Sempre ouvi falar que conforme o tempo vai passando, com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, como disse o poeta, os anos passam mais rápidos. Antes ouvia falar, agora tenho certeza. Qualquer hora terei a sensação de que o Natal caiu na mesma semana do Carnaval.
Acho estranha essa nova mania de começarem as comemorações natalinas em outubro, dois meses antes da festa. Justifica-se com a perspectiva do aumento do consumo. É inegável que esse clima estendido de festas faz com as pessoas consumam mais por mais tempo e fatalmente entrem no ano novo com as contas estropiadas. Mas a roda gira.
Final de ano tem sempre uma correria diferente. Começa a chatíssima polêmica sobre a uva passa, enchem nossos pobres ouvidos com aquela melosa versão da Simone perguntando o que você fez, aparecem criadores de leitoas de todos os cantos oferecendo as bichinhas inteiras para que alguém com tendências macabras lhes soque azeitonas nos olhos e uma maçã na boca. Sou um hipócrita, prefiro que esteja desfigurada em pernil. Ver a feição da coitada me causa desconforto.
Em tempos de fascistas contra comunistas, coxinhas contra mortadelas e o radicalismo babaca que acompanha esses tipos, as reuniões de família tendem a se transformar numa praça de guerra, e por hora não vislumbramos dias de paz. Todo mundo está coberto de razão e até as renas do Papai Noel não aguentam mais tanta sabedoria.
Me toquei, já há algum tempo, que o Natal é a maior das fake news da história. A intenção inicial era homenagear o Aniversariante, presenteando-o com união, paz e amor, coisas que costumam encher os espaços vazios com o que se pode chamar de Espírito Cristão, porém o que se vê de forma onipresente é a figura de um gordo com uma roupa vermelha, estilizada pela Coca-Cola (a original, de São Nicolau era verde), que simboliza consumo desenfreado e ofuscou toda e qualquer lembrança do que deveria ser o Natal. Assista ou escute cinco mil propagandas natalinas e o gorducho estará em todas, já o Aniversariante, quem sabe, numas duas, e como coadjuvante. Nós, seres humanos, somos realmente muito estranhos.