Cultura

‘The Adam Project’ é mais um passatempo simpático do diretor Shawn Levy, com Ryan Reynolds interpretando Ryan Reynolds

“Apesar do elenco afiado, o filme da Netflix desperdiça potencial de ser mais que competente"

Válter Soares de Souza Júnior*
20/03/22 às 16h00
(Foto: Divulgação)

"O Projeto Adam", novo filme do cineasta Shawn Levy e estrelado por Ryan Reynolds, é aquele tipo de aventura que por estar na Netflix e viver de um marketing super genérico, eu diria, inicialmente, se tratar de mais uma produção sem inspiração e feita a partir de uma combinação de influências vazias e com “aquela cara” de algoritmo.

Felizmente, não é bem assim. Ele tem sim um monte de referências, mas as executa relativamente bem e traz consigo um elenco que esbanja carisma e, de certo modo, sustenta a aventura sci-fi que o diretor propõe aqui: sem riscos, não desagrada – mas tampouco empolga.

Em 2050, viagem no tempo é parte do arsenal humano na tentativa de sobreviver a um futuro distópico e, por meio dessa invenção, Adam tenta partir para 2018 com o objetivo de encontrar sua esposa, Laura, que nunca retornou de uma missão. O resgate não é autorizado, mas ele decide roubar um jato e partir mesmo assim. Na fuga, o veículo é danificado e ele acaba parando em 2022, quando encontra sua versão mais nova.

O Adam de 12 anos vive com a mãe, ainda lidando com a recente perda do pai, Louis. Ele apanha de valentões constantemente, não tem muitos amigos além do cachorro, e usa sarcasmo e piadas para se mostrar aparentemente indiferente às circunstâncias ao seu redor. Juntos, os dois Adams descobrem que a linha do tempo já foi alterada pela suposta inventora da viagem temporal, Maya Sorian, e decidem consertar as coisas voltando ainda mais e reencontrando Louis, antigo parceiro de Maya, impedindo a criação da tecnologia.

Resultado inesperado

Naturalmente, a trama logo cria paradoxos complicados e inevitáveis para esse tipo de filme. Mas "O Projeto Adam" não está muito interessado nessas questões, desviando delas com explicações simples e humor metalinguístico, deixando claro que o diretor Shawn Levy e o trio de roteiristas Jennifer Flackett, T.S. Nowlin e Jonathan Tropper estão cientes das complicações; eles só não querem se perder nelas. Eventualmente, porém, as perguntas batem na porta dos cineastas, e as respostas não são as melhores. Suas explicações são simples e objetivas, mas há tanto para explicar que tudo ocasionalmente se torna uma massa confusa de palavras e frases.

O resultado é tão inesperado quanto frustrante: apesar do elenco afiado, o filme da Netflix desperdiça potencial de ser mais que competente. Enquanto acerta em cheio na caracterização dos personagens e no impacto dramático de suas relações, o longa transforma os elementos que deveriam proporcionar um espetáculo de ficção em ruído, pois insiste em minar a profundidade emocional de seu drama e humor singulares com rompantes genéricos de ação.

O grande acerto do filme é trabalhar a dinâmica entre as duas versões do mesmo personagem para fazer com que um exponha as fragilidades do outro. Do mesmo modo que o Adam do futuro conhece o gosto amargo do arrependimento que algumas ações do seu “eu do passado” vão gerar, o garoto é capaz de enxergar a origem de todo esse comportamento por estar mais próximo dos eventos que vão gerar todas essas marcas. E a trama trabalha muito bem essa troca.

Elenco

Só que, para além de uma mensagem simpática, a ação do filme é uma grande colagem de referências que nem sempre funcionam. A produção chega a um terceiro ato completamente previsível que caminha por uma linha tênue e quase se torna entediante por puro comodismo. Infelizmente, em muitos momentos, configura um filme derivativo com computação gráfica minimamente boa, mas que privilegia o verbo e não a imagem.

O elenco é muitíssimo bom! Em ambas as versões de Adam, Ryan Reynolds e o ótimo ator mirim Walker Scobell, entregam expressões, manias e sarcasmos extremamente similares e divertidas. Reynolds é a mesma figura caricata de sempre; o que não é ruim, mas demonstra uma certa comodidade do ator. Nada obstante, o pequeno espaço reservado na trama para Jennifer Garner (que pelo menos divide uma cena fofa com Mark Ruffalo, relembrando o clássico ‘De Repente 30’) na trama é similar ao guardado para Zoë Saldaña, com a diferença de que Zoë ganha a chance de protagonizar a melhor sequência de ação do filme, ou quase isso.

Em última análise, ‘O Projeto Adam’ traz uma premissa instigante sobre viagem no tempo na qual desenvolve a aventura dos protagonistas que mergulham em um drama na medida certa, ao lidar com questões pessoais e sentimentais a partir de reencontros e novas escolhas. Em uma contínua materialização de fantasias, o longa cumpre a proposta de agradar em uma experiência que abrange a ficção, com Ryan Reynolds interpretando Ryan Reynolds. (In)felizmente, é só isso!

Título Original: The Adam Project

Estreia: 11 de março de 2022 (Mundial)

Duração: 106 minutos

Gênero: Ação/Aventura/ Ficção científica

Direção: Shawn Levy

Elenco: Ryan Reynolds, Walker Scobell, Mark Ruffalo, Jennifer Garner, Catherine Keener, Zoe Saldaña, Alex Mallari Jr.

(Foto: Arquivo pessoal)

*Válter Soares de Souza Júnior é jornalista, pesquisador e entusiasta das mídias. Cinéfilo, com aprofundamento em críticas cinematográficas pelo Espaço Itaú de Cinema. Apaixonado por música e pelos esportes. Enquanto o Timão existir, estará sempre do lado alvinegro da Força!

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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