Cultura

'Eu escrevo para ter a certeza de que estou vivo'

O escritor e jornalista Eder Parladore, de Araçatuba, fala sobre sua relação com a poesia, que começou na infância; atualmente, é autor de mais de 500 poemas que versam sobre diferentes realidades

Manu Zambon - Hojemais Araçatuba
01/08/21 às 19h00
(Foto: Divulgação)

A frase do título ilustra, de forma resumida, a síntese do sentimento que o escritor e jornalista Eder Parladore, de 45 anos, tem pelo universo da poesia. Sua vida está intimamente ligada às palavras, versos, estrofes e, algumas vezes, rimas. 

Natural de Penápolis (SP), e residente em Araçatuba, Eder tem tantas poesias de sua autoria, que poderia escrever, no mínimo, quatro livros com sua produção. Apesar de não ter publicado ainda uma obra impressa, é reconhecido por suas poesias. Recentemente, integrou a programação do Limoeiro 2k21, com o vídeo “Uma Palavra e Serei Salvo”. 

O vídeo, que está disponível no Youtube e no fim deste texto, traz uma série de poesias, escritas entre 2001, quando morava em Uberlândia (MG), e 2020. O nome da produção audiovisual é uma expressão que faz parte da missa da igreja católica e que sempre o encantou. 

“Essa expressão traz isso da salvação pela palavra, da redenção. A palavra pode salvar ou condenar uma pessoa”. Com um recorte mais existencialista, e até meio sombrio, segundo ele, as poesias refletem os tempos atuais no Brasil e no mundo. Também trazem nuances mais delicadas. 

“Os poemas versam, por assim dizer, principalmente sobre o poder das palavras. Sobre a sua força de criação e de destruição”, completa. Uma das poesias que compõem o trabalho é “Rimas não salvam”: 

“Nunca estarei pronto 

para aquele momento, 

quando eu for de fato

mais um homem morto”

(Rimas não salvam)

Angústia

Rimas podem não salvar, mas as poesias ajudam a “esvaziar”. Eder não é impulsionado por uma inspiração, como acontece com muitos escritores, mas sim por angústia. 

“Posso passar um, dois meses sem escrever, mas tem um dia que é uma necessidade a escrita. Se eu não escrever, eu não faço nada naquele dia. Não chamo isso de inspiração, porque parece que é algo bonito. Eu não tenho essa inspiração (...), tenho uma angústia mesmo. Muitas vezes, quando me sento para escrever, nem tenho ideia do que vai sair, mas alguma coisa sempre sai”. 

Entre os temas abordados por ele, reflexões sobre realidades sociais, econômicas, preconceitos, desigualdade, violências, entre outros. “A poesia aponta as coisas que não deveriam ser como são. As pessoas têm uma visão do romântico, do belo, mas se você for ver o histórico, tem poetas que passam longe de falar sobre o amor”.

Nesse último ano, período de pandemia, Parladore escreveu algumas poesias que retratam esse momento. No ano passado, por exemplo, participou, do projeto do Sesc Birigui, o Habitar Palavras, o qual foi convidado para mostrar três poemas. Além de “Rimas não salvam”, citado anteriormente, sua outra produção nesse período, para o projeto, foi “O ar que não falta à gata”, que relata a morte de uma pessoa por covid-19. No entanto, afirma que tem escrito menos durante a pandemia. 

“Eu escrevo para ter a certeza de que estou vivo. A poesia é o que torna a minha vida plena de sentido. O amor, a família, a profissão, as viagens, tudo isso dá sentido, mas a poesia torna tudo muito real, verdadeiro (...). É a que dá significado à minha vida, desde quando era criança”. 

Descoberta

Por falar em infância, sua descoberta na poesia foi sozinho, após ser alfabetizado. Seus primeiros poetas foram os portugueses. Certa vez, encontrou na casa onde morava, nos fundos da residência dos avó paternos, uma antologia poética portuguesa. “Fiquei lendo, não tinha compreensão para entender o que o Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Mário de Sá-Carneiro estavam falando pra mim. Eu tinha 9 anos. Mas foi uma epifania, uma coisa que eu lia e viajava naquelas páginas”. 

Na adolescência, por exemplo, conheceu Tabacaria, de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa). “Fiquei semanas num estado de espírito muito diferente. É um poema que até hoje é uma coisa que eu leio e volto a sentir algo muito forte”. 

Mesmo tendo aprendido a ler e apreciar poesia sozinho, Parladore lembra que via seu avô lendo jornais e que depois de um tempo, descobriu que ele mesmo tinha escrito uns poemas, que suas tias resgataram e publicaram em um livreto.

A biblioteca da escola em que estudava, em Penápolis, também foi fundamental para desenvolver seu gosto pela leitura, em particular, pela poesia. Carlos Drummond, Manoel Bandeira, Manoel de Barros, Cecília Meireles, todos estavam nas prateleiras, à sua disposição. “Entre romance e poema, prefiro ler poesia. Fui fisgado na adolescência e nunca mais parei de ler e produzir”. 

Amadurecimento

Já na faculdade em Londrina, quando cursou jornalismo, conheceu os poetas estrangeiros, como Goethe, Baudelaire, Neruda, Maiakovski. Hoje, Parladore conta que acompanha também os poetas contemporâneos, como Angélica Freitas, Ricardo Aleixo, Bruna Mitrano, Ana Martins Marques, Rodrigo Garcia Lopes, Roberto Piva, entre outros. 

Inclusive, são nomes que o jornalista indica para quem deseja também acompanhar os talentos de agora. Angélica, por exemplo, foca em questões femininas; uma de suas obras expressivas é “O útero é do tamanho de um punho”. Ricardo Aleixo já fala sobre ancestralidade negra e Ana Martins Marques segue uma linha mais sensível, como Celília Meireles. 

Limoeiro 2K21

O vídeo com Parladore está disponível na programação do Limoeiro 2k21 ‘Ambiente Cultural On-Line’, uma plataforma que, na prática, funciona como um festival permanente de artes integradas com acesso livre e gratuito.

Concebido pela Aruê! Arte, Cultura e Holismo, produtora de Araçatuba dirigida por Rafael Batista, o Limoeiro é realizado por meio do Programa de Ação Cultural (ProAC Expresso LAB) da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do estado de São Paulo e do Governo Federal - Lei Aldir Blanc.


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