Cotidiano

Mudanças na ARSAN, consulta sobre saneamento e remanejamento da ETE São Pedro colocam uma pergunta no ar em Andradina: esses fatos têm alguma relação?

Flávia Avelar Marcos Aurélio
28/08/26 às 11h32
Foto via satelite com a ETE Sao Pedro fazendo divisa com o Thermas

Andradina: Começamos pelo final.

Cinco anos de mandato para a presidência da agência que regula o saneamento.

Uma consulta pública para saber o que a população pensa dos serviços de água e esgoto.

Uma concessionária em processo de possível mudança de controle acionário. E, perto de um dos maiores empreendimentos turísticos da cidade, um sistema de tratamento de esgoto cujo remanejamento já aparece em documento oficial.

Esses fatos têm alguma relação?

Até agora, a reportagem não encontrou documento que demonstre que sim.

Mas encontrou razões suficientes para fazer perguntas.

E fez.

 

Entre Mário, Paulo e Ernesto

Paulo Rodolpho Antoniassi Shinkado assumiu a presidência da ARSAN em 2022. Seu mandato foi renovado em 2024 por mais dois anos.

Agora, uma alteração na legislação municipal ampliou de dois para cinco anos o mandato, que pode permanecer, com o diretor-presidente da agência.

Isso não significa, por si só, que Shinkado permanecerá no cargo. Mas significa que quem assumir a presidência sob a nova regra poderá comandar a agência por período superior ao mandato de quatro anos do prefeito e dos vereadores.

A reportagem perguntou ao prefeito Mário Celso Lopes qual problema administrativo ou regulatório justificou a mudança, quem a propôs, quando começaram os estudos, se existem pareceres técnicos e jurídicos e se Paulo Shinkado poderá ser novamente indicado.

Também perguntamos se a mudança possui alguma relação com o futuro da concessão do saneamento.

Até o fechamento desta reportagem, essas perguntas não haviam sido respondidas.

Uma consulta que também produziu perguntas

Enquanto isso, a Prefeitura realiza consulta pública para subsidiar a elaboração do Plano Municipal de Saneamento Básico.

A iniciativa é importante: ouvir a população faz parte da construção de políticas públicas.

A dúvida da reportagem está na metodologia.

O formulário eletrônico utilizado levou a questionamentos sobre mecanismos destinados a impedir respostas duplicadas ou supostas participações de pessoas fora do público-alvo.

Isso não significa que houve fraude, manipulação ou votos duplicados.

Significa apenas que a reportagem quer saber como os dados serão validados antes de serem utilizados no diagnóstico do saneamento municipal.

Perguntamos à Prefeitura quais controles são empregados e quais critérios serão utilizados para garantir que os resultados representem efetivamente a população de Andradina.

Até o fechamento, não recebemos resposta.

 

Águas Andradina respondeu

A reportagem encaminhou questionamentos ao prefeito Mário Celso Lopes; ao secretário de Governo, Administração, Comunicação, Assuntos Parlamentares e Institucionais, Ernesto Antônio da Silva Júnior; ao diretor-presidente da ARSAN, Paulo Shinkado; ao secretário de Agricultura e Meio Ambiente, Fabrício Mazotti; e à Águas Andradina.

A concessionária foi a única a responder até o fechamento.

Segundo a empresa, 70% das ações da Águas Andradina pertencem à Iguá Saneamento e 30% à Sabesp. A Sabesp manifestou interesse em adquirir a participação da Iguá e passar a deter 100% da concessionária, operação que ainda depende do cumprimento de condições e das aprovações necessárias.

 

A informação importante para esta reportagem é outra.

Segundo a Águas Andradina, não existe, neste momento, projeto para alterar ou encerrar o contrato de concessão , e a empresa não recebeu solicitação da Prefeitura ou da ARSAN para terminar ou modificar o contrato.

Portanto, com as informações disponíveis até aqui, não há fundamento para afirmar que a Águas Andradina deixará a concessão.

 

Por que a ETE (Estação de Tratamento de Esgoto) São Pedro entrou nessa história?

Aqui está a parte que exige atenção.

