Há uma vantagem considerável em julgar os outros: não precisamos apresentar nossas próprias credenciais de inocência.
Quando erramos, examinamos as circunstâncias. Quando os outros erram, examinamos o caráter. Somos indulgentes com nossas contradições e severos com as alheias. A consciência humana, quando dispõe de boa retórica, torna-se uma advogada de defesa bastante competente.
Machado de Assis conhecia bem essa pequena comédia. Seus personagens raramente precisam de grandes vilanias para revelar a própria miséria; basta-lhes a habilidade de justificar a si mesmos. Brás Cubas, afinal, tem a elegância de quem consegue morrer sem abrir mão da última palavra.
Talvez por isso nos incomodem tanto aqueles cuja miséria não pode ser escondida sob boas maneiras, diplomas ou sobrenomes. O homem que dorme na rua, a pessoa que sucumbe à dependência, aquele que acumula fracassos visíveis: todos parecem dispensar o benefício da dúvida. Em poucas palavras, encerramos uma existência. Viciado. Vagabundo. Criminoso. A biografia, por decreto, está concluída.
Na Casa da Sopa Emília Santos, cruzamos diariamente com alguns Jean Valjean. Como o personagem de Victor Hugo, são homens e mulheres sobre os quais a sociedade parece ter pronunciado uma sentença perpétua. Erram, decepcionam, reincidem e, às vezes, ferem até mesmo quem tenta ajudar. Mas sua existência não cabe inteira no inventário de seus erros.
Em Crime e Castigo, Dostoiévski nos apresenta Raskólnikov, que tenta transformar o próprio crime em teoria, como se uma explicação engenhosa pudesse dominar as consequências de um ato. A consciência, porém, não se deixa reduzir a fórmulas. O homem pode cometer o imperdoável e continuar sendo mais do que aquilo que fez.
Compreender não é absolver. Acolher não é abandonar os limites. A questão é outra: em que momento a reprovação de uma conduta se transforma na convicção de que seu autor já não merece recomeçar?
Recentemente, um dos frequentadores da Casa da Sopa foi morto de maneira brutal. A notícia passou pelos jornais, atravessou a cidade e logo cedeu lugar ao próximo acontecimento. Há mortes que comovem uma sociedade; outras mal conseguem interromper seu expediente.
Em Construção, Chico Buarque expõe a assustadora capacidade da cidade de absorver a morte de um homem e continuar funcionando. Há vidas cuja invisibilidade precede a tragédia e sobrevive a ela. Para certas pessoas, até a morte parece precisar disputar espaço com a indiferença.
Não menciono esse homem para convertê-lo em símbolo, nem para inventar uma conclusão para sua história. Menciono-o porque frequentava o mesmo lugar em que tantas vidas, com suas contradições e feridas, ainda procuram acolhimento. Uma sociedade talvez revele mais de si nas mortes que mal percebe do que nos discursos que pronuncia em nome da dignidade humana.
Há misérias que dormem nas calçadas. Outras frequentam ambientes respeitáveis, cultivam boas reputações e jamais precisam explicar a própria crueldade. A diferença nem sempre está na natureza dos homens, mas na qualidade das máscaras que conseguem sustentar.
Dedico estas linhas aos que foram injustiçados pela humanidade e a todos os que atravessam a miséria humana. Não porque sejam santos, nem porque suas escolhas devam permanecer imunes ao julgamento, mas porque ninguém deveria precisar ser exemplar para ser reconhecido como humano.
Victor Hugo deu a Jean Valjean uma vida inteira para demonstrar que um homem não se encerra na sentença que recebeu. Talvez a literatura insista numa pergunta que preferimos evitar: não apenas o que alguém fez, mas o que fazemos com alguém depois de julgá-lo.
Afinal, há pessoas que precisam de ajuda. Há pessoas que precisam responder pelo que fizeram. Muitas precisam das duas coisas. A dignidade humana, porém, não é um prêmio reservado aos que consideramos merecedores.
No Livro do Desassossego, Bernardo Soares contempla as hierarquias humanas com ironia desolada: entre os poderosos e os que apenas atravessam a vida, as diferenças talvez sejam mais de quantidade do que de qualidade. Uns governam; outros, os amorfos, continuam pagando a conta.
Talvez essa seja a nossa pequena e triste igualdade: ninguém está inteiramente a salvo da queda. E ninguém deveria precisar cair para que reconhecêssemos sua humanidade.
Ao fim e ao cabo, a maior miséria não é a de quem caiu, mas a de quem, de pé, precisa acreditar que nunca esteve sujeito à queda.
