Economia

Birigui quer se tornar referência no setor aeronáutico e aeroespacial

Público e privado estão unidos para fomentar um APL (Arranjo Produtivo Local) no segmento

Aline Galcino - Hojemais Araçatuba
24/08/19 às 09h00
(Foto: Ronald Vagner/Foto e Filme/Colaboração)

Birigui (SP) não é apenas uma cidade com destaque nacional no setor calçadista. Embora desconhecido de grande parte da população regional, o município tem uma grande cadeia de fabricação de produtos e prestação de serviços voltados para o setor aeronáutico.

Recentemente o município foi inserido na política pública estadual de apoio aos chamados “polos de desenvolvimento” nos setores de calçados, tecnologia de informação e aeroespacial.

Antes desse incentivo, setores público e privado já estavam unidos para constituir o APL (Arranjo Produtivo Local) Aeronáutico e Aeroespacial, assim como já existe no setor calçadista. A iniciativa vai ao encontro da política da atual administração de diversificar a economia, abrindo oportunidades de crescimento de outros importantes setores.

A ideia de APL tem como base a concentração geográfica de empresas de um mesmo setor produtivo que, com o seu desenvolvimento, formam ao longo do tempo elos de uma cadeia produtiva gerando uma especialização geográfica de produção e mão de obra.

Referência

“O APL muitas vezes fica concentrado em uma cidade ou mesmo região, que passa a ser reconhecida por produzir um determinado produto ou serviço, transformando-se em referência nacional nesse setor produtivo. A formação do APL Aeronáutico e Aeroespacial da cidade de Birigui amplia as oportunidades das empresas desse segmento econômico de atuarem em conjunto, conquistando novos mercados”, explica o titular da Sedecti (Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação) de Birigui, Nelson Giardino.

O APL facilita também a elaboração de políticas públicas de desenvolvimento econômico local por parte dos governos em suas três esferas (municipal, estadual e federal). “Além disso, a cidade ganha ao se tornar referência em uma área da economia, com grande potencial inovativo e de agregação de valor”, completa Giardino.

Setor

A formação do APL depende inicialmente da vontade das empresas do setor da cidade, da união delas para atuarem em conjunto buscando sinergias que fortaleçam o grupo e sua competitividade. Atualmente, a Prefeitura, por meio da Secretaria Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação de Birigui, com a ajuda do GPA (Grupo de Pioneiros da Aviação), tem se dedicado para formar o APL e criar as bases para seu desenvolvimento.

Entre os resultados desse trabalho destaca-se a inserção da cidade no projeto de polos de desenvolvimento do governo de São Paulo, visitas ao APL Tecnológico e Aeroespacial de São José dos Campos (onde estão concentradas as principais instituições de pesquisas do setor e a produção brasileira de aeronaves, por meio da Embraer) e a realização de fóruns sobre o arranjo produtivo aeronáutico de Birigui - o último ocorreu no dia 12 deste mês.

Na ocasião, Birigui recebeu representantes do APL de São José dos Campos, que visitaram as empresas ligadas ao setor na cidade.

15 empresas e muitos anos de história

Marcelo Spirandeli (esq.) e Francisco Lourenço Salmeirão começaram como funcionários (Foto: Aline Galcino)

Embora ainda não formalizado, o arranjo produtivo aeronáutico e aeroespacial de Birigui é composto por 15 empresas, sendo duas indústrias e outras 13 oficinas mecânicas de manutenção de aeronaves, de motores, estruturas aviônicas, funilaria, tapeçaria e serviços de precisão, hélices, importação e vendas de peças. Há também um aeroclube.

Além da importância histórica e o pioneirismo desde a década de 1940, o segmento tem relevância econômica. “São empresas de produtos e serviços com valor agregado, que favorecem a diversificação produtiva de Birigui, têm base salarial diferenciada e ajudam na divulgação da cidade em todo o país”, detalha o secretário da Sedecti, Nelson Giardino.

Entre essas empresas está a Freios Birigui Manutenção, a única do País que fabrica freios para aviões agrícolas, comerciais, garimpos e experimentais, que são aviões de pequeno porte.

Fundada em 1962 por Antônio Peres (já falecido), com objetivo de suprir a necessidade de freios capazes de pousar os aviões nas pistas do garimpo brasileiro, a indústria tem à frente hoje Marcelo Spirandeli e Francisco Lourenço Salmeirão. Os dois começaram como funcionários e acabaram adquirindo, além da experiência, o comando do negócio.

Spirandeli lembra que a indústria de aviões teve altos e baixos, sendo o pior período a era Collor, quando a empresa chegou a ficar fechada por alguns meses, ainda sob o comando de Peres.
A reabertura se deu com o arrendamento da fábrica para Spirandeli, que chamou Francisco para ser parceiro. No final da década de 1990, surgiu a proposta de deixarem de ser arrendatários para se tornarem proprietários.

O impulso nos negócios veio com a aviação agrícola, cada vez mais sofisticada, o que aumentou a demanda pelas peças. Depois, a empresa se fortaleceu com a demanda da aviação experimental.

Segredo

A empresa fabrica vários modelos de freios, todos feitos com alumínio fundido e uma liga especial, cuja receita é guardada a sete chaves. O resultado é um produto mais resistente e ao mesmo tempo leve. “Tem peças que tem 30 anos de fabricação e que ainda estão em boas condições, basta manutenção (...) tem pastilha que dura 3 mil horas de voo”, diz orgulhoso.

Os modelos se adaptam a dezenas de modelos de aeronaves, das agrícolas às executivas. “Fora as peças personalizadas que conseguimos fazer. Todas com alta capacidade de frenagem e manutenção simples”, adianta Spirandeli.

