Opinião

Alexandre, o Grande - e a inevitável queda do império

"quanto maior o império, mais frágil se torna a ilusão de que ele pertence ao conquistador"

Bruno Barros Mendes
02/09/26 às 15h45

Há ironias que parecem escritas pela própria História.

Alexandre, o Grande. O da Macedônia conquistou a Pérsia. O de Brasília, um lugar privilegiado na agenda de Daniel Vorcaro. Um deles atravessou continentes. O outro, segundo o que veio a público, aparentemente atravessou uma fronteira muito mais delicada: aquela que deveria separar o juiz do jurisdicionado.

Ambos ultrapassaram limites. Mas existe uma ironia que acompanha todos os grandes poderes: quanto maior o império, mais frágil se torna a ilusão de que ele pertence ao conquistador. É por isso que a história de Alexandre continua sendo uma parábola sobre o poder. Todo império acredita que durará para sempre, até o dia em que descobre que também possui uma queda.

As mensagens e documentos divulgados apontam para uma relação próxima entre Vorcaro e Alexandre de Moraes, com contatos e circunstâncias que, no mínimo, exigem explicações. Não se trata de transformar suspeitas em condenações, mas de reconhecer que os fatos revelados são graves o suficiente para merecer investigação e escrutínio público.

E aqui está o ponto central: a Justiça não precisa apenas ser imparcial; precisa também parecer imparcial. A distância entre o julgador e aquele que pode ser alcançado pela atuação do Estado não é mero detalhe protocolar. É parte da confiança que sustenta o próprio Poder Judiciário.

Não se trata de esquerda ou direita. Não se trata de gostar ou não de Alexandre de Moraes. Trata-se de uma questão institucional. Quanto maior o poder concentrado em uma autoridade, maior deve ser a exigência de transparência, especialmente quando surgem dúvidas sobre sua relação com pessoas diretamente interessadas em decisões ou investigações.

Também é preciso reconhecer que o episódio ainda está sujeito a controvérsias. A investigação e os documentos divulgados deverão ser submetidos aos mecanismos próprios de controle. O devido processo legal não pode ser relativizado nem mesmo quando as suspeitas recaem sobre autoridades poderosas. Mas defender garantias não significa fechar os olhos para fatos incômodos. Ao contrário: o Estado de Direito exige que as mesmas exigências de transparência aplicadas a qualquer cidadão também possam alcançar aqueles que ocupam as posições mais altas da República.

Se, ao final das apurações, ficar demonstrado que não houve qualquer irregularidade, será importante que isso seja esclarecido e que a reputação das instituições seja preservada. Mas, se forem confirmadas circunstâncias incompatíveis com os deveres de imparcialidade e independência, será inevitável discutir as consequências institucionais — inclusive a permanência do ministro no Supremo Tribunal Federal. Porque ninguém está acima das instituições. 

Foto: Divulgação

Bruno Barros Mendes - Advogado, mestre pela USP 

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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