Geral

Corações, cores, sensações

 Um globo, um mundo, um saco sem fundo de imbecilidades e falta de empatia com o outro.

REVISTA FALA! - TONI FONZAR
05/10/17 às 14h33
(REVISTA FALA!)

 Um globo, um mundo, um saco sem fundo de imbecilidades e falta de empatia com o outro. Se fossem estudar a terra lá de outra galáxia, como seria a descrição? “Planetinha azul, com a maioria de sua superfície coberta por água, com alguns bilhões de anos solares de existência e dominado atualmente por bípedes da espécie homo sapiens que brigam e matam entre si pelos motivos mais idiotas que se pode imaginar”. Faltam corações!

 Ando com a impressão que nosso planetinha azul está imergindo numa vibração estranhíssima, de um baixo astral sem precedentes. Faltam cores! Antes as pestes matavam milhões, gerando a fedentina esperada e sempre alguma evolução posterior, para que se estivesse mais preparado para a próxima, que fatalmente viria. 

 Agora o mau agouro vem pulverizado. São sinais de catástrofe vindos de todos os lados, sem querer ser alarmista, mas uma galera que sai pra beber com os amigos e fica com a fuça enfiada numa tela de celular, para estar ligado em quem está longe e isolar quem está perto não pode preceder coisa boa.

 Esse desligamento da realidade, ou pelo menos das coisas palpáveis, gera situações perigosamente engraçadas, como os ativistas políticos de Facebook que replicam toda e qualquer aberração que pareça simpática às suas idéias rasas sobre o que quer que seja.  É nessa leva que surgem mulatos nazistas e latinos fãs de Donald Trump.

 O glamour acabou. A fonte de charme secou. Feliz o tempo em que se cantava, mesmo que de forma irônica, que nossos ídolos ainda eram os mesmos. Hoje os ídolos mudam com uma velocidade de montanha-russa e são de uma volatilidade sobrenatural. Não passo um dia sem descobrir famosíssimos que eu nunca vi mais gordo na minha vida besta. 

 Já fui a shows lotadaços, com tietagem pesada, tipo meninas se descabelando de emoção e na hora que a grande atração surgiu no palco e abriu a boca tive certeza absoluta que nunca tinha tido contato com aquilo nem em sonho. É uma situação indescritível. 

 Você está num show que está bombando, todos sabem cantar aquelas letras maravilhosas com excitantes refrões anasalados e como num filme surreal tudo em volta é estranho. As gordinhas cantando, o povo delirando e você com aquela cara de Pai de Santo que entrou por engano em culto da Universal.  

 Talvez estejamos na época de sentimentos fast food, tão rápidos quanto comer um Big Mac ou aderir à modinha dessa semana. O velho e ótimo Raul Seixas lá atrás já cantava “eu vivo, de olho vivo na vitrine da moda, vendo robô padronizado na soda...”, e ele nem imaginava o que estava por vir. 

 A padronização de visual, de comportamento, de gostos, de noção de status, de pensamento pseudo-político, de cheiros, de sabores, dos carros que se deve andar, dos celulares que se deve ter, das traições justificáveis a se cometer. Não faltarão sensações, mas talvez elas estejam em falta com as cores e corações. 

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Toni Fonzar é jornalista, advogado e escritor nas horas vagas. (REVISTA FALA!)
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