Jornada
Com forte caráter biográfico, inspirado por histórias diferentes que pessoas próximas a Anderson compartilharam em momentos distintos, a trama acompanha uma série de eventos no Vale de San Fernando, na Califórnia, no início dos anos 1970. O astro mirim e aspirante a empresário Gary Valentine se aproxima da carismática Alana Kane, uma garota mais velha e que ainda está procurando por seu lugar na vida. Acompanhamos a jornada do casal enquanto cruzam por alguns eventos históricos e personalidades famosas da região naquele período.
Aqui, uma repetição qualitativa. Na escrita, Thomas Anderson não subestima o espectador e entrega um desenvolvimento narrativo corajoso, com timing cômico preciso e que permite que o público vá completando os rumos da trama em sua mente. Os cortes descontínuos são favoráveis para que se olhe para o ponto central da narrativa: a relação de Gary e Alana em uma fábula de amor na sua forma mais pura e genuína, com atuações carismáticas de jovens atores que correm atrás de seus objetivos na mesma medida que correm uns para os outros.
Química
A grande capacidade de atuação de Cooper Hoffman e Alana Haim, a química que exibem em cena e a construção acertada de seus personagens, a despeito das diferentes fases em que estão na juventude, fazem o enredo correr com naturalidade, de modo que a diferença de idade e o fato de Gary ser menor de idade não chegam a soar escandalosa para o espectador. Ambos têm personalidades genuinamente inocentes. Como resultado, é quase impossível não torcer por eles em sua jornada.
É impressionante como ambos os protagonistas exalam personalidade em seus papéis, com Cooper (filho do saudoso Philip Seymour Hoffman, um dos grandes parceiros do diretor PTA) demonstrando muita confiança em sua performance, e Alana dominando totalmente o papel que parece até mesmo ter sido feito para ela, de tão bem que se encaixou. Os sentimentos que eles passam para o público são muito palpáveis, e muitas das vezes não precisam nem ser dito por eles, apenas com um toque ou uma maneira de olhar já é possível compreender a mensagem.
A cinematografia é linda, a trilha é envolvente e a história é apaixonante. É uma ótima experiência de um filme leve, divertido e sensível, que todos podemos nos identificar com ele em algum ponto, principalmente sobre as incertezas do início da vida adulta. Além disso, percebemos que o longa é claramente feito por quem entende e ama o cinema. Uma história romântica e singela, um amor entre dois jovens, repleta de anedotas e vivacidade onde a vida discorre com leveza, como um fluxo de consciência que reflete a Califórnia dos anos 70.