Opinião

Aprender a viver melhor

"Qualidade de vida não se resume a alimentação saudável, exercícios ou lazer. Também exige atenção ao que acontece dentro de nós"

Jean Oliveira
15/10/26 às 14h07

Você já teve a sensação de fazer tudo o que deveria e, ainda assim, sentir que algo não vai bem? Trabalha, cuida da família, cumpre compromissos. Mas, quando encontra um momento de silêncio, percebe que talvez esteja deixando alguém de lado: você mesmo.

Vivemos cercados de cobranças. Precisamos produzir, superar dificuldades e demonstrar equilíbrio, mesmo quando estamos esgotados. Por isso, qualidade de vida não se resume a alimentação saudável, exercícios ou lazer. Também exige atenção ao que acontece dentro de nós.

Sigmund Freud, fundador da psicanálise, mostrou que nem sempre conhecemos as motivações de nossos comportamentos. Conflitos inconscientes podem influenciar escolhas e reações. Às vezes, repetimos situações que nos machucam, aceitamos responsabilidades demais ou buscamos aprovação a qualquer custo, sem compreender por quê.

O autodesenvolvimento começa quando olhamos para esses padrões com curiosidade, não com culpa. Reconhecer uma fragilidade não é sinal de fracasso. É uma oportunidade de compreender nossa história e encontrar outras maneiras de viver.

Donald Winnicott ressaltou a importância de um ambiente acolhedor para o amadurecimento emocional. Sua obra nos lembra o valor de relações nas quais podemos ser autênticos, sem precisar representar o tempo todo a pessoa que os outros esperam encontrar.

E o autocontrole? Ele não significa engolir o choro, esconder a raiva ou fingir que nada nos atinge. Significa perceber o que sentimos antes de agir e buscar formas menos dolorosas de lidar com as emoções. Nem sempre conseguiremos. Haverá dias de impaciência, erros e arrependimentos. Amadurecer não é alcançar a perfeição, mas aprender também com esses momentos.

Jacques Lacan nos convida a pensar sobre a influência do desejo do outro em nossa vida. Quantas decisões tomamos para corresponder às expectativas da família, dos amigos ou da sociedade, sem perguntar o que realmente desejamos?

É importante lembrar, porém, que nem todo sofrimento se resolve com esforço individual. Dificuldades financeiras, jornadas exaustivas e relações violentas também afetam a saúde emocional. Cuidar de si pode incluir pedir ajuda, estabelecer limites e buscar mudanças nas condições em que vivemos. A psicoterapia é um dos espaços possíveis para esse trabalho de escuta e descoberta.

Talvez você não consiga transformar sua vida hoje. Tudo bem. Pode começar prestando atenção ao que sente, respeitando seus limites e tratando a si mesmo com a gentileza que costuma oferecer aos outros.

Viver melhor não é tornar-se outra pessoa. É aprender a cuidar de quem você já é.

Foto: Divulgação

Jean Oliveira é psicólogo e jornalista

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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