Opinião

Memórias de minhas putas tristes

"Alguns livros terminam quando fechamos a última página. Outros continuam, silenciosamente, nas perguntas que deixam"

Thiago T. Canossa
21/09/26 às 19h10

Calma. As memórias não são minhas. Tampouco as putas, as quais não conheci. Também não as julgo tristes (quem sou eu pra julgar?)

Quem assim as entende, na verdade, é um narrador que nos conta a sua história; essa, sim, triste, de certa forma, como a sua (ou a nossa) própria vida, conforme o relato dele mesmo, um cronista-narrador (ou narrador-cronista), ao longo das cento e vinte e oito páginas da obra de mesmo nome, escrita por Gabriel García Márquez, distinto escritor colombiano, Nobel de Literatura, representante do realismo mágico latino-americano.

Alguns livros terminam quando fechamos a última página. Outros continuam, silenciosamente, nas perguntas que deixam. Memórias de minhas putas tristes pertence a essa segunda espécie. O romance me fez pensar nas escolhas que fazemos, no tempo que passa e nas consequências que carregamos, mas, sobretudo, nas possibilidades imensas que ainda podem existir enquanto permanecemos atentos a cada segundo vivido. 

Ao cabo da leitura, nada se conclui, exceto o que nos é dado questionar:

À iminência do fim, é possível (re)começar?

Percorri as angustiantes páginas escritas por Gabo (Gabriel) por uma ou duas semanas, no bojo das quais o autor concede a voz narrativa a um homem que, de repente, vê-se aos noventa anos de idade e decide compartilhar as memórias mais urgentes de si.

Àquela altura, o tempo era mais curto a cada dia: “dispunha de mais passado que futuro”, concluía (palavras minhas).

Esse homem, que é personagem, mas também é narrador (não o confunda com o escritor), em momento algum revela o próprio nome. Também não dá indícios de alcunha que o identifique. Apresenta-se somente como jornalista, ainda ativo, que compunha uma ou outra crônica para o jornal local.

A narrativa se desenvolve (e nos envolve) em torno das memórias do seu passado, ao longo dos noventa anos vividos. Algumas delas, publicava no jornal, como testemunhos vivos de um horizonte que parecia se fechar. A morte já não era uma abstração muito distante: “Decidi por não ter filhos. Mulheres, na verdade as tive, e aos montes, embora nenhuma tenha conservado ao meu lado” (palavras minhas). Delas conhecia os mais variados cheiros e sabores.

Noventa anos. Um balanço: derrota ou conquista? Não fica claro. E sobre isso ele não pondera diretamente. Constata, buscando na memória o passado dos momentos, a ânsia de compreender o presente, seus arrependimentos, com suas causas e concausas.

O passado é como a morte, mas em sentido contrário: contra ele não há nada que se faça, a não ser esquecê-lo, quando se lembrar de invocá-lo. Mas aquele era o seu presente. Estar vivo, porquanto ainda existia vida; a idade alcançada era só um fato. Chegara até ali, trabalhando, gozando de boa saúde e, com certa constância, deitando-se com as mulheres pelas quais pagava e escolhia. Nisso julgou ser feliz.

Nutria o velho hábito com o auxílio de uma antiga conhecida, cafetina, que lhe disponibilizava as mulheres. Aos poucos, porém, dava sinais de quem disso se desinteressava. 

Sinais...

Um homem feito de memórias .

Ao longo da narrativa, o narrador inominado compartilha a sua rotina. O relacionamento com amigos de trabalho que se transformava. O tempo que havia passado. Os conhecidos que morreram, a outros legaram suas vagas; aqueles, mais novos, de outros nomes, de outra época e contexto, com os quais, dia a dia, se descompatibilizava.

Um monólogo constante revela ao leitor um complexo de sentimentos experimentados pelo narrador senil, que viveu como bem quis, morando na mesma casa herdada dos pais.

Nas memórias, a cobrança da mãe em torno de um bom casamento que lhe rendesse frutos e alegria sempre futura. Ele, porém, fez suas escolhas, das quais colhia as consequências devidas.

Um toque de arrependimento, talvez, pelo que deixou de fazer, mas nem um pouco pelo que fez. Na verdade, arrependimento ou não, é mera questão de interpretação, pois nada, em seu relato, o certifica. Ele apenas rememora.

Àquela altura, com mais passado que futuro, a memória lhe servia como o real patrimônio de uma vida que se aproximava do fim. Os poucos bens que titularizava, sabia, em pouco seriam nada, visto que tudo deixaria. A escrita, nesse sentido, lhe dava o suporte material para a elaboração de suas crônicas. As crônicas publicadas pelo jornal se tornaram uma forma velada de postergar a morte, tornando-o imortal enquanto escrito.

A realidade impõe os seus limites. A imaginação os transcende.

Embora ainda com relativa saúde, nutria consciência do fim iminente, enquanto elaborava intimamente o seu franco processo em torno da inevitável morte. Era lucro estar vivo até ali.

