Opinião

Ansiedade e estresse: o que o Google revela

"Em cinco anos, as buscas por ansiedade mais que dobraram, com alta de 130%"

Jean Oliveira
23/10/26 às 09h08

Se você já digitou, de madrugada, com a casa em silêncio e o rosto iluminado pela tela, a pergunta "por que eu me sinto assim?", saiba de uma coisa antes de seguir lendo: você não está sozinho. Esta coluna foi escrita com você em mente.

Não há plateia nessa hora, nem julgamento, nem o constrangimento de ser visto em dúvida. Há apenas o campo de busca, paciente como poucos ouvintes. E há muita gente, do outro lado de tantas telas, fazendo a mesma pergunta.

Os números ajudam a dimensionar essa conversa silenciosa. Levantamento da Sala Digital, parceria da Band com o Google, mostrou que a ansiedade é a terceira condição de saúde mais procurada no buscador. Em cinco anos, as buscas por ansiedade mais que dobraram, com alta de 130%.

Ansiedade

Freud, em “Inibições, sintomas e angústia”, de 1926, descreveu a angústia como um sinal: o aparelho psíquico avisa que um perigo se aproxima, ainda que ele não tenha nome nem endereço. É a dor que vive no futuro, no que pode dar errado, na mensagem que não chegou, na conta que vai vencer. Se é isso que você sente, não há fraqueza nenhuma aí. Há uma mente tentando proteger você.

A depressão, em grande medida, olha para trás. Em “Luto e melancolia”, de 1917, Freud mostrou como a sombra do objeto perdido pode recair sobre o próprio eu, empobrecendo-o. Quem sofre disso não teme o que virá. Já perdeu algo, e muitas vezes nem sabe dizer o quê. Se esse é o seu caso, saiba que o desânimo não é preguiça nem falta de vontade. É o peso de uma perda que ainda não encontrou palavras.

Que a ansiedade apareça tão à frente da depressão nas buscas talvez indique uma sociedade que vive em estado de alerta permanente, sem tempo de elaborar o que perde pelo caminho.

Estresse

O dado mais recente reforça a leitura. Em 2025, o interesse dos brasileiros por formas de reduzir o estresse atingiu o patamar mais alto em 15 anos, 64% acima de 2019, segundo o Google Trends. As perguntas mais frequentes são do tipo "o que causa estresse?", "como melhorar o estresse?" e "o que é bom para estresse?".

Repare no que essas frases revelam. Quem pergunta "o que causa" admite não saber de onde vem o próprio desconforto, e não há vergonha alguma nisso. Quem pergunta "o que é bom" está cansado e quer, antes de tudo, alívio. Ambos merecem ser acolhidos.

O psicanalista Christopher Bollas deu nome a um fenômeno que ajuda a entender essa busca: o conhecido não pensado, aquilo que o sujeito sabe em algum lugar de si, mas ainda não conseguiu transformar em pensamento. O estresse, tantas vezes, é o corpo falando por aquilo que a mente não teve condições de dizer.

Donald Winnicott, por seu lado, alertava para o falso self, a adaptação excessiva às exigências do ambiente, paga com o sacrifício do gesto espontâneo. Pergunte a si mesmo, com delicadeza e sem cobrança, quantas vezes nesta semana você respondeu ao que esperavam de você e não ao que sentia.

Acolhimento

Há algo de profundamente saudável nessa procura. Quem busca está tentando nomear, e nomear é o primeiro movimento de qualquer cuidado. Perguntar já foi um ato de coragem.

Mas o buscador oferece informação, e informação não é escuta. Uma lista de sintomas descreve muita gente ao mesmo tempo, mas não reconhece ninguém em particular. O seu sofrimento tem história, tem nomes, tem perdas que só fazem sentido para quem as viveu. Por isso merece ser ouvido por alguém, e não apenas encontrado em uma página.

Se o Google se tornou o primeiro divã, que seja uma porta de entrada, e não a sala onde se fica. O passo seguinte é contar  com um psicólogo. Pedir ajuda não é sinal de fragilidade. É a forma mais corajosa de cuidar de si.

Você já fez o mais difícil: perguntou. Agora permita que alguém responda ao seu lado, e descubra que a pergunta feita de madrugada pode, enfim, ganhar uma resposta que seja sua. Você é mais forte do que imagina, e não precisa atravessar isso sozinho.

Foto: Divulgação

Jean Oliveira é psicólogo e jornalista

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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