Apesar da doença ter tirado sua visão, ela garante que isso não é algo que atrapalhe sua vida. “Eu ganhei outros sentidos, vivo mais e sinto as emoções mais fortes. Sei retribuir o que as pessoas me oferecem. O timbre da voz é fundamental ela me põe ao lado da pessoa, e eu a percebo”.
Alcoolismo, depressão, maternidade ainda adolescente e depois cegueira. Todos estes fatores poderiam ser um roteiro de uma tragédia brasileira, mas não no caso de Silvânia Costa de Oliveira. Tudo isso serviu para a mulher nascida em Três Lagoas-MS transformar em combustível para sua vitória pessoal.
A atleta que compete no salto em distância e nas provas de velocidade no atletismo enfrentou as mais diversas dificuldades antes de sonhar com a medalha de ouro Jogos Paralímpicos 2016, no Rio de Janeiro. Ela entrou de vez na história do esporte paralímpico brasileira ganhando a medalha de ouro no salto em distância T11, para deficientes visuais, com a incrível marca de 4.98 metros e levou a torcida ao delírio e ela conseguiu o feito mesmo estando gravida.
"Foi uma surpresa ter descoberto em exames de rotina que já estava grávida de dois meses. O parto está previsto para março". E arremata: "Ser mãe não me impediu de ser atleta; desta vez, não impedirá também!", ao falar de sua primeira filha, Letícia.
Hoje, com João Guilherme já a caminho, ela está empenhada na montagem do Instituto Silvania Oliveira em Três Lagoas.
Engajada com o trabalho social direcionado para crianças carentes de bairros periféricos de Três Lagoas, a paratleta afirmou que já está alinhando todos os requisitos para dar o ponta pé na montagem e inauguração do instituto.
"Hoje, graças a Deus e ao esporte posso falar com todas as letras que sustento minha casa e minha família". Foi por meio do esporte que Silvania livrou-se de dívidas e ela não sente vergonha em contar sobre este digno passado. "Era uma corrida de rua de 8 KM e eu nunca tinha corrido antes; mas foi na Lagoa Maior que iniciei os primeiros treinos. No dia, corri cada quilômetro pensando em desistir e pensando em vencer. Venci", recorda.
Início
“Comecei aos 11 anos na escola. Os professores viam que eu tinha potencial. Começou como uma brincadeira, eu não tinha noção nenhuma ainda. Aos 11 anos eu tinha uma infância perfeita, era danada e peralta. Foi quando o médico diagnosticou que eu e todos meus irmãos ficaríamos cegos. Achei que era coisa simples e não esperava o baque”, contou em entrevista ao espnW.
“Quando descobri que estava com a doença de Stargardt, que vai se agravando conforme o tempo, eu não acreditava. Foi muito complicado e difícil acreditar que eu estava cega. Percebi que estava realmente sem enxergar quando completei 25 anos. Antes me considerava com deficiência, enxergava pouco.”
Com a notícia, os pais de Silvânia se desesperaram. Não conseguiram suportar a pressão e acabaram tomando caminhos diferentes, desestruturando todo o círculo familiar.
“Passamos por muitas dificuldades. Meu pai não aceitava isso e se entregou à bebida, dormia na rua e na calçada. Minha mãe ficou em depressão e se trancou no quarto. Perdi minha infância e minha adolescência cuidando de idosos e crianças.”
Além disso, ela foi mãe com apenas 17 anos e seu começo no atletismo veio para suprir as necessidades financeiras. As corridas davam alguma renda no sustento da família. “Comecei a correr com um amigo que me chamou para uma corrida de rua. Pagava R$ 300 e achava muito longe. Não corria nem um quarteirão, não sabia como era.”
“Entrei porque precisava de dinheiro para pagar o leite da minha filha. Uma vez, quando chegou aos 8 km em uma corrida, tive gosto de sangue, vomitei, mas lembrei porque precisava concluir a prova. Ganhei, paguei o leite e disse que nunca mais iria correr na vida.”
Mesmo assim, ela não podia correr dos problemas. Por isso, foi tentar mais uma vez e isso se tornou uma rotina. Pegou gosto pelo esporte e não parou mais.
“As dívidas não paravam e me chamaram para ir a Brasília correr 10 km por R$ 500. Achei bom, entrei e ganhei de novo. Passei muito mal, tive febre, meu corpo não estava preparado para tanto. Fiquei internada após correr. Depois comecei a treinar sozinha na minha cidade em volta de uma lagoa que tem um percurso maior.”
O início não foi fácil, mas os resultados deram melhores condições de trabalho. “Fui para uma corrida de rua e um treinador me viu. Era a corrida de Reis, em Cuiabá. Depois me chamaram para vir para São Paulo com transporte, alimentação e casa. Uma vez em uma competição a gente comprou um suco “Tang” e pão francês para comer. Foi muito difícil no começo, mas precisava disso para sobreviver.”
(Com ESPMW, Aurora Villalba e Tatiane Simon Hojemais, de Três Lagoas)