A Prefeitura de Andradina publicou, em 1º de outubro de 2025, o Decreto Municipal nº 7.927.

O documento declara áreas de utilidade pública para a constituição de servidões destinadas à implantação de um emissário de esgoto vinculado à ETE Saudade.

E traz uma informação particularmente relevante: o próprio decreto prevê o remanejamento operacional do sistema atualmente em funcionamento na ETE São Pedro .

Portanto, a possibilidade de alteração do sistema da ETE São Pedro não é apenas uma suposição surgida nas ruas ou nas redes sociais.

Existe um ato oficial tratando de seu remanejamento operacional.

O que o decreto, por si só, não demonstra é qualquer relação entre esse remanejamento, o Thermas Acqualinda, a ampliação do mandato da ARSAN, a consulta pública ou eventual mudança na concessão.

É justamente aí que começam as perguntas.

De um lado a ETE e do outro o Thermas Acqualinda

E onde entra o Acqualinda?

O Thermas Acqualinda está nas proximidades das instalações de tratamento que passaram a integrar a apuração.

Há ainda uma circunstância pública que torna legítima a pergunta sobre eventual conflito de interesses: o próprio site institucional do Acqualinda apresenta Mário Celso Lopes como idealizador, fundador e CEO do Complexo Temático Thermas Acqualinda. Mário Celso é também o atual prefeito de Andradina.

A existência desses dois vínculos, isoladamente,  não comprova irregularidade nem conflito de interesses .

Por isso, em vez de concluir, a reportagem perguntou:

1.         Existe estudo, projeto ou negociação para desativar, transferir, cobrir ou modificar alguma estação ou lagoa de tratamento próxima ao Acqualinda?

2.         Quem solicitou eventual estudo?

3.         A proximidade das instalações com o empreendimento foi considerada em alguma decisão municipal?

4.         O prefeito participou de reuniões ou decisões administrativas relacionadas ao assunto?

5.         Declarou-se impedido em algum processo?

6.         Existe parecer da Procuradoria ou de algum órgão de controle sobre eventual conflito de interesses?

7.         E, de maneira direta, perguntamos ao prefeito se a alteração da ARSAN, o PMSB e a consulta pública possuem alguma finalidade de beneficiar o Thermas Acqualinda ou empreendimento relacionado.

Até o fechamento desta reportagem, Mário Celso Lopes não havia respondido a essas perguntas.

Seu silêncio não prova que exista relação entre os fatos.

Mas também não oferece, até aqui, as respostas solicitadas pela reportagem.

 

Então, faça a soma — mas não tire a conclusão

Há uma agência reguladora cujo mandato presidencial foi ampliado.

Há uma consulta pública sobre o saneamento.

Há movimentação societária envolvendo a concessionária.

Há um documento municipal anterior prevendo o remanejamento operacional do sistema da ETE São Pedro.

E há um empreendimento turístico próximo dessas estruturas cujo próprio site institucional apresenta o atual prefeito como seu idealizador, fundador e CEO.

 

Tudo isso é fato.

O que não podemos fazer é transformar a coexistência desses fatos em prova de uma relação que ainda não demonstramos.

Não encontramos, até o momento, documento que prove que a ampliação do mandato da ARSAN tenha sido feita para mudar a concessão.

Não temos prova de que a consulta pública esteja sendo, ou será, possivelmente manipulada.

Não temos prova de que eventual remanejamento da ETE São Pedro tenha sido determinado para beneficiar o Acqualinda.

E a própria Águas Andradina afirma não existir projeto para encerramento ou alteração da concessão.

Por isso, a pergunta desta reportagem continua sendo uma pergunta:

A mudança na ARSAN, o novo Plano Municipal de Saneamento, a consulta pública e o remanejamento do sistema da ETE São Pedro são acontecimentos independentes ou existe alguma conexão entre eles?

A reportagem procurou quem poderia responder.

Alguns ainda não responderam.

Seguiremos procurando documentos — e respostas.


O espaço permanece aberto à Prefeitura de Andradina, à ARSAN, ao Thermas Acqualinda e às demais pessoas e instituições mencionadas para que apresentem esclarecimentos, documentos ou correções às informações aqui publicadas.

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