A maneira mais fácil de contar essa história é pelo final. No último dia 2 de outubro eu perdi a disputa para uma das 15 cadeiras da Câmara Municipal de Andradina. Apesar de ter tido a sexta votação da minha coligação, apenas 115 votos me separaram da meta, tornar-me um representante da população andradinense.
Obtive 213 votos e marquei a 40ª colocação. Acima de mim, 15 eleitos e 24 não eleitos. Abaixo mais de 200 outros candidatos. Para mim, 45 dias pareceram anos e apesar de não atingir a meta não consigo disfarçar um sorriso no canto da boca quando penso em tudo que vivi.
A Motivação
Sempre tive a certeza que não era um “analfabeto político”. Desde o tempo de estudante. Do segundo grau a faculdade, sempre fui atraído pelos debates políticos. Cresci ouvindo as histórias sobre meu avô Horácio Pereira, que não conheci, mas foi vereador em Andradina na década de 50, dos mais polêmicos. Ter na família um político, sempre acirra o sentimento e a pergunta: será que ninguém seguirá esses passos?
Tinha também a grande proximidade de ideias e afinidade com meu padrinho José Alves da Silva (Zé Pretinho), quem sempre foi exemplo de vereador (2 mandatos), pessoa que tive o prazer de ter comigo para aconselhar e dar passos durante a campanha. Profissionalmente, como jornalista, tive a oportunidade de acompanhar o cenário político da cidade, desde o Orensy (prefeito) até o momento atual. Já havia sido assessor de imprensa na Câmara e Prefeitura, além de manter um profundo interesse pela vida do andradinense. Interesse que aumentou durante minha carreira como jornalista.
Para completar o cenário, tinha assumido a presidência do PC do B, partido que teria candidatura a prefeito com Tamiko Inoue, pessoa de meu círculo de relacionamentos, em quem confiava contar com os requisitos necessários para uma disputa ética e com chances de vitória, como de fato. Senti-me preparado, restava saber como começar.
Jogo Acirrado
Sempre há em Andradina centenas de candidatos. Seja pelo salário, pelo prestígio, por ambição política ou pela motivação de melhorar a cidade, essas centenas pedirão votos para entrar no “jogo”. A diferença é que desta vez eles encontraram um eleitorado que nunca esteve tão insatisfeito com a política e com os políticos.
Contam ter sido essa uma campanha difícil para vereadores, com o maior número de candidatos (mais de 250), menos recursos e com tempo diminuído pela metade.
Ser aspirante a vereador em primeira campanha com este cenário foi um tanto assustador. Não era só a tarefa de convencer que eu seria capaz de, ao sentar em uma cadeira da Câmara, que iria cumprir o que se espera de um vereador: o dever de elaborar leis e fiscalizar as ações da prefeitura. Para se chegar lá, no sucesso real de uma candidatura, era preciso ganhar espaço entre os considerados “mais fortes politicamente” e com mais condições de conseguir atrair votos. Eu já tinha pensado em ser candidato, mas nunca tinha desenvolvido o dito “trabalho político”. Tudo o que tinha era a minha vida como cidadão e o trabalho profissional como jornalista. E como será que eu era visto? Será que eu influenciaria alguém?
Primeiros passos
Antes da decisão vários caminhos tinham que ser percorridos. Sem dúvida o primeiro é falar com a família. Primeiramente esposa, filhos, pais e irmãos. Depois juntar os familiares, dos mais próximos aos mais distantes. E, por fim, e realmente muito importante, falar com os amigos. É essencial ter gente sincera ao seu lado que digam a você a verdade. Tive a felicidade de encontrar palavras encorajadoras de pessoas que apontavam em qualidades que ainda não tinha como claras para mim, e outros que falavam das preocupações sobre as mudanças que ocorreriam em minha vida e para que me preparasse, em primeiro lugar, para “não conseguir”. Ter amigo assim é uma benção. Falam o que pensam mas compram a briga.
O caminho
No caminho ainda encontraria gente de todas as épocas que, mesmo que o tempo tenha criado a distância, não escondiam a felicidade em me ver com esta missão. Também os “ultra sinceros” que tinham a coragem de dizer de primeira que votariam fácil em mim se não houvessem outras opções ou compromissos. A sinceridade é essencial para te manter com os pés no chão.
Outras coisas influenciariam a disputa e eu já sabia. Teria que competir com figuras já conhecidas no meio político com um bom desempenho e outras novidades com grandes chances de reeleição. Pela natureza do meu trabalho e por uma vida inteira vivendo em Andradina, tinha relação com a grande maioria dos candidatos, respeitava ou tinha amizade, coisas que pretendia manter.
