Tinha quase sessenta anos e aprendera a obedecer.
Não por virtude própria. Os erros lhe haviam ensinado que toda rebeldia cobrava alguma coisa, às vezes aquilo que não se podia recuperar. Com o tempo, passou a desconfiar dos próprios impulsos. A vida, compreendeu, era perigosa para quem saía da linha.
Pensava quase sempre no que havia sido e no que ainda seria. O presente era um purgatório constante e demorado, que aceitava.
Naquela manhã, abriu os olhos sem saber onde estava.
À vista dos indícios, uma casa de carnes, ou algo próximo.
Ficou imóvel por instantes. Os olhos abertos, como quem acordava. A impressão de quem não sabia se sonhava. Perguntou-se se estava vivo.
Beliscou-se.
Com a ponta dos dedos, agarrou a pele fina do saco escrotal sob o tecido grosso das calças.
As unhas, compridas, arranharam-na.
Gritou.
Algumas pessoas olharam.
A dor era um indício claro de que acordava à realidade.
Domingo.
O calor da manhã já avançada fazia arder as folhas secas, carregadas por insetos junto às calçadas. Não havia carros nem vozes altas. O compasso do canto dos pássaros se harmonizava às notas discretas, ao longe, do que aparentava ser um saxofone que soprava.
Na calçada ao lado do estabelecimento, um maltrapilho deitado dormia sob os raios de um sol escaldante, sem indício de qualquer perigo ou lucidez suspeita que incomodasse.
Lá dentro, a mulher trabalhava.
Aos movimentos firmes de uma faca terrivelmente afiada, cortava. O prazer nos olhos era de quem gostava de observar o movimento dos músculos mortos da carne, cujas linhas interrompia quando separadas. Observava o fenômeno na lâmina brilhante e afiada. Com intimidade próxima da disciplina, trabalhava.
No fundo, sentia pena dos animais. Bem no fundo.
Lembrava-se do pai:
“— O homem, apesar de toda moral, é carnívoro. E, por isso, mata”.
Nunca esquecera. Tampouco outra frase:
“— A carne serve ao homem, e não o contrário. E, pra isso, a faca”.
Durante anos, pensara naquilo.
Mas não chegara a uma conclusão.
Passou as mãos pardas e nuas pelo avental, enxugando pequenas manchas de sangue.
Abriu a torneira sobre a pia e lavou-se.
Olhou-se no espelho.
A campainha soou. Um som agudo e prolongado. A mulher ergueu os olhos.
Retocou o batom vermelho.
Do outro lado da portinhola viu o homem, pela fresta que separava as duas portas.
Foi em sua direção.
O vento, vindo da rua, tocou-lhe os fios lisos e negros do cabelo intacto, que se afastaram do rosto por míseros milésimos de segundo, antes de voltarem ao lugar.
Sorriu.
— Posso ajudá-lo?
O homem tentou responder.
A voz falhou. Limpou a garganta.
— Me desculpe.
Esperou.
Dois segundos até que o silêncio foi quebrado.
— Dez asinhas.
Um por favor passou pela cabeça. Mas só passou. Era tarde.
A mulher olhou para ele.
— Por que não aproveita? Acabo de cortar uma picanha. Não quer ver?
Ele poderia ter recusado.
— Não sei. Pode ser.
A mulher abriu a portinhola que levava à sala refrigerada. Entrou. E, na dúvida, ele a acompanhou.
No ambiente contíguo, ficou observando as facas dispostas na parede. Eram muitas.
Pequenas, grandes e médias. De nuances diversas, todas brilhavam quando a luz amarelada piscava.
Uma daquelas. Uma, em particular, sem aparente motivo, lhe chamou a atenção.
Aproximou-se dela.
A mulher lhe pediu que aguardasse, enquanto abria uma outra porta, que não fechou por completo.
Podia vê-la refletida em um dos gumes da lâmina maior.
Ela retirava o avental. O corpo alinhado começava a despir-se.
Os olhos do homem se arregalaram. O reflexo, porém, não lhe permitia ver a imagem completa.
Talvez tivesse visto mais. Talvez quisesse.
Talvez tivesse imaginado.
O reflexo desapareceu.
Permaneceu olhando para a lâmina, desconfiando da própria realidade. Se é que aquilo era real.
Peças de carne fresca estavam dispostas em uma bancada, sob as facas suspensas com as pontas voltadas para baixo, sobre uma tábua plástica com vestígios de cortes incisos, recheada de gotas secas rubras.
Forçou um raciocínio mais profundo que o habitual: restos de um animal vencido, morto prematuramente pelos fins que não os seus.
Se fosse uma novilha? Estaria prenhe, com os úberes fartos de leite branco antes do abate, esperando pelos bezerros que não alimentaria.
Uma função materna de ciclo interrompido.
E os garrotes?
Voltou os mesmos olhos para a mesma lâmina. Aquela imagem funcionava como sinal de rádio ou televisão. Sumia. Voltava. Agora, era como se mudasse o canal ou a frequência.