Para a empresa, estar dentro de um APL como está sendo montado em Birigui vai auxiliar principalmente no desenvolvimento tecnológico. “Precisamos de maquinários mais modernos, de atualização e não somos concorrentes. É preciso união para trazermos coisas boas e crescermos”, disse.

Atualmente, a Freios Birigui Manutenção produz lotes com 80 a 100 peças cada um, a cada 100 dias, pois é preciso trabalhar com estoque para atender o cliente de imediato.

Marcelo Spirandeli Junior segue os passos do pai (Foto: Aline Galcino/Hojemais Araçatuba)

Escapamentos

Outra fabricante do segmento é a EJT (Escapamentos João Teclis), fundada oficialmente em junho de 1983. Conforme informações da página da empresa, até então, seu idealizador, João Teclis, pai dos atuais diretores, tinha como atividade a indústria náutica e rodoviária.

Com o auge vivido pelo garimpo e comércio de ouro, foi procurado por profissionais do ramo de manutenção aeronáutica para desenvolver os escapamentos, pois havia uma carência no fornecimento.

Com a experiência que tinha no ramo metalúrgico, João desenvolveu gabaritos, ferramentas e até máquinas, muitas delas de forma manual e artesanal. Foi então no início de 1983 que saíram os primeiros conjuntos de escapamentos, principalmente para as linhas Cessna, Piper e Beechcraft.
Hoje, sob a direção dos filhos de João Teclis, a EJT produz 95 modelos de escapamentos dos mais diversos fabricantes de aeronaves que operam no Brasil.

Representantes do APL de São José dos Campos em visita a fábrica de escapamentos em Birigui (Foto: Divulgação)

Aeroporto industrial está em construção

Projeto do aeroporto Ary Soffia, entre Birigui e Bilac

Fundado em 22 de julho de 2012, em Birigui, o GPA (Grupo Pioneiros da Aviação) é uma organização sem fins lucrativos voltada para o fomento e desenvolvimento de projetos do setor aeronáutico brasileiro.

Entre as iniciativas em andamento estão a construção do aeroporto executivo de serviços e industrial Ary Soffia, entre Birigui e Bilac, e dois projetos sociais: o museu Casa do Aviador e o retiro Casa do Aviador.

A pedra fundamental do aeroporto Ary Soffia foi lançada em maio de 2014 e as obras estão em andamento, em fase de terraplanagem.

No local, uma área de 10 alqueires, será construída a sede administrativa, além de uma pista para pouso e decolagem no aeródromo.

No futuro, também serão instalados prédios que possam abrigar a sede do grupo, escritório, centro de estudos e o museu da aviação. Na extensão do aeródromo ficará um distrito industrial, com 14 hangares, específico para o setor da aviação. As edificações serão custeadas pelos parceiros do projeto que vão se instalar no local.

“Um aeroporto atrai muita coisa para a região e não há intenção de concorrer com o aeroporto Dario Guarita, de Araçatuba, porque o foco é totalmente diferente. O nosso é industrial, de logística e serviços; o de Araçatuba é de passageiros, um complementa o outro”, ressalta o diretor de comércio e serviços da Sedecti, Pedro Marin Belmonte Neto.

Homenagem

De acordo com o grupo, que tem como presidente Evaristo Luiz Momesso Junior, o objetivo é também homenagear os pioneiros da aviação. Não apenas Birigui, mas a região teve muitos.

Como exemplos, ele cita o senhor Walter Paoli, de Birigui e Coroados, com os primeiros aviões; Pedro Sanches, de Birigui, que teve um dos primeiros táxis aéreos do Brasil e atraiu muita gente para a cidade; e Raymundo Bisaggio Filho, de Araçatuba, dono da primeira oficina de aviões na região, que mais tarde se transformou na Taal (Táxi Aéreo Araçatuba Ltda.).

Toda essa história será contada no museu Casa do Aviador, que está na fase de recolhimento de materiais. O retiro Casa do Aviador possui diretoria e uma área compromissada, mas ainda não teve a obra iniciada.

Mundo está voando cada vez mais, diz consultor

“O mundo está voando cada vez mais e há muita oportunidade na área”. A afirmação é do fundador e CEO da AirMod, empresa de engenharia, consultoria e serviços na área, Amaury Acatauassu Xavier Filho.

O engenheiro, que trabalhou por 20 anos na Embraer, esteve em Birigui, na semana do dia 12 de agosto, para participar do Fórum do Arranjo Produtivo Aeronáutico local.

Durante palestra para universitários e empresários do setor, Acatauassu apresentou alguns números animadores.

Em 2017, segundo ele, 4 bilhões de pessoas utilizaram aviação no mundo. A indústria movimenta US$ 6,3 trilhões só em vendas de aeronaves e mais US$ 8,8 trilhões para manter essas aeronaves no ar.

O Brasil tem a segunda maior frota do mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos. São quase 22 mil aviões no Brasil, sendo 6,2 mil em São Paulo.

“Há muita oportunidade na área de manutenção, de rodas, freios, escapamentos, etc, e Birigui já tem uma atividade nesse setor e uma capacidade imensa”, disse.

Para Acatauassu, Birigui está no mapa para se tornar polo de tecnologia aeronáutica, no entanto, é preciso definir se será voltado para a indústria ou para a manutenção de aeronaves.

Além dele, o fórum recebeu dois palestrantes: Carlos Eduardo Leite e Victor de Andrade Nunes, os três representantes do APL Tecnológico e Aeroespacial de São José dos Campos. 


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