As memórias, vividamente descritas, deslocam o leitor à reflexão sobre a impermanência do mundo, das coisas e, sobretudo, de si próprio. De um lado, o juízo pondera o balanço da vida pelas memórias. Mas tudo isso sem o raciocínio de julgamento. O narrador sopesa as lembranças como o que de fato ocorreu, por força das escolhas que não voltam mais.

Não se casou, não teve filhos. Não conheceu o amor. Foi feliz? A princípio, sim. A solidão o acompanhou pelos anos passados. Uma solidão relativa, visto que tinha por franco prazer frequentar o bordel de Rosa Cabarcas.

Não podia reviver o passado. Podia, entretanto, narrá-lo, dando-lhe novas expectativas. Quando a realidade fechava uma porta, a imaginação abria uma janela. Era por ela que o narrador podia voltar aos lugares onde estivera, reconstruir pessoas que já não existiam e, mais adiante, inventar possibilidades que a vida concreta já não lhe oferecia. A imaginação era o barro da escrita: dava forma ao que jazia sepultado e devolvia às coisas uma espécie de vida possível.

E nisso um destaque que importa. Quando sobressai o valor da memória. Não tendo mais o que construir, poderia reviver o construído. Até que um novo fato passa a atuar como novo marco. Um certo renascimento que adia a morte. Não necessariamente isso. Mas ao menos um novo fôlego de esperança, quando lhe é apresentada por Rosa Cabarcas, uma prostituta distinta das até então conhecidas. Muito mais nova.

O fato é que, naquela idade, embora gozasse de amplo prazer em se deitar com as mulheres intermediadas por Cabarcas, os tempos eram outros. Tudo havia mudado. As pessoas no jornal, os lugares, os interesses, suas crônicas... os valores. A moça era muito mais nova. Recusou em um primeiro momento. Aceitou posteriormente.

Esse encontro não será fortuito. Ou talvez seja. Diferentemente dos demais vivenciados, em que as mulheres não passavam de produtos para seu consumo, pelos quais pagava antecipadamente, agora, sentia algo.

A menina

É nesse ponto que surge uma menina.

Ela representa, antes de tudo, um contraste brutal com o narrador. Aos noventa anos, ele é quase todo passado. Sua vida está atrás de si, acumulada em lembranças, escolhas, mulheres, amigos que morreram, lugares que mudaram e coisas que já não podem ser refeitas. Ela, ao contrário, é quase toda futuro.

O que para ele é memória, para ela ainda é possibilidade.

Ele olha para alguém que está no começo daquilo que ele já terminou. Diante de uma existência que mal começou, encontra o espelho invertido da própria vida. Ela ainda não sabe quais escolhas fará, quais caminhos tomará, quem conhecerá, quem perderá, quais arrependimentos carregará. Seu passado é mínimo; o futuro, imenso.

Há, nisso, uma ironia temporal que atravessa o romance. O homem que dispõe de mais passado que futuro encontra justamente alguém cuja proporção é inversa. É como se duas margens do tempo se aproximassem por um instante: de um lado, quem já viveu quase tudo; de outro, quem ainda pode viver quase tudo.

E é justamente essa distância que parece aproximá-los.

Não se trata, para ele, de repetir o que fizera durante toda a vida. Dessa vez, não há relação física com a menina. Ele a observa enquanto dorme. E é nesse gesto, aparentemente imóvel, que passa a residir uma nova fonte de prazer. Já não está diante de um corpo que deseja possuir, mas de uma existência que contempla e sobre a qual começa a pensar.

Observa-a dormir e imagina.

Imagina o que ela é, o que poderia vir a ser, o que poderiam ter vivido, o que ele próprio poderia ter vivido. A realidade oferece apenas aquele instante, silencioso e imóvel; a imaginação, contudo, abre diante dele uma sucessão de possibilidades. Não precisa acontecer. Basta que possa ser imaginado.

É uma mudança radical em relação às mulheres que conhecera anteriormente. Antes, o prazer estava no encontro, no corpo, na satisfação imediata e passageira. Agora, o prazer se prolonga justamente na ausência do ato. Está na espera, na contemplação, na construção mental de situações que nunca chegaram a existir ou que talvez jamais existam.

O homem que passara a vida consumindo instantes começa, então, a descobrir o valor daquilo que não pode consumir: a possibilidade. 

É uma mudança sutil, mas decisiva. 

O homem que até então vivia sobretudo das memórias começa, pela primeira vez, a produzir expectativas. Já não se trata apenas de recordar aquilo que foi. Há agora algo que ainda pode acontecer, ainda que aconteça apenas dentro dele.

E é aí que se encontra o estranho renascimento do personagem. Não porque tenha recuperado a juventude, nem porque o corpo tenha deixado de obedecer às limitações impostas pela idade. Nada disso desaparece. Ao contrário: a velhice permanece, e com ela permanece a consciência de que a morte está próxima. O que muda é outra coisa: a maneira como ele olha para o tempo.

