Opinião

O futuro com a IA nos obriga a olhar para dentro

"Criatividade, adaptação, escuta, empatia, resiliência e inteligência emocional já aparecem entre as competências mais valorizadas para o futuro"

Jean Oliveira
10/09/26 às 06h08

Quanto mais a inteligência artificial avança, mais o mundo do trabalho parece redescobrir o valor de algo que nenhuma máquina consegue experimentar: ser humano. Criatividade, adaptação, escuta, empatia, resiliência e inteligência emocional já aparecem entre as competências mais valorizadas para o futuro. Mas existe uma pergunta anterior a todas elas: quanto conhecemos de nós mesmos?

Como psicólogo, considero essa uma das questões mais interessantes provocadas pela transformação tecnológica. Não porque a Psicologia tenha respostas prontas para os desafios que estão chegando, mas porque compreender o comportamento humano, as emoções e os vínculos nunca foi tão necessário quanto em um cenário no qual máquinas passam a realizar tarefas que antes dependiam exclusivamente de pessoas.

Um artigo de Luciano Santos, autor do livro “Seja Egoísta com sua Carreira”, na revista VC IA, chama atenção justamente para essa mudança. Ao discutir o futuro do trabalho diante da inteligência artificial, o texto aponta que características essencialmente humanas podem ganhar importância à medida que sistemas automatizados assumem tarefas técnicas e cognitivas.

A ideia parece paradoxal: quanto mais inteligentes ficam as máquinas, maior pode ser a importância de desenvolver aquilo que nos diferencia delas.

O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, reforça essa tendência. O relatório aponta o pensamento analítico entre as principais competências valorizadas pelos empregadores e destaca também resiliência, flexibilidade, liderança, influência social, motivação e autoconhecimento.

Mas há um problema pouco discutido nessa conversa.

Costumamos falar dessas características como se fossem ferramentas que bastasse aprender a utilizar. “É preciso ter inteligência emocional”. “É necessário ser resiliente”. “As empresas precisam de profissionais empáticos”. Como se conhecer os conceitos fosse suficiente para incorporá-los.

Não funciona assim.

Uma pessoa pode saber que precisa controlar uma reação e, ainda assim, explodir quando se sente desrespeitada. Pode defender a empatia e ter dificuldade para escutar uma opinião contrária. Pode reconhecer racionalmente que precisa mudar e repetir durante anos os mesmos padrões de comportamento.

É justamente nesse espaço entre saber o que deveríamos fazer e conseguir efetivamente fazê-lo que o autoconhecimento ganha importância.

E é também aí que a Psicologia pode contribuir.

A psicoterapia não deve ser reduzida a um treinamento para transformar alguém em um profissional mais produtivo ou adequado às exigências do mercado. Seu campo é muito mais amplo: possibilitar que a pessoa compreenda melhor sua experiência, reconheça emoções, perceba padrões de comportamento, reflita sobre suas escolhas e desenvolva uma relação mais consciente consigo mesma e com os outros.

Isso também pode produzir efeitos na vida profissional.

Um profissional recebe uma crítica e imediatamente sente raiva. Se reage impulsivamente, pode transformar uma divergência em conflito. Se consegue perceber a própria emoção e criar algum espaço entre o sentimento e a resposta, abre-se outra possibilidade de ação.

Não significa deixar de sentir raiva. Significa não ser completamente governado por ela.

O mesmo vale para a resiliência. Ser resiliente não é suportar qualquer coisa calado, tampouco transformar sofrimento em medalha. É desenvolver recursos para atravessar situações difíceis sem perder a capacidade de pensar, escolher e estabelecer limites.

Num mercado em transformação, isso importa.

O Fórum Econômico Mundial estima que cerca de 39% das habilidades essenciais exigidas no mercado deverão mudar até 2030. Ao mesmo tempo em que competências ligadas à inteligência artificial ganham espaço, pensamento criativo, flexibilidade, curiosidade e resiliência permanecem entre as habilidades consideradas relevantes.

A questão, portanto, talvez não seja apenas aprender a trabalhar com inteligência artificial. É também aprender a trabalhar melhor consigo mesmo. E uma psicoterapia pode ajudar muito.

Foto: Divulgação

Jean Oliveira é psicólogo e jornalista

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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