Opinião

O domingo que nos devem

"Para alguns, ao que parece, a civilização corre sério perigo sempre que um trabalhador encontra tempo para viver"

William Dias Cardoso
01/11/26 às 11h44

O homem trabalha seis dias por semana e, no sétimo, descansa. Ou tenta. Há roupas por lavar, contas por pagar e uma vida inteira que parece ter sido adiada para o domingo. O descanso, afinal, também exige trabalho. E, se sobrar algum tempo depois de resolver a vida, talvez consiga vivê-la.

É admirável a capacidade humana de estragar as coisas boas.

Foi nesse mundo, tão cheio de gente ocupada e tão pobre de tempo, que o fim da escala 6x1 deixou de ser apenas uma reivindicação e ganhou lugar na Constituição. A conquista promete ao trabalhador dois dias de descanso semanal, ainda que sua concretização não seja imediata. Mas a questão ultrapassa a jornada de trabalho: trata-se de perguntar quanto de uma vida pode ser entregue ao trabalho. Para alguns, ao que parece, a civilização corre sério perigo sempre que um trabalhador encontra tempo para viver.

E aqui me ocorre Macabéa.

A personagem de Clarice Lispector, em A hora da estrela, era datilógrafa, nordestina, pobre e quase invisível. Trabalhava, comia o que podia, ouvia a Rádio Relógio e atravessava os dias sem grandes acontecimentos. Existia sem fazer muito barulho, como se até para sofrer precisasse pedir licença. Não era propriamente feliz, mas tampouco parecia dispor de instrumentos para investigar a própria infelicidade.

Há misérias que fazem barulho. Outras batem o ponto.

Macabéa pertence à segunda categoria. Sua tragédia não estava apenas na pobreza, mas na estreiteza de uma existência em que quase tudo já vinha decidido pelas circunstâncias. Faltava-lhe dinheiro, certamente. Mas faltava-lhe também a oportunidade de descobrir o que poderia desejar se a vida lhe oferecesse alguma alternativa.

Fico imaginando o que aconteceria se Macabéa tivesse dois dias de descanso por semana. Talvez dormisse até mais tarde, o que já seria uma pequena desobediência ao mundo. Ou talvez começasse a perceber que a vida poderia ser diferente daquela que conhecia.

Há pessoas que atravessam a existência sem jamais descobrir tudo aquilo que poderiam ter sido. Não por falta de imaginação ou de vontade, mas porque a sobrevivência lhes consome até a possibilidade de desejar.

Chico Buarque, em Cotidiano, fez da repetição uma espécie de prisão doméstica. Os gestos retornam, os dias se parecem e a vida se acomoda numa sucessão de obrigações. Sabemos o que faremos amanhã, depois de amanhã e na semana seguinte. O que não sabemos é quando teremos tempo para fazer alguma coisa que não estava prevista.

O relógio, afinal, não precisa de grades para aprisionar ninguém.

Passamos anos ouvindo que o trabalho dignifica o homem. É uma frase bonita, dessas que ficam excelentes em discursos de formatura e péssimas quando pronunciadas diante de alguém que está de pé há dez horas e ainda tem duas conduções pela frente. O trabalho pode dignificar, claro. O que não dignifica ninguém é ser tratado como se tivesse nascido apenas para trabalhar.

Mas sempre aparece alguém para explicar que, no seu tempo, trabalhava-se muito mais. É uma curiosidade da espécie: quem sofreu determinada injustiça frequentemente desenvolve um apego sentimental a ela, como se o sofrimento passado lhe conferisse o direito de distribuí-lo às gerações seguintes.

Não é exatamente uma filosofia. É uma vingança hereditária.

Naturalmente, nenhuma mudança na jornada resolve, por encanto, as dificuldades econômicas. Mas é possível reconhecer os desafios sem transformar o esgotamento numa virtude nacional. Se uma sociedade só funciona quando seus integrantes estão permanentemente cansados, talvez o problema não esteja nos que precisam descansar.

O domingo, nesse sentido, é uma instituição subversiva. Há qualquer coisa de suspeita num dia em que não precisamos justificar nossa existência com resultados. Uma mulher abre um romance esquecido na cabeceira. Um homem contempla a chuva pela janela. Alguém almoça demoradamente com a família. Nenhum deles produz coisa alguma que possa ser apresentada numa reunião de metas.

E, no entanto, vivem.

A cultura também precisa de tempo. Ninguém se apaixona por Machado de Assis por determinação do departamento de recursos humanos. Há livros que nos esperam durante anos, músicas que não ouvimos e teatros aos quais nunca vamos. Não apenas por falta de dinheiro, mas porque, ao fim do dia, já não nos resta disposição para o mundo.

Rita Lee também celebrou a delícia de não fazer nada. Uma ideia quase escandalosa numa época em que até o descanso precisa ser produtivo. Há quem desconfie de uma pessoa deitada numa rede às três da tarde, como se estivesse cometendo alguma irregularidade administrativa. Talvez esteja mesmo: recusando-se a transformar cada minuto da própria existência em dinheiro.

Macabéa continua por aí. Talvez esteja atrás de um balcão, numa cozinha, num caixa de supermercado ou num ônibus lotado. Talvez seja aquela mulher que chega em casa tarde demais para conversar com os filhos, ou que adormece antes de terminar o jantar. Como a personagem de Clarice Lispector, atravessa os dias sem que o mundo se preocupe muito com aquilo que deseja. E talvez nem ela própria tenha tido tempo de descobrir.

Fico pensando no que Macabéa faria com um dia a mais. Talvez entrasse numa livraria, descobrisse uma canção ou simplesmente dormisse até mais tarde. Talvez nada de extraordinário. Afinal, não é preciso realizar grandes feitos para justificar a própria existência.

E já seria alguma coisa.

Porque a questão não é ensinar Macabéa a aproveitar melhor seus dias de folga, mas dar-lhe tempo para descobrir o que fazer com a própria vida. Tempo para conhecer o mundo, cultivar algum desejo ou simplesmente contemplar a tarde sem a obrigação de ser útil.

Um dia simplesmente seu.

Clarice não concedeu a Macabéa muitas oportunidades. A vida, menos ainda. Talvez por isso seja tão difícil esquecê-la: há alguma coisa de profundamente injusta numa existência que termina antes mesmo que sua protagonista descubra tudo aquilo que poderia ter sido.

Que Macabéa tenha, além do domingo, mais um dia. E que ninguém lhe pergunte, na segunda-feira, o que fez de tão útil com ele.

Foto: Divulgação

William Dias Cardoso é membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras e tenta transitar entre o Direito, a literatura e as inquietações do cotidiano

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

Gostaria de ter artigos publicados no Hojemais Araçatuba ? Entre em contato pelo e-mail: redacao@ata.hojemais.com.br 

 RECOMENDADO PARA VOCÊ
 EM DESTAQUE AGORA
VEJA TODOS OS DESTAQUES
 ÚLTIMAS EM OPINIÃO
Franquia:
Araçatuba SP
Franqueado:
Connect Jornalismo Digital LTDA
48.486.487/0001-90
Editor responsável:
Lazaro Silva Júnior MTB 48158
lazaro.junior@ata.hojemais.com.br
Todos os direitos reservados © 1999 - 2026 - Grupo Agitta de Comunicação.