Cultura

‘Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis’, o novo filme do Marvel Studios

Shang-Chi é o primeiro protagonista asiático da Marvel a ganhar um filme. Criado por Steve Englehart e Jim Starlin, a primeira vez que o personagem apareceu em um quadrinho da editora foi na revista ‘Special Marvel Edition nº15’, em dezembro de 1973, sob a alcunha de “Mestre do Kung-Fu”

Válter Soares de Souza Júnior*
05/09/21 às 19h30
Foto: Reprodução - Disney/Marvel

Em ‘Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis’, a trama apresenta um jovem chinês criado por seu pai em reclusão, sendo treinado em artes marciais. Quando, porém, ele tem a chance de entrar em contato com o resto do mundo, logo percebe que seu pai não é o humanitário que dizia ser, vendo-se obrigado a se rebelar.

Ele passa a levar uma vida pacata ao lado de sua amiga Katy na cidade de São Francisco, mas é atraído para a rede de uma misteriosa organização. Diante disso, Shang-Chi se vê forçado a enfrentar o passado que ele pensou ter deixado para trás, em uma jornada que revelará o segredo de sua linhagem, assim como o seu papel no universo.

Dirigido por Destin Daniel Cretton, cineasta habituado a dramas independentes, e protagonizado por Simu Liu, Awkwafina e Tony Leung, o longa-metragem marca a estreia de um novo e carismático herói no MCU, universo cinematográfico Marvel, além de expor o cinema de artes marciais e o misticismo oriental para os filmes de super-heróis.

Shang-Chi é o primeiro protagonista asiático da Marvel a ganhar um filme. Criado por Steve Englehart e Jim Starlin, a primeira vez que o personagem apareceu em um quadrinho da editora foi na revista ‘Special Marvel Edition nº15’, em dezembro de 1973, sob a alcunha de “Mestre do Kung-Fu”. Na época, a Marvel queria aproveitar o sucesso das artes marciais na cultura pop, resultante dos filmes de Bruce Lee e também da série antológica ‘Kung Fu’ da década de 1970, estrelada por David Carradine.

O filme exibe à tradicional jornada do herói, agora, no entanto, com outro cenário, cultura e personagens. A tal da “fórmula Marvel” ainda é presente, mas o diretor encontra nas referências à cultura chinesa e asiática uma fórmula chamativa o suficiente para criar renovação, ignorar os estereótipos e os utilizar a favor do roteiro escrito por ele e pelos irmãos Dave e Andrew Callahan. Com o uso bem habilidoso de transições entre o passado e presente, o filme de Destin Daniel Cretton é bem eficiente em criar sua própria linguagem e estilo. A história do longa abraça fortemente às extravagantes inspirações místicas e mitológicas, como dragões, bestas, poderes mágicos e o apego às tradições.

Visualmente, o filme é belíssimo e conta com efeitos especiais muito bem-feitos. A cinematografia de combate feita por William Pope aliada à trilha sonora contemporânea de Joel P. West, também constituída por canções da época e produções mais frenéticas, combinam perfeitamente, auxiliando até mesmo o argumento do filme e na condução de sua narrativa. Simu Liu, que já trabalhou como dublê, abraça a oportunidade e se entrega ao personagem título, com movimentos rápidos e extremamente bem coreografados. As várias sequências de luta, inclusive, utilizam de técnicas diferentes de filmagem dependendo de em que momento o enredo se encontra.

Foto: Reprodução - Disney/Marvel

Como Katy, Awkwafina é mais que um alívio cômico. A simpatia da atriz e comediante é responsável por algumas das melhores cenas do filme. Destaque também para Meng’er Zhang como Xialing, irmã do herói. A atriz pouco conhecida, atua como um ambicioso “símbolo feminista”. Contudo, o maior destaque do filme é Tony Leung como Wenwu, pai de Shang-Chi e, tecnicamente, o verdadeiro Mandarim. Com mais de 100 créditos de filmes, o ator é uma lenda viva do cinema oriental de Hong Kong, o cinema de língua chinesa. Esta é a sua primeira produção ocidental, e ele é bárbaro em todas as suas cenas. Extremamente carismático, ele ilumina o filme.

O principal problema do longa, é, no entanto, a constante transição de gêneros. Em determinado momento da trama, o filme deixa de focar as artes marciais para se tornar mais uma fantasia épica envolvendo uma espécie de super-herói. Muito do que acontece na segunda metade é uma quebra assustadora com o eficiente longa que vinha se estabelecendo na primeira hora, calcado em obras clássicas, tais como ‘O Clã das Adagas Voadoras’, principal expoente do estilo WuXia (gênero literário e cinematográfico, originário da China, que mistura fantasia e artes marciais em um mundo medieval imaginário) e o Kung-Fu feroz, de alto impacto, que o próprio Bruce Lee popularizou com, dentre outros filmes, ‘Operação Dragão’.

‘Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis’ é uma experiência bastante satisfatória. Inicia-se muito bem como uma aventura de artes marciais empolgante e, com muito mais estilo do que os filmes da Marvel costumam ter. Mas acaba prejudicado em alguns momentos por sua brusca transição para mais um espetáculo CGI fantasioso. Ainda assim, é uma história de origem própria, cheia de personalidade e com leves toques de conexão ao universo compartilhado dos heróis, o considerando de maneira sutil.

Créditos

Título Original: Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings

Estreia: 02 de setembro de 2021 (Brasil)

Duração: 132 minutos

Gênero: Ação, Aventura

Direção: Destin Daniel Cretton

Elenco: Simu Liu, Awkwafina, Tony Leung, Michelle Yeoh, Meng’er Zhang, Fala Chen, Wah Yuen, Florian Munteanu, Ben Kingsley

(Foto: Arquivo pessoal)

*Válter Soares de Souza Júnior é jornalista, pesquisador e entusiasta das mídias. Cinéfilo, com aprofundamento em críticas cinematográficas pelo Espaço Itaú de Cinema. Apaixonado por música e pelos esportes. Enquanto o Timão existir, estará sempre do lado alvinegro da Força!

* Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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