Cultura

Em ‘Spencer’, Kristen Stewart vive conto de fadas de final infeliz

“No filme, a personagem se transforma em um ser quase imaterial, preso numa realidade hostil"

Valter Soares de Souza Junior
06/02/22 às 16h00
(Foto: Divulgação)

Ambientado em Queen’s Sandringham, a casa de campo da família real britânica, no ano de 1991, o filme ‘Spencer’ apresenta um panorama do que foram os possíveis últimos dias do casamento entre a princesa Lady Diana e o príncipe de Gales, Charlie. Todavia, "Spancer" não é exatamente uma recriação de fatos verídicos; como alertado nos dizeres iniciais, trata-se de “uma fábula baseada em uma tragédia real”. Desde o início, é possível entender se tratar de um filme intensamente dramático e íntimo.

A narrativa do longa dramatiza as festividades natalinas celebradas pela família monárquica, encenadas dentro de quase duas horas. No desempenho altamente estilizado, e notável, de Kristen Stewart (que tem chances saudáveis de ser indicada ao Oscar), o longa caminha a passos lentos, focando, em suma, nas emoções angustiantes e enclausuradas de Diana, e se concentra não em grandes eventos, mas no que acontece entre eles. No filme, a personagem se transforma em um ser quase imaterial, preso numa realidade hostil.

Em tons pastéis e levemente mórbido, o cenário rico em detalhes cria um filme de cores mudas, reforçando a realidade monótona e controlada que nasce do exagero cerimonial da realeza britânica. Nublado, o clima austero britânico revela, de forma suave, os dias que Diana passa presa em si mesma, andando em círculos e deprimida na companhia da família real. Não à toa que ela esteja tão conectada às suas raízes, pois é por meio dela, e do sobrenome de seu pai, que dá título ao filme, que ela se permitiu vislumbrar a felicidade de uma vida há muito perdida.

Humanização

O longa também acerta nos enquadramentos e montagens, que se encaixam com perfeição nos sentimentos de Diana, seja com ela usando um longo e deslumbrante vestido de princesa enquanto se inclina diante de uma privada para satisfazer seu transtorno, como quando aparece correndo em diversas fases da vida, como se fosse o único momento em que se sentisse livre e sem cobranças.

O filme humaniza a princesa e ressalta exclusivamente seu ponto de vista. Expõe suas fragilidades e enfatiza sua relação com os filhos, que aparentemente foram seu ponto de equilíbrio durante muito tempo.

(Foto: Divulgação)

Diana atravessou um conto de fadas ao contrário, de início auspicioso e um interminável final infeliz. Neste sentido, Kristen Stewart consegue trazer uma singularidade na desenvoltura de seu papel. Seu crescimento como atriz é tardio, mas o longa consegue mostrar toda a sua maturidade quando se trata em capacidade de encenação. Há um apavoramento gradual, um desconforto levemente sáfico, uma exasperação que contribui para a experiência coletiva proposta em cena, onde obra e atriz se intercalam e se completam num frenesi que muito impressiona quem acompanha a trama e, em especial, a carreira da atriz.

Novamente, o cineasta chileno Pablo Larraín consegue excitar com outro drama burguês, brincando com o voyeurismo das massas sobre as desgraças da elite. "Spencer" é uma obra de difícil digestão por não se valer dos convencionalismos do gênero, e sim apostar em pulsões intimistas que cobiçam a um retrato mais poético a que estamos acostumados.

A história contida oferece ao espectador uma experiência sem grandes amarras, mas cheia de metáforas e linguagens implícitas, o que torna tudo muito prazeroso. O enredo tropeça aqui e ali, mas obtém êxito em um tom notoriamente sensível e intimista.

Título Original: Spencer

Estreia: 27 de janeiro de 2022 (Brasil)

Duração: 111 minutos

Gênero: Drama/Histórico

Direção: Pablo Larraín

Elenco: Kristen Stewart, Jack Farthing, Sally Howkins, Sean Harris, Timothy Spall, Amy Manson, John Keoge, Nicklas, Kohrt, Olga Hellsing, Thomas Douglas, Stella Gonet.

(Foto: Arquivo pessoal)

*Válter Soares de Souza Júnior é jornalista, pesquisador e entusiasta das mídias. Cinéfilo, com aprofundamento em críticas cinematográficas pelo Espaço Itaú de Cinema. Apaixonado por música e pelos esportes. Enquanto o Timão existir, estará sempre do lado alvinegro da Força!


* Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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