Cotidiano

‘A minha irmã não é uma criminosa, não é!’

Tio e avô de menino de 2 anos que teve a morte encefálica confirmada na Santa Casa de Araçatuba falam com a imprensa

Lázaro Jr. - Agência Trio Notícias
22/10/26 às 19h21
Tio e avô do menino concederam entrevista nesta quinta-feira (Foto: Lázaro Jr.)

Guilherme da Costa e Valdir Ferreira da Costa, tio e avô materno, respectivamente, do menino de 2 anos que foi internado na manhã da última segunda-feira (19) na Santa Casa de Araçatuba (SP), e que teve a morte encefálica constatada na manhã desta quinta-feira (22), falaram com a imprensa para dar a versão da família sobre o caso.

Eles negaram que a mãe da criança, que tem 27 anos e foi presa em flagrante junto com o padrasto, de 26 anos, tenha abandonado o filho no hospital após passar por atendimento médico. De acordo com eles, ela teria sido levada para casa depois de o pai dela ter sido informado que ela não poderia ficar com o menino.

Também negaram qualquer tipo de maus-tratos com a vítima e com os dois irmãos dela, que foram acolhidos institucionalmente por determinação da Justiça. E por fim, afirmam não haver hipótese de a mãe do menino ser a responsável pelos ferimentos que causaram a morte dele. “O que a gente está querendo dizer aqui é que a minha irmã não é uma criminosa, não é!” , afirmou Guilherme da Costa.

Casal

Os familiares da mãe do menino explicaram que ela passou a se relacionar afetivamente com o padrasto dele há cinco meses, em Santa Bárbara D’Oeste, onde ela residia com a família. Apesar de os familiares dela serem contra o relacionamento, eles apoiaram a decisão dela de mudar-se para Araçatuba com ele e os três filhos dela, para iniciarem uma nova vida, de acordo com ela, que está grávida do quarto filho.

Ainda de acordo com eles, o casal e estava em Araçatuba havia dois meses, morando em uma casa alugada no residencial Águas Claras, a cerca de 50 metros da casa do pai dela, que é avô do menino.

Sobre o ocorrido na segunda-feira com a criança, o avô relatou que pouco depois das 7h ele foi informado pela filha que o neto dele havia caído da cama e foi ele quem a levou junto com o filho dela, para o pronto-socorro municipal.

Manta

Valdir contou que a filha dele levou o menino até à casa dele enrolado em uma manta e que, naquele momento, notou apenas um arranhão no pescoço da criança. Ainda de acordo com ele, o neto era um menino muito ativo e vê-lo com uma marca roxa no braço ou um arranhado, sempre foi muito normal. “Micael era saudável, inteligentíssimo, totalmente ligado no 220, você não conseguia parar ele. Era um menino que caía ali e já levantava” , afirmando que não tinha o hábito de chorar.

Diante disso, naquele momento, a única coisa que ele pensou foi em entrar no carro, dar partida e correr o mais rápido que pudesse para chegar no hospital. “Era só nisso que eu pensava, não pensava em outra coisa” , explicou.

Entretanto, de acordo com o avô do menino, quando estava próximo do bosque municipal, o carro ficou sem combustível e foi preciso chamar um motorista por aplicativo. Ele informou que o transporte chegou em um minuto e a filha dele seguiu com o neto para o pronto-socorro.

Grave

Quando ele chegou na unidade de saúde após reabastecer o veículo, a criança já era atendida e a filha dele estaria passando mal, por isso, ela também foi levada para atendimento médico.  Devido à gravidade do quadro clínico, o menino foi transferido para a Santa Casa e depois, a filha dele também teve que ser encaminhada ao hospital, para sequência do atendimento.

O avô da criança informou que permaneceu com a filha dele na Santa Casa até por volta das 13h, quando foi informado que o neto havia sido levado para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e permaneceria internado. “Quando a gente chegou, ele teria caído da cama, mas quando eu conversei com o médico e ele me apresentou o quadro clínico, aí eu fiquei preocupado e vi que não foi uma coisa simples” , contou.

Não houve abandono

Valdir informou que nesse momento ele telefonou para a família em Santa Bárbara D’Oeste comunicando o que havia acontecido e teria sido informado pelo hospital, que ele ficaria como único acompanhante da criança.

Ainda de acordo com ele, a filha dele já estava sob efeito de medicamentos e como o hospital informou que entraria em contato, ele decidiu levá-la para casa, pois a informação passada era de que a mãe do menino não poderia permanecer para acompanhá-lo, o que seria um protocolo, por ela estar grávida. “Em tudo o que a Gabriele faz, ela me pede suporte. Então, não houve abandono”, afirmou.

O tio do menino reforçou a informação de que a família ficou na expectativa de o hospital entrar em contato após o pai e a irmã dele voltarem para casa. “Não houve nenhum tipo de abandono. Ela não podia ficar como acompanhante do filho” , reforçou, acrescentando que ela queria subir na UTI para ver o filho.

Polícia

Segundo o avô, já no período da tarde o padrasto do menino foi até à casa dele, informando que policiais militares estavam na residência do casal, comunicando que os dois teriam que ir para a delegacia para prestar depoimento.

Diante disso, ele foi à casa da filha, pegou as duas crianças maiores que já haviam retornado da escola e as levou para a casa dele. Porém, cerca de uma hora depois, vizinhos o procuraram novamente, informando que desta vez, era o Conselho Tutelar que estava na residência do casal.

Ao ir à casa da filha, ele foi comunicado que a delegada responsável pelo caso também queria ouvi-lo. Assim, ele foi levado em um carro e as duas crianças transportadas no veículo do Conselho Tutelar.  De acordo com ele, somente quando chegou à delegacia ele percebeu que o Conselho Tutelar não havia chegado com os outros dois netos dele, dando conta que não voltaria para casa com eles.

