Conheci o Moreira num desses desentendimentos de balcão — atrito miúdo, corriqueiro, entre o servidor de turno e o advogado do dia. Eu era o primeiro. Deixei que falasse. É hábito antigo meu, sabe? Não entro em pelejas desnecessárias e, se o cidadão faz questão do palco, o direito é todo dele. Mas, veja bem, antes mesmo de encostar o corpo na mesa, já era possível ouvi-lo anunciar a si próprio, ainda no corredor: “Sou jurista”.
Achei graça. O sujeito queria ser autêntico, suponho. Toda profissão exige lá sua causa de destaque — vá lá, é legítimo. Agora... jurista de verdade, confessando aqui entre nós, eu nem sei o que é. Advogado, servidores, contudo, conheço aos montes. No Brasil Imperial chamavam-se bacharéis, doutores de anel e sobrecasaca; hoje, são operários do direito, trabalhadores como qualquer um de nós. Só que alguns deles — e faço justiça aos demais — ainda não receberam a notícia.
O Moreira era desses. Tinha a firme convicção de pertencer a uma casta superior de pensadores, mas a verdade é que não era jurista na raiz da coisa. Era um prático. Um assentador de tijolos da norma.
A formação jurídica atual tem essa singularidade: ensina o sujeito a manejar o artigo e o inciso com a precisão cega de um mecânico de beira de estrada. O sujeito aprende a trocar a peça, ajusta o parafuso, conhece a razão pura do código, mas passa ao largo da causa de tudo isso. E a causa... a causa é a gente. É a civilização, a história, o atrito cego do convívio. Faltava ao Moreira o humanismo. Não a bondade simples — pois era homem justo, honesto e de boas intenções —, mas o humanismo do repertório, do bom senso, das letras ou do sofrimento. Faltava-lhe saber quem projetou a estrada onde ele rodava. Por isso, ostentava um ego inchado pelo manejo da lei e, no peito... um eco imenso. Exercia um trabalho estritamente manual com as palavras, embora jurasse fazer filosofia.
Quando lhe chegava a vez de se manifestar, fazia uma pausa. Cuspia no chão. Um cuspe amarelo, grosso, quase industrial. Em seguida, soltava o verbo: descarregava leis, parágrafos e decisões como quem descarrega saibro de uma caçamba. Ensaiava uns tons de eloquência, mas desafinava no conceito; não sabia explicar o porquê de absolutamente nada. Ao menor sinal de dúvida no ar, lá vinha outro impulso, e cuspia novamente: jurisprudências molhadas. Fez questão de me instruir, com o queixo erguido e a voz grave, de que jurisprudência vem de prudência — a virtude suprema dos doutos. Assenti com a cabeça. O que mais me restava fazer?
Dias depois, caminhando nesses acasos da vida, apresentei o Moreira ao Elias. Não como cliente, claro. O Moreira tinha a técnica toda, mas carregava aquele vazio estéril do especialista — um vazio que não se preenche com compêndios. E o Elias... bem, o Elias talvez desse conta.
Elias era filho de caboclos. Homem sem estudo de escola, com as mãos calejadas da lida bruta do campo — um trabalhador manual de fato, veja a ironia, mas completamente imune à infecção da vaidade. O saber dele não vinha dos livros; vinha dos erros, do desamparo, da dor doída da vida. Elias trazia o humanismo experimentado na pele, sem precisar citar uma linha em latim. O vazio dele era de outra ordem: um vazio calejado, daqueles que completam a gente em vez de isolar.
O encontro deu certo. Ficaram amigos, surpreendentemente.
Na convivência pausada com o Elias, o Moreira, aos poucos — bem aos poucos —, foi largando a mania de cuspir no chão e a afetação de doutor. Aprendeu um bocado sobre as mazelas da civilização real, essa que não cabe nos relatórios nem nos acórdãos dos tribunais. Compreendeu, no fim das contas, a diferença entre segurar uma ferramenta e entender a matéria viva. Descobriu que certos vazios a vida preenche com algum desgosto e uma boa dose de sabedoria; outros... ah, outros, quando deixados à mercê do próprio ego, só servem mesmo para produzir inimigos ou corroer o sujeito por dentro.
