“Fazemos coisas com a linguagem, produzimos afetos com a linguagem, e fazemos coisas à linguagem, mas a linguagem também é aquilo que fazemos.” Para além de um instrumento de comunicação ou representação, essa formulação de Judith Butler, filósofa pós-estruturalista estadunidense, enseja a compreensão da linguagem como uma ferramenta de ação e reação. Ou seja, quando falamos produzimos efeitos. Nomeamos, reconhecemos, excluímos, acolhemos, ferimos, aproximamos, silenciamos. Em consonância com esse paradigma, ao escutarmos, observarmos ou estarmos expostos a manifestações verbais e não verbais, na sucessão ininterrupta dos acontecimentos, somos afetados pelas linguagens que nos alcançam. Em síntese, não passamos incólumes pela odisseia existencial que é sempre permeada pelas linguagens.
Nessa toada, ao aproximarmos essa ótica butleriana das concepções de Espinosa (1632–1677), filósofo de origem judaico-portuguesa, é possível refletir sobre como as linguagens da contemporaneidade, à revelia da consciência, nos atravessam e nos afetam, ao mesmo tempo que participam da produção de mundos, ora acolhedores, ora opressores, ora potencializadores ou, ainda, cerceadores de nossas possibilidades de existir. Em face dessas considerações, somos constituídos nos encontros permeados pelas linguagens e mobilizados pelas relações que neles se engendram. Simultaneamente, como podemos agir sobre essas linguagens, esse processo nos posiciona como agentes de transformação das condições de nossa própria existência e da criação de modos outros de ser, pensar e sentir.
Nesse terreno, Espinosa entende que os afetos não constituem uma dimensão secundária da existência humana, contraposta à racionalidade, já que correspondem às modificações do nosso corpo pelas quais nossa potência de agir, isto é, o conatus, aumenta ou diminui. Sobreleva ressaltar que somos corpos permanentemente expostos às partilhas com outros corpos, sejam eles pessoas ou objetos. Dessa forma, existir é, nesse sentido, estar em relação na, com e por meio das linguagens de forma perene. Logo, não estamos por completo isolados, tampouco somos autossuficientes ou impermeáveis ao mundo.
À luz do pensamento de Butler, nossas manifestações discursivas produzem efeitos porque integram a própria dinâmica desses elos entre os corpos. Mais do que uma sequência de sons ou signos, uma expressão pode alterar aquele que a recebe. Uma declaração de amor, uma ofensa, uma promessa, uma humilhação, um elogio, uma ameaça ou um gesto de acolhimento, por exemplo, podem modificar nossa disposição para agir. Como consequência, a linguagem, verbal ou não, incide sobre os nossos corpos sem alternativas de reversão.
Esse movimento de afecção é sempre relacional e recíproco. Enquanto afetamos, somos também afetados. Aquilo que dizemos encontra o outro e retorna sob a forma de resposta, silêncio, concordância, recusa ou transformação. As linguagens, por circularem entre os nossos corpos, não pertencem inteiramente a quem fala. Nessa circulação, produzem confluências cujos efeitos, raras vezes, podem ser antecipados por completo.
Em síntese, sob o prisma de Butler, o sujeito não é anterior às normas linguísticas que o constituem, dado o fato de que somos nomeados antes mesmo de conferir uma denominação a nós mesmos. Em Espinosa, de maneira análoga, não encontramos um sujeito soberano e, em absoluto, independente, posto que todo corpo existe em uma imbricada rede de reciprocidade, compondo-se e decompondo-se continuamente na intersecção com outros corpos. Em ambos, ainda que por caminhos filosóficos bastante diferentes, torna-se difícil sustentar a imagem moderna de um sujeito fechado sobre si mesmo, até porque a atualidade hiperconectada, de algum modo, intensifica as convivências – ainda que em ambientes virtuais -, multiplica as práticas de linguagem e amplia as redes de relações e vivências emocionais pelas quais existimos e nos transformamos.
Somos relacionais porque somos afetáveis. E somos linguisticamente recíprocos porque os dizeres alheios participam do que podemos nos tornar. Essa condição tem uma intensidade particular nas linguagens da hodiernidade. Nunca estivemos tão expostos a tamanha quantidade de signos, imagens, termos e vozes. Redes sociais, aplicativos de mensagens, memes, vídeos, emojis, hashtags, podcasts, plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial produzem um fluxo quase imperecível de interlocuções semióticas. Mesmo quando estamos fisicamente sozinhos, continuamos sendo afetados por corpos, cujas presenças nos alcançam por meio de imagens, textos, sons e rastros digitais.
De uma maneira ou de outra, esse percurso atinge o nosso conatus, como diria Espinosa, ampliando ou restringindo nossa potência de agir, em experiências de contentamento e entusiasmo, ou, do lado inverso, de medo, ressentimento e desalento. Nesse esteio, “o ódio pode produzir agressões físicas, feridas e cicatrizes em corpos humanos. Ele pode produzir violência linguística. O amor pode produzir gestos de solidariedade ou obras de arte. As energias afetivas atravessam a cultura no contexto do tempo histórico e levam a realizações e concretizações linguísticas, pontua Marcia Tiburi, filósofa e escritora brasileira. Isso não significa dividir simploriamente a experiência entre emoções “positivas” e “negativas”. Trata-se de indagar as interfaces que nos compõem ou nos enfraquecem, ampliam ou restringem nossas potencialidades de existência.
