Opinião

O dia em que as máquinas fingirão precisar de nós

"Há relatos de pessoas que se envolvem emocionalmente com esses chatsGPTs, imagine só com máquinas de aparência mais amistosa?"

Cassio Betine
01/11/26 às 06h11
Imagem: Google Gemini

Se alguém dissesse, há vinte anos, que no futuro haveria gente recebendo salário para colocar uma coleira em um cão robótico de metal e dar uma volta na calçada, a resposta óbvia seria uma risada acompanhada de um conselho para procurar um médico. Pois bem, o futuro chegou com a pontualidade de sempre e sem pedir licença.

Recentemente, uma startup de robótica nos Estados Unidos abriu vagas remuneradas para pessoas comuns simplesmente caminharem com quadrúpedes mecânicos pelas ruas. Claro que ninguém ali estava preocupado com necessidades fisiológicas da máquina ou com carência afetiva do silício.

O objetivo imediato era pragmático, técnico e sem qualquer glamour: calibrar sensores em calçadas irregulares, testar o desgaste de articulações em asfalto quente e mapear o comportamento da máquina diante do caos urbano real, onde ciclistas cortam caminho e cachorros de verdade latem desconfiados para aquele amontoado de engrenagens.

A grande questão, contudo, não é o motivo técnico do presente, mas a semente que esse experimento planta no nosso imaginário. Quando olhamos para a velocidade com que a inteligência artificial e a robótica humanoide (e também biotecnológica) estão convergindo, é impossível não se perguntar: e se, lá na frente, essas máquinas realmente precisarem de nós para algo além de trocar a bateria? E, pior ou melhor ainda, e se nós começarmos, de certa forma, precisar dessa rotina?

Olha só, hoje a tecnologia já ensaia essa aproximação em várias frentes. Empresas como a Tesla, com o projeto Optimus, a Boston Dynamics, com a nova geração elétrica do Atlas, e a Figure AI, estão correndo contra o relógio para colocar robôs bípedes dentro de ambientes humanos. O discurso oficial fala em substituir tarefas repetitivas, pesadas ou perigosas na indústria. Mas a ambição não para nos galpões de logística. O horizonte seguinte é o ambiente doméstico. 

O Japão, pioneiro nessa convivência forçada pelo envelhecimento populacional, já utiliza robôs de assistência para idosos há anos, desde um simpático robô chamado PARO — uma espécie de foca de pelúcia terapêutica com inteligência interna — até robôs cuidadores que monitoram sinais vitais, auxiliam na locomoção e oferecem diálogos programados para mitigar a solidão.

No universo infantil, robôs como o Miko ou os assistentes educacionais interativos já ocupam o espaço da distração, do aprendizado e, inevitavelmente, da companhia de crianças que crescem conversando com algoritmos com a mesma naturalidade com que gerações anteriores conversavam com brinquedos inanimados.

Minha abordagem aqui é nesse ponto: onde a linha entre a utilidade e o apego começa a se misturar. Há relatos de pessoas que se envolvem emocionalmente com esses chatsGPTs, imagine só com máquinas de aparência mais amistosa?

Se considerarmos que uma máquina não adoece de surpresa, não morde por estresse e não nos abandona após uma década de vida, para uma sociedade cada vez mais solitária, conectada a telas e desconectada de pessoas, o robô doméstico poderia se tornar o ápice da conveniência afetiva – por que não?

Ele não exige a complexidade do afeto real, que é sempre imperfeito e custoso, mas entrega uma simulação convincente o bastante para confortar o cérebro humano, mestre em projetar alma e sentimentos em qualquer coisa que tenha olhos e reaja ao seu toque.

Então, se chegarmos ao ponto em que máquinas demandem atenção humana, para que isso serviria? Talvez a atenção não seja uma exigência técnica do circuito, mas uma necessidade desenhada sob medida para justificar a nossa própria utilidade.

Um robô cuidador que passa o dia zelando por um idoso pode e, em determinado momento, "pedir" para ser levado até a praça para recarregar suas placas solares ou atualizar seus sensores visuais com luz natural, poderia soar como algo perfeitamente normal e cotidiano. 

Na prática, isso pode ser até bom. A máquina estaria apenas executando um protocolo programado para tirar aquele idoso do sedentarismo, obrigando-o a caminhar, tomar sol e interagir com o mundo ao redor. Ela finge precisar do humano para que o humano, sem perceber, continue cuidando de si mesmo.

Talvez, o convívio futuro com essas tecnologias não seria uma batalha apocalíptica ao estilo de ficção científica caótica, mas de repente, uma acomodação sutil, quase silenciosa, de rotinas compartilhadas. Quem sabe…

Foto: Divulgação

Cassio Betine: Pós-graduado em Tecnologias da Aprendizagem, Bacharel em Artes e Desenho Industrial. Coordenador e Mentor de Negócios e Eventos. Autor de livros, artigos e produtor de conteúdos diários sobre Tecnologia, Inovação e Comportamento. É empreendedor em outros negócios e fundador da F7Digitall.com – Tecnologia & Comunicação Engenharia

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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