. Sobreleva ressaltar que, como alerta Byung-Chul Han, despojado de sua alteridade, o outro é convertido em reles objeto de consumo. Por conseguinte, ao se distanciar e eliminar o olhar do outro, o ego exacerbado do misantropo, via de regra, acarreta depressão, solidão e ansiedade.
Nesse campo de tensão entre os dois termos, Hannah Arendt (1906-1975), filósofa alemã, ao conceber a pluralidade como condição fundamental – e inevitável - da existência humana, ilumina o fato de que habitamos, a rigor, o mundo comum - conceito arendtiano -, compartilhado por seres que não são idênticos entre si. Viver entre outros significa, como condição incontornável, confrontar visões de mundo diversas que, obviamente, não controlamos. Aqui emerge um dos grandes descompassos da modernidade, pois nunca desejamos tanto o reconhecimento dos outros e, a um só tempo, toleramos tão pouco a alteridade que essa validação pressupõe. Em outras palavras, desejamos o olhar, mas nem sempre queremos interlocutores. Almejamos seguidores, mas recusamos o confronto com o diferente. Queremos que o outro legitime nossa singularidade, mas, com frequência, desejamos afastá-lo quando sua presença contraria aquilo que esperamos de nós mesmos. É nesse ponto que “farmar aura ” e “ misantropia ” , opostos à primeira vista, começam a revelar uma surpreendente proximidade. Ambos podem ser compreendidos como respostas ao mesmo problema concernente à maneira como administramos o outro em uma sociedade na qual vivemos sob o constante crivo de seu olhar.
Em suma, “farmar aura” significa precisar intensamente do olhar alheio. A misantropia configura, em seu limite, a recusa da presença desse mesmo outro. A dissonância é apenas aparente. Nas duas situações, o outro permanece, sem qualquer ressalva, central. Até mesmo a proclamação pública da misantropia contém uma ironia filosófica. Quando alguém publica que “odeia pessoas”, necessita precisamente dessa audiência para que sua declaração faça sentido, circule e obtenha reconhecimento. A rejeição da sociabilidade pode converter-se, sob aparente ambivalência, em uma forma de intersubjetividade. Por uma curiosa inversão, pode-se, inclusive, “farmar aura” sendo misantropo.
Nesse sentido, “farmar aura” é muito mais do que uma gíria curiosa. Em princípio, permite entrever uma mera teoria social involuntária que, como tudo nesta vida, passa. Uma geração transformou em verbo aquilo que a sociedade da época atual transparece exigir que sempre se produza, além de se diferenciar, ser interessante, acumular reconhecimento e, por conseguinte, permanecer constantemente visível e, claro, instagramável. Do lado posto, a popularização cotidiana da misantropia revela o esgotamento provocado por viver, a todo momento, diante das lentes alheias, sobretudo, na esfera virtual.
Entre a necessidade de “farmar aura” e o desejo de afastar-se das pessoas, nutrimos, num movimento contraditório, um profundo anseio de que os outros percebam as nossas peculiaridades, ao mesmo tempo em que a presença concreta desses mesmos outros pode mostrar-se cada vez mais difícil de suportar. Plausivelmente, trata-se de uma das antinomias mais inquietantes da existência vigente, dado que quanto mais celebramos a individualidade, a autonomia e a construção de nós mesmos, mais corremos o risco de converter essa afirmação do eu em individualismo, o cuidado de si em egoísmo e a independência em isolamento. Talvez o desafio ético do mundo de hoje não esteja, portanto, em acumular mais “ auras”, como uma espécie de “ ativo” indispensável à sobrevivência social, tampouco em eliminar o desconforto provocado pelo outro. Está, na verdade, em resgatar a possibilidade de existir diante do outro sem transformá-lo exclusivamente em audiência, juiz, ameaça, rival, competidor ou instrumento de nossa própria imagem. Porque, no fim, ninguém “ farmar aura ” sozinho, haja vista que aquilo que julgamos fazer por nós mesmos pressupõe, de algum modo, o outro. A “aura” que julgamos nossa nasce, em sentido estrito, no espaço entre nós e aqueles de quem, em aparente incongruência, às vezes desejaríamos manter distância.
Frente a essas considerações, é razoável supor que precisamos reaprender a reconhecer que a afirmação de nosso caráter irredutível, inerentemente heterogêneo e multifacetado, não exige o apagamento, a instrumentalização ou o afastamento do outro. Na contramão da deletéria dialética intermitente da perene conectividade, que não propicia vínculos, mas apenas efêmeros contatos e, porventura, alguns “likes”, nossas ímpares idiossincrasias podem se constituir, nesse movimento inacabado de ser, como agência de construção coletiva à luz da potência dos encontros – presenciais -, da multiculturalidade, das diferenças, dos distintos modos de existir, ser e pensar, ao lado das experiências de vidas compartilhadas.
