Opinião

O futuro centenário: onde a tecnologia encontra o tempo

"Hoje, o leque de recursos disponíveis vai muito além daquele celular com teclas grandes ou do botão de emergência pendurado no pescoço"

Cassio Betine
13/09/26 às 06h14
Imagem: Google Gemini

Viver mais sempre foi um dos grandes sonhos da humanidade, mas nunca estivemos tão perto de transformar esse desejo em rotina como agora. Se olharmos para trás, há pouco mais de um século, chegar aos cinquenta anos já era considerado uma vitória contra as probabilidades.

Doenças comuns levavam pessoas jovens embora, as condições de saneamento eram precárias e a rotina de trabalho físico desgastava o corpo - inclusive a mobilidade contribui para salvar vidas - antes, deslocar alguém que tivesse tido um infarto era difícil e muita gente morria por falta de atendimento, hoje não mais.

O cenário realmente mudou de figura: ver homens e mulheres soprando oitenta, noventa ou até cem velinhas no bolo de aniversário deixou de ser algo extraordinário e virou parte do nosso cotidiano.

Essa guinada histórica não aconteceu por acaso. A grande virada começou com a evolução da medicina básica, a chegada dos antibióticos, a expansão da vacinação em massa e a compreensão elementar de como a higiene salva vidas. Conforme fomos dominando o básico, a ciência médica subiu de nível.

Passamos a diagnosticar problemas cardíacos e tumores muito antes deles causarem estragos irreversíveis, ganhamos remédios de uso contínuo que controlam pressão alta e diabetes como quem toma um copo d'água, e cirurgias que antes exigiam cortes assustadores agora são feitas com furinhos mínimos e recuperação rápida. Tudo isso garantiu que mais pessoas chegassem à velhice com vitalidade, mas também trouxe uma pergunta inevitável: como cuidar dessa população que não para de crescer?

É exatamente nesse ponto que a tecnologia entra como uma grande aliada, mudando a forma como encaramos o envelhecer. O mercado percebeu que não basta dar anos à vida, é preciso garantir vida e autonomia a esses anos. Hoje, o leque de recursos disponíveis vai muito além daquele celular com teclas grandes ou do botão de emergência pendurado no pescoço.

Há relógios inteligentes capazes de identificar uma arritmia cardíaca silenciosa ou disparar um alerta imediato para a família se a pessoa sofrer uma queda no banheiro. Existem sensores domésticos discretos que aprendem a rotina da casa e avisam se a geladeira não foi aberta pela manhã ou se o fogão ficou aceso por engano, preservando a independência do idoso sem que ele se sinta vigiado o tempo todo.

Mas talvez o salto mais fascinante esteja no campo da robótica e da assistência direta. Quando pensamos em robôs, logo imaginamos máquinas humanoides de filmes de ficção científica, mas a realidade tem sido bem mais acolhedora e funcional. Um exemplo marcante disso vem de uma iniciativa do governo do estado de Nova York, que distribuiu centenas de robôs de assistência chamados ElliQ para idosos que moram sozinhos.

Esse aparelho não tem pernas nem braços mecânicos, parece mesmo uma luminária moderna com uma tela acoplada. Sua principal função é combater uma das maiores dores do envelhecimento moderno: a solidão. O dispositivo conversa com a pessoa de forma natural, lembra os horários dos remédios, sugere exercícios físicos leves, estimula a memória com jogos e facilita chamadas de vídeo com os parentes.

Para além dos assistentes sociais de mesa, já vemos também máquinas de reabilitação motora, andadores motorizados inteligentes com freio automático e pequenos robôs em formato de animais de estimação que trazem conforto emocional a pacientes com demência.

Se o presente já impressiona com essas traquitanas, o futuro promete redefinir por completo a nossa ideia de velhice. Conforme a expectativa de vida continuar subindo rumo aos cem anos ou mais, veremos uma integração ainda mais profunda entre corpo e máquinas. Exoesqueletos leves e discretos, roupas normais poderão devolver a força nas pernas para quem tem desgaste articular, permitindo que qualquer pessoa continue caminhando sem esforço.

Robôs domésticos com destreza física real logo estarão disponíveis para carregar compras, preparar refeições balanceadas e auxiliar na mobilidade dentro do quarto. Na medicina preventiva, a inteligência artificial combinada com a genética poderá antecipar doenças anos antes dos primeiros sintomas, personalizando tratamentos de acordo com o DNA de cada um. Pode aguardar - isso será inevitável.

Envelhecer, afinal, é o único caminho natural para quem não quer morrer cedo. Saber que a longevidade está aumentando é uma conquista fantástica da civilização, e a tecnologia vem provando que não precisamos temer esse tempo a mais. Em vez de isolamento ou perda de capacidade, as inovações que temos hoje e as que estão por vir nos mostram que a maturidade pode ser vivida com dignidade, autonomia, conexão e, acima de tudo, vontade de continuar aproveitando o mundo.

Foto: Divulgação

Cassio Betine: Pós-graduado em Tecnologias da Aprendizagem, Bacharel em Artes e Desenho Industrial. Coordenador e Mentor de Negócios e Eventos. Autor de livros, artigos e produtor de conteúdos diários sobre Tecnologia, Inovação e Comportamento. É empreendedor em outros negócios e fundador da F7Digitall.com – Tecnologia & Comunicação Engenhariae tecnologia

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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