“Ninguém me perguntou nada, ninguém me passou nada e os meus netos ficaram em uma casa, acolhidos, com o avô morando do lado. Não entendi e achei totalmente desnecessário” , disse.

Valdir afirmou que não havia falado com a polícia antes de ser levado para a delegacia e que, para ele, a melhor defesa para as crianças seria tê-las deixado com ele, na casa dele, pois elas próprias não queriam ir com o Conselho Tutelar, de acordo com o avô.

Abrigadas

Segundo o avô do menino, logo após concluir o depoimento, já durante a noite, ele telefonou para o número do plantão do Conselho Tutelar querendo saber das crianças e foi informado que já estavam assistidas.

“Então machuca a gente, muito, porque esses detalhes não são contados, essas histórias não são contadas e inflamam a população de uma forma, como se nós fossemos monstros” , reforçando que está em contato com Conselho Tutelar desde o primeiro dia . “Dá a impressão de que as crianças não tem ninguém” , completa.

Casal responsável pelo menino estaria em fim de relacionamento

Durante a entrevista concedida à imprensa nesta quinta-feira, Valdir Ferreira da Costa, avô materno do menino de 2 anos que teve a morte encefálica constatada na manhã desta quinta-feira (22), informou que a filha dele havia revelado no domingo (18) à noite, que pretendia terminar o relacionamento com o companheiro dela e padrasto da criança.

De acordo com ele, naquela noite o genro mandou mensagem informando que havia tido uma discussão com a filha dele, por isso, ele foi até à residência do casal e a filha teria informado que pretendia encerrar o relacionamento. Segundo Valdir, eles conversaram e se entenderam.

Entretanto, depois do ocorrido, ele soube que os dois já haviam rompido havia três dias quando ela contou sobre essa intenção. De acordo com ele, essa informação foi passada para a família pela própria mãe do menino, ao advogado dela, durante visita feita a ela no presídio onde ela está presa preventivamente. “Ela não me falou nada” , contou o avô da criança.

Crianças

Questionado sobre o fato de a jovem ter deixado a criança com o padrasto, mesmo após ter rompido o relacionamento, o pai dela contou que era hábito dela deixar o filho mais novo em casa quando saía para levar o mais velho na escola, que fica próximo da residência do casal.

E confirmou que a filha disse a ele que ao retornar da escola, o padrasto do menino contou que ele havia caído da cama. “Minha filha me disse: pai, fui levar, o (meu neto mais velho) na escola e quando eu voltei, eu me deparei com ele (o padrasto), dizendo que o Mica (vítima) tinha caído e ele estava molinho. E ela sustenta isso até hoje” , declarou. E acrescentou: “E eu acredito nela, eu conheço muito a minha filha” .

Não faria

Valdir afirmou que ao ver a apresentação feita pelos médicos sobre os ferimentos sofridos pelo neto dele, ele já percebeu que tais lesões não poderiam ter sido causadas por uma queda. “Traumatismo craniano grave, com quebra de osso, ele tinha trauma toráxico e lesão nos dois pulmões. O que vocês acham?” , questionou.

Porém, reforçou não haver condições de essas lesões terem sido causadas pela filha dele. “O que aconteceu com ele (vítima) lá, nunca a minha filha teria coragem de fazer com ele, pelo contrário, ela é uma leoa”, referindo-se à atitude dela na defesa dos filhos.

Medicamentos

Já com relação ao padrasto da criança, tanto o avô quando o tio do menino ferido, Guilherme da Costa, afirmaram que não o conheciam. O conhecimento que o tio tinha a respeito do investigado era que eles frequentavam a mesma igreja.

Segundo Valdir, após o ocorrido, a família dele tomou conhecimento que o padrasto do menino fazia uso de medicamentos controlados, mas não estaria utilizando esses medicamentos. A família também sabia que ele havia sido usuário de drogas.

Sem suspeitas

Os dois disseram porém, que a convivência dele com a família e as crianças sempre foi normal, eles nunca perceberam nenhum tipo de maus-tratos por parte do padrasto, pelo contrário, quando moravam em Santa Bárbara do D’Oeste, ele cuidava das crianças. Após o ocorrido, de acordo com o avô, um familiar relatou ter ouvido o padrasto xingando o enteado em uma ocasião.

A família reforça que nunca houve relatos de possível maus-tratos contra as crianças e que exame de corpo de delito nas outras duas crianças já teria apontado que elas não apresentam lesões. “Então qual é o sentido? Só um que a gente vai escolher maltratar?” , questionou o tio.

Segundo a polícia, os laudos dos exames nas crianças ainda não foram apresentados para confirmar essa informação.

E o avô do menino completou: “A Gabriela (filha dele), tudo o que ela produziu de dor na vida, sempre foi pra ela, principalmente em questão de relacionamento. Ela nunca conseguiu ser muito feliz. Desta vez, sei lá, estranho, foi um relacionamento estranho, mas com os filhos, nunca, nunca, nunca” .

Morte encefálica

Por fim, os familiares revelaram que desde segunda-feira já havia a possibilidade de ser considerada a morte cerebral do menino, que não reagia aos estímulos. Porém, segundo o que foi informado, o hospital prosseguiu com o protocolo, confirmando a morte cerebral nesta quinta-feira, quando foi concluído o prazo de 72 horas.

“O Micael sempre foi o meu alívio. Eu vou sentir isso quando tiver um filho. E meu filho homem vai se chamar Micael Davi” , finalizou Guilherme.

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