Opinião

A genialidade de Dostoiévski

"Ele é considerado o principal representante do realismo russo do século XIX, marcante pela exploração psicológica dos seus personagens e pela retratação da miséria social russa"

Adelmo Pinho
05/09/26 às 12h55

Se Nikolai Gógol, autor de O capote, é considerado o “pai da literatura russa”, em especial pela grandeza desse conto, Dostoiévski, s.m.j., o superou. Ele é considerado o principal representante do realismo russo do século XIX, marcante pela exploração psicológica dos seus personagens e pela retratação da miséria social russa.

Em seus vários romances e contos, Dostoiévski aborda temas como fé, niilismo, ateísmo, bem, mal, amor, traição, ódio, boa-fé etc. Na sua obra mais conhecida, Crime e Castigo, o personagem principal, Raskolnikov, um jovem ex-estudante miserável, decide matar uma velha agiota por acreditar que pessoas superiores, como Napoleão, matavam outras para o bem da humanidade, e ele também o faria.

No romance ele pratica dois assassinatos e durante a trama, Raskolnikov tenta lidar com a culpa dos crimes cometidos. Esse romance aborda questões filosóficas, morais e sociais sobre os crimes, levantando-se a questão: todo crime merece castigo?

Em Os Irmãos Karamàzov, o último romance de Dostoiévski, tem-se uma narrativa filosófica e policial, na conturbada relação de Fiódor Karamázov e seus filhos: Dmitri, orgulhoso e irresponsável; Ivan, intelectual inquieto; Aliócha, puro e de muita fé.

O ponto alto desse romance é o monólogo de um bispo inquisidor dirigido a Jesus Cristo (capítulo da parábola, O Grande Inquisidor, cujo nome de Jesus não é expressamente mencionado), bem como um diálogo com o diabo, num pesadelo do personagem Ivan Fiódorovitch, onde se questiona, dentre outras coisas, a existência de Deus e da imortalidade. “E se Deus não existe, tudo é permitido”, conclui o próprio diabo.

Esse romance, em especial, influenciou pensadores como Freud e Nietzsche. Em O idiota, o principal personagem, o príncipe Liév, é considerado um idiota pela sociedade russa de São Petersburgo, por ser bom, verdadeiro e simpático. No decorrer do romance, de pobre ele se torna rico, ao receber uma herança.

O narrador do romance é onisciente. A postura ética do príncipe Liév é notável, contagiando com o bem até os personagens malévolos. Liév tem viés cético e questionador do catolicismo, estando mais próximo do ateísmo.

Os demônios, ou Os possessos, foi escrito por Dostoiévski com base na história real do assassinato de um estudante por um grupo niilista da época. O livro faz crítica ao idealismo utópico e ao niilismo, transmitindo a consciência do perigo de quem “pretende mudar o mundo” e se transforma em assassino ou demônio. Na narrativa do romance alguns personagens apresentam ideias fanáticas. O livro tem viés filosófico, com crítica social e política.

Em Diário de subsolo, Dostoiévski faz profundas reflexões filosóficas, como: “a melhor definição do homem é: um ser bípede e ingrato”; “O maior defeito do homem é a sua continua imoralidade”; “tão só o homem sabe amaldiçoar – o que o distingue dos outros animais”; “a consciência é a maior desgraça do homem”; “o que seria melhor, uma felicidade pífia ou um sofrimento sublime?”; “somos natimortos”; “o juízo só sabe aquilo que assimilou”.

A crítica aponta que nesta obra, Dostoiévski não se refere somente a um indivíduo em reflexão, e sim, que ele representou metaforicamente a sociedade russa durante o cruento reinado de Nilolai I da Rússia czarista (de 1825 a 1855).

Em O jogador, Dostoiévski traz experiências dele mesmo com o jogo de azar, afirmando a crítica que ele o escreveu em apenas 26 dias para pagar uma dívida com um de seus editores. “O sonho de um homem ridículo” é um conto em que o autor aborda o suicídio, o niilismo e discute sobre o sentido da vida, sobre Deus e a continuidade da vida após a morte. Esse conto lembra a Divina Comédia de Dante Alighieri (século XIV), poema épico e teológico, em que o personagem dela (o próprio autor, Dante) passa pelo inferno, atravessa o purgatório e chega no paraíso.

“Noites brancas” e “O eterno marido” são obras menos conhecidas de Dostoiévski, mas bem interessantes. Noites brancas é uma obra mais lírica que foca a solidão e a idealização do amor, enquanto O eterno marido, é um romance dramático e psicológico, que se passa em São Petersburgo entre dois personagens masculinos.

O adolescente, Gente pobre e O duplo são outros romances de Dostoiévski. Por tudo isso, é fato que Dostoiévski, em especial depois de ser preso por vários anos e de se livrar da condenação à pena de morte, tornou-se não só um dos maiores escritores de todos os tempos, como também um grande filósofo.

Foto: Arquivo

*Adelmo Pinho é articulista, cronista e membro da Academia de Letras de Penápolis e da Academia Araçatubense de Letras

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

Gostaria de ter artigos publicados no Hojemais Araçatuba ? Entre em contato pelo e-mail: redacao@ata.hojemais.com.br

 RECOMENDADO PARA VOCÊ
 EM DESTAQUE AGORA
VEJA TODOS OS DESTAQUES
 ÚLTIMAS EM OPINIÃO
Franquia:
Araçatuba SP
Franqueado:
Connect Jornalismo Digital LTDA
48.486.487/0001-90
Editor responsável:
Lazaro Silva Júnior MTB 48158
lazaro.junior@ata.hojemais.com.br
Todos os direitos reservados © 1999 - 2026 - Grupo Agitta de Comunicação.