Opinião

Como as telas dominaram a nossa vida e o que nos espera quando elas sumirem

"Com o avanço da computação espacial, dos óculos de realidade mista e das interfaces holográficas, a superfície física de vidro tende a se dissolver no próprio ambiente"

Cassio Betine
23/08/26 às 06h06
Imagem: Google Gemini

Se alguém me dissesse, há cerca de trinta anos, que eu passaria a maior parte da minha vida acordado encarando um pedaço retangular de vidro brilhante, eu provavelmente daria uma risada e voltaria a folhear uma revista ou a esperar o jornal de domingo chegar à calçada. 

Naquela época, o nosso contato com telas era pontual, coletivo e estático. Havia a televisão na sala de estar, que reunia a família em horários rígidos da grade de programação, e talvez algum monitor de tubo pesado no escritório, exibindo linhas de comando em fósforo verde.

A realidade física tinha um peso inegociável: se você quisesse falar com um amigo, discava em um telefone fixo com fio curto; se precisasse de uma informação, consultava os volumes empoeirados da enciclopédia Barsa; e o tédio nas salas de espera era preenchido apenas pela observação das pessoas ao redor ou por pensamentos soltos. Muita gente nem sabe do que estou falando, mas, pra mim, foi um privilégio passar por essa transição.

A grande virada não foi apenas a digitalização, mas também a interatividade tátil. Quando o iPhone chegou em 2007 popularizando o conceito de tela capacitiva multitoque, o mundo sofreu uma mutação invisível, mas radical. A tela deixou de ser uma janela distante para onde olhávamos passivamente e se transformou em uma extensão dos nossos próprios dedos.

Passamos a tocar a informação, a arrastar imagens, a beliscar mapas e a receber respostas táteis instantâneas. O que parecia uma revolução de conveniência logo se desdobrou na ubiquidade absoluta: painéis interativos invadiram os caixas de supermercado, os totens de restaurantes de fast-food, os painéis de instrumentos dos automóveis e até as geladeiras. A interface física analógica foi gradativamente soterrada por camadas de pixels.

Essa semana mesmo, estive num evento de uma das maiores empresas de telas digitais do Brasil, e a ideia deles é aquela imagem de que quando tirarmos os olhos do celular, eles continuarão olhando para centenas de milhares de outras telas – uma continuidade. Coisa bem de filme distópico mesmo!

Hoje, já vivemos mergulhados no que muitos sociólogos e neurocientistas chamam de hiperconexão sensorial. Pesquisas recentes sobre tempo de tela mostram que o brasileiro médio passa cerca de nove horas por dia conectado a dispositivos digitais, sendo que a maior parte desse tempo ocorre em pequenos vidros interativos de bolso.

O problema nunca foi a ferramenta em si, mas a economia da atenção construída ao redor dela. Estudos conduzidos por pesquisadores de Stanford e publicados em periódicos como o Journal of Social and Clinical Psychology apontam que essa mediação contínua reconfigurou nossa capacidade de foco prolongado, fragmentou o sono e aumentou os índices de ansiedade social.

Nós não apenas usamos as telas; nós passamos a enxergar o mundo através da moldura delas, terceirizando memórias, rotas, relacionamentos e até momentos de ócio para algoritmos desenhados milimetricamente para reter o nosso olhar.

Quando projeto os olhos para o futuro, vejo uma encruzilhada fascinante – e um pouco inquietante. A tendência imediata sugere que as telas tradicionais começarão a se desmaterializar. Com o avanço da computação espacial, dos óculos de realidade mista e das interfaces holográficas, a superfície física de vidro tende a se dissolver no próprio ambiente.

A informação deixará de estar presa a um retângulo portátil para ser projetada diretamente sobre o nosso campo de visão, mesclando dados digitais à paisagem concreta em tempo real. E, mais adiante, as interfaces cérebro-computador prometem encurtar ainda mais essa distância, transformando a interação visual em impulsos neurais quase imperceptíveis (telepatia?).

Diante desse cenário, minha reflexão não é de recusa nostálgica. As telas nos deram um poder cognitivo e de conexão que nenhuma outra geração na história humana experimentou, mas também, convenhamos, estão cobrando um pedágio alto em presença genuína.

Talvez, o verdadeiro luxo dos próximos anos não seja ter acesso à tela mais moderna ou à resolução mais cristalina, ou transmitir mensagens mentais, mas sim a capacidade consciente de desligá-la, olhar nos olhos de quem está por perto e redescobrir o valor insubstituível do mundo real. Sei lá, ou talvez experimentarmos uma nova e irreversível era sensorial… Vai saber.

Foto: Divulgação

Cassio Betine: Pós-graduado em Tecnologias da Aprendizagem, Bacharel em Artes e Desenho Industrial. Coordenador e Mentor de Negócios e Eventos. Autor de livros, artigos e produtor de conteúdos diários sobre Tecnologia, Inovação e Comportamento. É empreendedor em outros negócios e fundador da F7Digitall.com – Tecnologia & Comunicação Engenhariae tecnologia

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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