A menina se transforma em uma espécie de chama que se acende quando ele já não produz fogo. Uma chama que não depende propriamente do corpo, mas da expectativa. Sua presença basta para incendiar a imaginação de um homem que julgava ter vivido tudo o que havia para viver.

E, de repente, aquele que dizia dispor de mais passado que futuro passa a ter alguma coisa pela qual esperar.

Essa é a maior transformação provocada pela menina: ela não lhe devolve o tempo perdido. Não apaga as escolhas que fez, não lhe restitui os anos que passaram, não corrige a ausência de filhos ou de uma vida conjugal. Tampouco transforma o passado em outra coisa. O passado permanece onde sempre esteve.

Mas surge um futuro.

Uma descoberta que chega quase sem anúncio. Depois de uma vida inteira conhecendo mulheres, depois de tantos corpos, tantos cheiros, tantos sabores e tantos encontros pagos, o que esse homem pode estar prestes a conhecer, justamente no fim da vida?

A palavra parece grande demais para ele. Talvez por isso mesmo não apareça de imediato como certeza. O que existe primeiro é a mudança do desejo. Depois, a espera. Depois, a imaginação. Depois, o cuidado com uma presença que nem sequer lhe pertence. O sentimento vai adquirindo forma enquanto ele permanece diante daquela menina adormecida, vivendo mais naquilo que imagina do que naquilo que efetivamente acontece.

O homem que passou noventa anos acreditando conhecer as mulheres pode estar descobrindo, aos noventa, o inevitável.

A partir daí, o narrador começa a experimentar um sentimentalismo que não se confunde inteiramente com aquilo que conhecera até então. O desejo, antes imediato, começa a adquirir duração. A menina deixa de ser apenas objeto de consumo e passa a existir também como presença imaginada, como expectativa, como possibilidade de uma vida que nunca tivera.

Ele imagina situações banais, próximas, quase domésticas. Uma das maiores ironias do romance: depois de uma vida inteira frequentando mulheres, o que começa a desejar não é simplesmente mais uma noite, mas a continuidade dela. Não apenas o instante, mas seu sucessor.

O que se abre diante do narrador é a possibilidade.

A imaginação, portanto, deixa de ser apenas instrumento da memória. Passa a ser instrumento do futuro.

A sina do escritor: quando a realidade não basta, imaginar. Quando o tempo se estreita, criar. Quando a vida parece já ter sido escrita, acrescentar.

O velho narrador não deixa de ser quem foi. Seu passado continua dentro dele, com suas escolhas, seus prazeres, suas omissões e suas possíveis culpas. A chegada da menina não o purifica, tampouco o transforma magicamente em outro homem. Em determinado momento, diante do medo de perder aquilo que acabara de descobrir, o passado parece retornar com violência. O homem que julgava ter deixado para trás reaparece.

Ninguém escapa inteiramente daquilo que foi.

O amor, se é que assim podemos chamá-lo, dá possibilidade, mas não apaga o passado. 

Aqui a questão do tempo começa a adquirir outra dimensão.

Noventa anos podem parecer uma eternidade. Quase um século inteiro. Mas a duração da vida não parece ser determinada apenas pela quantidade de anos transcorridos. Há o tempo do calendário, aquele que se conta em dias, meses e aniversários. E há outro, mais íntimo, que parece obedecer a uma medida diferente: o tempo que ainda somos capazes de experimentar como possibilidade.

Um minuto pode ser interminável. Noventa anos podem parecer um sopro.

Depende...

O narrador sabe que morrerá. Não há ingenuidade nisso. A morte continua sendo o horizonte inevitável. O que muda é que, pela primeira vez em muito tempo: ela deixa de ocupar sozinha o horizonte. Há alguma coisa entre ele e o fim.

Uma espera.

Uma lembrança que ainda não aconteceu.

Uma possibilidade.

O romance não precisa responder se aquele homem, afinal, foi feliz. A pergunta parece pequena diante de outra, muito maior: enquanto há vida, quanto futuro ainda pode existir?

O amor não derrota a morte. A imaginação também não. A escrita tampouco. O contrário, talvez sim.

Esse, julgo (quem sou eu pra julgar), é o sentido mais profundo das memórias desse velho cronista: não são apenas memórias de uma vida que termina. São memórias de um homem que, quando já acreditava possuir mais passado que futuro, descobre que ainda pode construir alguma coisa.

Não necessariamente uma nova vida.

Talvez apenas um novo olhar para a que lhe resta.

Porque a vida pode ser longa, curta, cheia ou vazia. Durar noventa anos ou apenas alguns instantes. O relógio mede o tempo que passa; nós experimentamos o tempo que ainda nos é possível viver.

E talvez seja essa a única resposta que o romance nos permite dar à pergunta que o atravessa desde o início:

À iminência do fim, é possível (re)começar? 

Foto: Divulgação

Thiago Torres Canossa é servidor público estadual graduado em Letras pela Mackenzie, em São Paulo, e em Direito

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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