Opinião

Não basta dizer que toda vida importa

"É preciso construir ambientes nos quais as pessoas sintam que importam"

Vanilda Maria Barboza (Vanda)
03/09/26 às 11h56

Passamos boa parte da vida aprendendo a ser independentes. Desde cedo, somos incentivados a fazer sozinhos, conquistar, produzir, trabalhar, decidir. A autonomia é, sem dúvida, uma conquista importante. O problema começa quando transformamos a independência em medida de valor.

E se precisarmos do outro? Essa pergunta ainda parece desconfortável para uma sociedade que costuma associar vulnerabilidade à fraqueza. Envelhecer, adoecer, adquirir uma deficiência ou simplesmente atravessar uma fase em que não conseguimos dar conta de tudo pode nos colocar diante de uma verdade que preferimos esquecer: ninguém é autossuficiente.

Todos nós dependemos de alguém em algum momento da vida. A própria saúde mental não pode ser compreendida apenas como uma questão individual. O Ministério da Saúde destaca que as condições sociais, econômicas, ambientais e as relações de apoio também interferem no bem-estar das pessoas.

Por isso, falar em valorização da vida também é falar sobre pertencimento. Uma pessoa não deveria sentir que perdeu seu valor porque deixou de produzir como antes. Um idoso não deveria ser considerado menos importante porque precisa de cuidados. Uma pessoa com deficiência não deveria ser reduzida às suas limitações. E quem cuida também não deveria carregar sozinho o peso de cuidar.

Talvez uma sociedade verdadeiramente humana seja aquela que entende que cuidar não é fazer pelo outro aquilo que ele não consegue. É reconhecer sua dignidade, respeitar suas escolhas e garantir que ele continue fazendo parte da vida coletiva.

No cotidiano de uma instituição como a Associação Ritinha Prates, essa compreensão deixa de ser teoria. Ela aparece nos vínculos, nas pequenas conquistas, na convivência e na certeza de que cada pessoa tem uma história que merece ser reconhecida.

Neste Setembro Amarelo, talvez devêssemos ampliar a pergunta sobre como valorizamos a vida. Não basta dizer que toda vida importa. É preciso construir ambientes nos quais as pessoas sintam que importam.

Porque pertencimento também é cuidado. E, quando entendemos que todos somos vulneráveis, cuidar do outro deixa de ser um gesto de caridade e passa a ser uma responsabilidade coletiva.

Foto: Divulgação

* Vanilda Maria Barboza (Vanda) é presidente da Associação de Amparo ao Excepcional Ritinha Prates, de Araçatuba (SP)

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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