Opinião

Pare de esperar que a vida mude

"Talvez seja hora de admitir uma coisa incômoda: nem tudo o que nos mantém infelizes está fora do nosso controle"

Jean Oliveira
08/10/26 às 08h22

Há uma ideia confortável e perigosa: a de que só seremos felizes quando algo ou alguém mudar. O chefe, o parceiro, a economia, o passado. Talvez seja hora de admitir uma coisa incômoda: nem tudo o que nos mantém infelizes está fora do nosso controle.

Existem perdas que ninguém escolhe. Há relações que ferem, trabalhos que adoecem, dificuldades financeiras, doenças, injustiças e acontecimentos capazes de mudar uma vida inteira. Reconhecer isso é fundamental, e qualquer abordagem que o ignore é superficial. 

Viktor Frankl, psiquiatra austríaco e sobrevivente dos campos de concentração nazistas, formulou em "Em busca de sentido", uma das ideias mais conhecidas da psicologia do século 20: mesmo quando tudo o mais lhe é tirado, resta ao ser humano algum espaço para decidir como se posicionar diante do que vive.

Não se trata de escolher não sofrer, nem de afirmar que o sofrimento psíquico se dissolve com pensamento positivo ou força de vontade. Frankl escrevia a partir de uma experiência-limite, e é com esse cuidado que a ideia precisa ser lida. Há quadros que exigem tratamento, apoio e tempo, e tratá-los como fracasso pessoal é uma forma de violência.

A questão que ele propõe é outra: o que fazemos com a parte da vida sobre a qual ainda podemos agir?

Na clínica, vejo como essa pergunta incomoda. Muitas vezes a pessoa sabe exatamente o que a machuca. Sabe que determinada relação lhe faz mal, percebe que repete comportamentos que a fazem sofrer, reclama há anos do mesmo trabalho, reconhece que precisa estabelecer limites. E, ainda assim, permanece à espera de que algo aconteça, ou de que alguém mude, para só então começar a viver de outra maneira.

Entender essa espera não é julgá-la. Em geral, ela cumpre uma função psíquica: protege do medo de fracassar, da perda do que é conhecido, do confronto com o que a mudança exigiria. Por isso, às vezes permanecemos presos justamente àquilo que dizemos querer abandonar. O sofrimento familiar, mesmo quando pesa, tem uma previsibilidade que o desconhecido não oferece.

É aqui que precisamos separar culpa de responsabilidade.

A culpa procura um condenado. A responsabilidade procura uma possibilidade de movimento. A primeira paralisa, porque o tempo todo olha para trás. A segunda pergunta o que ainda se pode fazer daqui para a frente.

Isso não equivale a dizer a alguém "sua vida está assim porque você quer". Seria cruel e psicologicamente irresponsável. Significa perguntar: diante daquilo que você não escolheu ou que aconteceu com você, que escolha ainda é possível?

Pode ser uma escolha pequena. Procurar ajuda. Dizer não. Ter uma conversa difícil. Encerrar uma relação. Começar um curso. Mudar um hábito. Admitir que determinada forma de viver já não funciona. Ou simplesmente reconhecer que ainda não se consegue mudar, o que é muito diferente de fingir que o problema não existe. Reconhecer o próprio limite também é um ato de responsabilidade.

A psicoterapia não existe para dizer às pessoas qual decisão tomar, nem para entregar fórmulas de felicidade. Ela oferece um espaço seguro para compreender por que repetimos certas escolhas, por que algumas mudanças assustam tanto e o que, em nós, resiste àquilo que conscientemente desejamos. Muitas vezes, o primeiro movimento não é agir, mas entender.

Frankl nos provoca porque devolve ao indivíduo uma parcela de liberdade. E liberdade tem um preço: a responsabilidade.

Não controlamos tudo, e nunca controlaremos. A vida continuará nos surpreendendo, frustrando planos e impondo perdas. Mas talvez seja confortável demais entregar a ela também aquilo que ainda nos pertence.

Por isso, em vez de perguntar apenas "por que isso aconteceu comigo?", talvez haja outra pergunta a fazer: Agora que aconteceu, o que eu vou fazer com isso?

Se você sente que o sofrimento está intenso ou que não consegue sair dele sozinho, procure um psicólogo ou psiquiatra. Em situações de crise emocional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente, 24 horas por dia, pelo telefone 188.

Foto: Divulgação

Jean Oliveira é psicólogo e jornalista

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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