A pele parda dos seios nus intactos, típicos das mulheres castas diante dos homens e dos filhos. Os bicos redondos, pontiagudos, intimamente suados, se adornavam com pequenas glândulas grossas e bem distribuídas.
Lembrava-se dos garrotes quando a mulher retornou à sala.
Afastou-se, sorrindo com a face de quem aguarda.
Por sorte, só havia imaginado.
Havia quanto tempo não ficava sozinho com uma mulher? Sozinho de verdade? Sem a sombra de uma testemunha? A memória se esforçava. Lembrança distante, quase esquecida.
A liberdade era gratuita, mas tinha lá suas consequências, como todas as coisas de resultado fácil.
Os animais também eram livres.
Em partes.
Pastavam, dormiam, caminhavam.
Até que o destino fosse decidido. Quem decide?
Então eram mortos, cortados e dispostos nas vitrines aos famintos desconhecidos.
O homem olhou para as peças de carne.
A mulher percebeu.
— O que acha desse corte?
Apontou para uma das peças.
— São belíssimos — respondeu.
Parou.
— Apetitosamente vívidos, como os seus carnudos peitos.
Quando percebeu, já havia falado.
Que arrogância.
O pensamento saíra alto.
A mulher voltou à sala de onde viera. A porta parcialmente fechada. Agora, porém, um pouco mais aberta.
O homem tremeu.
Pensou em pedir desculpas. Não conseguiu.
Olhou novamente para a lâmina, procurando o reflexo antes visto.
Não encontrou a mulher.
Encontrou a imagem de um espelho manchado.
Aqueles seios fartos.
Lembrou-se do garrote.
A boca, desobediente, salivava sem perder o toque de arrependimento.
Devia-lhe um pedido de desculpas.
Pelada.
Como a Vênus recém-nascida, a mulher voltou.
O vermelho do batom, retocado em linhas impecáveis:
— Quer provar?
Lá fora, tudo calmo.
Pela fresta da portinhola, via-se a rua. A campainha permanecia intacta.
Enquanto isso, o vento soprado pelo ventilador surrado do balcão conduzia para fora o ar terrivelmente quente, com lufadas que agitavam os cartazes pregados nas paredes. Um deles quase se destacava:
“Domingo: carne fresca, a preço de atacado”.
À revelia de qualquer resposta, a mulher se aproximou.
Com as próprias mãos, ela acariciou a carne, deixando que o sangue as banhasse com as gotas frescas, que espalhou nos bicos dos seios duros, apontados para ele.
Com as feições de um monge:
— E agora? Vai provar?
Ou não tinha medo. Ou nada a provar. Ou ambos.
Tomou as mãos do homem e colocou-as sobre os seios. Aos poucos, elas manchavam-se de vermelho.
Vieram-lhe lapsos de cenas ininterruptas.
O passado de um homem insistindo em perdurar.
Apalpou-os.
O sangue permitia deslizar os dedos pelas camadas finas da pele da mulher. Aprazia-se aos demorados toques, enquanto ela o observava no fundo dos olhos pretos cansados, que ganhavam brilho naqueles míseros instantes eternos.
As mãos da mulher se deslocaram para agarrar a nuca daquele sujeito, num ato mais materno que lascivo. Ao mesmo tempo, a bocarra se abria com a pressa da fome.
Não tentou se desvencilhar. Lambuzou-se como infante com o sorvete sonhado nas mãos.
As desculpas não eram necessárias.
Sugou. Chupou. Lambeu.
O fluido gengival misturava-se à seiva branca dos seios tingidos de sangue frio. Os olhos se fecharam como quem não queria ver, mas queria provar.
Tentou pensar nas desculpas que jamais pedira.
Sentiu beliscar as calças.
Não eram suas mãos. Eram as dela.
O zíper da calça se abria.
E lambia. Agora com mais força, com a saudade de um garrote arrependido. Estava vivo.
Sabia. E aquele instante, por si só, o compensava.
Compensava toda a infância.
Um garrote de olhos fechados, alimentando o que sonhara.
Entregou-se ao tempo ignorado.
Um instante.
Uma tarde.
Uma infância.
Talvez todos.
As imagens sem ordem.
A mãe.
A rua.
A mulher.
A carne.
O leite.
O sangue.
O que aconteceu primeiro? Talvez nada.
As pesadas pálpebras cederam. Não por sua vontade, mas pela vontade do tempo.
Ouvia as notas discretas de um saxofone distante.
Era domingo.
Em busca desesperada por garantias, piscou os olhos. Viu-se aos trapos, deitado sob o sol quente, nas adjacências de um armazém. A boca amarga. A cabeça explodia, como sempre acontecia, quando um arrependimento o arrebatava.
Piscou novamente antes de olhar ao redor.
À sua esquerda (ou à direita), uma porta de aço descia com a força dos braços de uma mulher.
Na boca, o amargo do ferro. Ácido misturado com destilado. O elixir que se exauriu na noite passada.
A brisa esporádica lhe soprava o rosto suado e balançava o espectro de um papel obstinadamente fixo à parede, com letras vermelhas que se desgarravam:
“Carne fresca, a preço de atacado”.