Tal vertente demanda um olhar mais atento sobre as redes digitais. Dinâmicas relacionais podem ampliar nossa potência ao produzir conhecimento, solidariedade, reconhecimento ou viabilidade de ação coletiva. Um vocábulo pode permitir que alguém desvenda uma experiência que até então não conseguia nomear. Uma comunidade digital pode reunir sujeitos antes isolados. Uma narrativa compartilhada pode tornar visível uma forma de existência historicamente silenciada. No entanto, as vinculações linguísticas também podem diminuir nossa potência de existir. A humilhação pública, a violência verbal, o assédio, o preconceito, a exposição permanente ao julgamento e a transformação da existência em objeto de comparação podem produzir pavor, mágoa, ansiedade ou impotência. O problema, a priori, não reside apenas em estarmos sempre conectados, mas na qualidade das composições que nossas linguagens produzem.
Nesse aspecto, a época atual introduz algo ainda mais complexo, uma vez que grande parte das nossas vivências não é mediada tão só por outros sujeitos. Esses episódios são também organizados por sistemas algorítmicos. Em outras palavras, o que aparece diante de nós foi previamente selecionado, hierarquizado e recomendado. Nesse sentido, alguns expedientes afetivos podem capturar a atenção e circular em pouco tempo no que se refere à indignação, à aflição, ao desejo, ao impulso para o consumo, à identificação, à hostilidade e à comoção.
Sem dúvida, a linguagem não é necessariamente emancipadora apenas porque circula sem restrições, assim como a tecnologia não é, de forma inevitável, opressora tão só porque medeia interseccionalidades. Nesse invólucro hodierno de convergências de linguagens, importa desvelar as composições que elas tornam (im)possíveis. Há entrecruzamentos digitais que expandem o devir coletivo de agir; há outros que isolam, oprimem, uniformizam, vilipendiam, segregam, paralisam ou subordinam.
Esse ponto é, em particular, provocador diante da modernidade, marcada, a um só tempo, pela hiperexposição e pelo desejo de afastamento. Queremos ser vistos, reconhecidos e escutados, mas, com frequência, experimentamos a presença do outro como invasão ou ameaça. Construímos redes para nos aproximar e, nelas, paradoxalmente criamos mecanismos para bloquear, silenciar, cancelar, selecionar e administrar aqueles que podem chegar até nós. A linguagem aproxima, mas pode separar; cria comunidade, mas pode estabelecer fronteiras. Da mesma forma que não sabemos de antemão como um corpo pode reagir porque sua potência emerge nas interlocuções que estabelece, desconhecemos na íntegra o que uma proposição pode produzir. Uma inscrição pronunciada em determinado momento é passível de acarretar determinado efeito; em outro contexto, pode transformar uma existência. É passível de ferir, mas também pode ser retomada, ressignificada e convertida em artefato de comoções, resistência e transformação.
As enunciações carregam histórias que antecedem aqueles que as pronunciam. Expressões empregadas para inferiorizar específicos grupos podem ser reapropriadas e ocasionar novos sentidos. Discursos que procuram fixar identidades podem ser deslocados por aqueles a quem foram dirigidos. Se a linguagem nos constitui, isso não significa que estejamos em caráter absoluto aprisionados por ela. A linguagem precisa ser repetida para continuar existindo, mas cada repetição também pode ser diferente, ressignificada e acolhedora. Fazer coisas à linguagem, como afirma Butler, pode, nessa direção, transformar os estados afetivos e as relações que ela torna possíveis.
Esse porvir assume importância diante da onipresente inteligência artificial. Sistemas generativos introduzem novos recursos de produção e circulação de signos, embora não devam ser simplesmente equiparados à experiência humana. Textos, imagens e vozes podem agora ser produzidos de modo induzido em escala extraordinária. A pergunta sobre autoria torna-se inseparável do questionamento sobre afecção. Em tese, não importa tanto saber quem produziu determinadas asserções, mas discernir o que esses enunciados produzem em nós e entre nós.
Em suma, frente à constante relação com o mundo externo, não existe vida sem afecção. Ser afetado não é, em si, uma fraqueza, mas condição inerente da própria existência relacional humana. A questão ética consiste em dimensionar a complexidade das nossas sensações, reconhecer os entrelaçamentos dos quais participamos e construir conexões que ampliem, tanto quanto possível, nossa potência de agir e, sobretudo, a alheia.
Se as palavras afetam os corpos, nenhuma linguagem é em sua totalidade inconsequente. Se os encontros podem aumentar ou diminuir nossa potência de existir, isto é, nosso conatus, convém refletir sobre o tipo de interações que produzimos quando falamos, escrevemos, compartilhamos, postamos, comentamos ou silenciamos. E se a linguagem é também aquilo que fazemos, como Butler a concebe, então somos participantes agentivos da permanente transformação das condições linguísticas, emocionais e sociais de nossa existência. Nessa toada, como assevera Marcia Tiburi, “a o nos reconhecermos como seres de linguagem, somos emoldurados por ela, nos criamos e nos recriamos nela. E que há fórmulas que se repetem como configurações plástica repetitivas. Assim como usamos palavras comuns, podemos partilhar estruturas, não apenas conteúdos, mas formas, não apenas formas transcendentais, mas formas plásticas" [passíveis de reconfiguração].
Nessa perspectiva, mais do que estruturas estanques, a plasticidade dos arranjos da linguagem permite perscrutá-las como configurações flexíveis, abertas à recriação e, portanto, potencialmente inclusivas e transformadoras. Destarte, se o mundo carece de mudanças, talvez devamos começar pelas linguagens que nos atravessam e sobre as quais agimos, pelos afetos postos em circulação, bem como pelos mundos mais democráticos e plurais que, com eles, podemos tornar possíveis. Afinal, entre aquilo que as linguagens fazem de nós e aquilo que fazemos delas, temos a chance de nos reinventarmos e, nesse horizonte, produzirmos outras linguagens e, com elas, novas formas de existir.