Também precisava ter padrinhos políticos, pessoas com prestígio, de preferência com condições para ajudar de alguma forma. E encontrei várias dessas pessoas pelo caminho, e muitas, as quais não nomearei, acreditaram que seria possível e tiveram um peso positivo na minha caminhada (Sintam-se abraçadas). Umas com mais discrição, outras com um jogo aberto, outras apenas desejando sorte, mas todas importantes. Até mesmo aquelas que repetiram a outros candidatos, promessas feitas a mim, no final me ensinaram alguma coisa.
Laços e compromissos
Ter um reduto eleitoral: ser conhecido em determinado bairro ou setores específicos é um ponto forte nas campanhas. No meu caso, um “escravo do trabalho jornalístico”, tinha contato com toda a sociedade, mas ao mesmo tempo não fazia parte de nenhum segmento específico. Eu contava histórias, agora estava disposto a escrever uma própria. A minha vantagem era o “poder de ouvir” as pessoas e grupos.
Convoquei, usando redes sociais, santa e barata ferramenta de integração, as pessoas e grupos para debater. Contei com uma pequena e valorosa equipe de trabalho, composta de famílias e amigos de todos os tempos. Era claro o objetivo: ser conhecido e conhecer. Você pode passar a vida inteira do lado de alguém, mas, em matéria de política você tem que se apresentar como candidato, provar suas condições e por final, e mais importante, pedir o voto.
Aprendi muito. Elaborei um plano de atuação parlamentar baseado no contato que tive com as pessoas. Algumas das missões propostas tenho condições de cumprir como cidadão e assim tenho feito desde uma semana após as eleições, não por apenas para provar nada a ninguém, mas porque me tocaram.
Reencontros
Uma das coisas mais recompensadoras que arrastarei comigo é o sentimento de reencontro. Não só com pessoas mas com sentimentos e ideias. Estar de volta na vida das pessoas que viveram momentos, ou dividiram etapas da vida é como rejuvenescer. Amargo é o gosto de remorso em ter certeza do quanto tempo passou sem que tivesse ocorrido. Porque não mantemos os laços apertados sempre?
Faça amigos
Conheci pessoas durante a campanha que com certeza levarei comigo para a vida. Estabeleci laços de respeito com outros candidatos, de todas as coligações e colhi respeito de volta. É importante conhecer os outros candidatos, conversar com eles, saber o que sentem. Assisti com olhos de expectador e às vezes de torcedor para alguns outros candidatos. Sem hipocrisia, desejei que alguns se elegessem e que eu pudesse estar entre eles. Chorei pelo destino de alguns, comemorei a vitória de outros e torço para os 15 eleitos. Pois a cidade tem que continuar dando certo.
Queria esquecer
É claro que há coisas que queria esquecer, mas não conseguirei. Perdoar com certeza perdoarei, esquecer jamais. Optei por uma campanha ética desde o princípio. Não é hipocrisia, mas é assim que sou. Era claro que eu queria ganhar, mas não estava disposto a qualquer coisa por isso. Então as regras eram claras: não poderia mentir, fazer promessas ou usar de qualquer artifício para induzir ao voto. E assim foi.
No caminho deparei com todo tipo de comportamento. Acreditem, quase tudo o que vi foi positivo. O pouco de negativo vai ficar registrado. Vi jovens e velhacos, dispostos a tudo pela vitória. Mais me entristeceu foram o exemplo passado a jovens, muitas vezes no início de carreira ou da própria vida, que tiraram licença de caráter para fazer de tudo pela vitória. A própria e de seus aliados.
Neste caminho, até eu fui posto na rota de colisão. Fui caluniado, difamado em ataques virtuais e pessoais. Tinha claro, por experiência acumulada, que após lançadas as candidaturas, haveriam poucos santos na boca alheia, mas tinha a expectativa de que podia ser diferente. Lamento poucas coisas do que vi, mas não dá pra esquecer.
Saldo
Acreditei que conseguiria até o final. Torci para uma virada até o último segundo. Não deu. Tive um sentimento de indignação geral que durou até terminar aquela noite de sono pesado. Ao acordar parecia estar de volta da “ilha de Lost”. Aí veio aquele sorriso bobo no canto da boca. Eu passei por tudo e não me consumi. A quem interessa o campo da atuação política, acredite, não é “ingenuidade” que leva a uma campanha ética, mas sim compromisso com a pessoa que você é. Isso deveria ser a regra.
Guardo o que aprendi para o futuro.