A cirurgiã plástica Márcia Spazzapan, formada pela USP Ribeirão Preto, com residência em cirurgia geral no HC de Ribeirão Preto, residência em Cirurgia Plástica no Hospital dos Defeitos da Face em São Paulo e estágio “fellow” na Clinica Ivo Pitanguy e Na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, tem em 2017, muito a comemorar: 28 anos de prática da cirurgia plástica em Andradina e região e 20 anos operando na Clínica Spazz & Forma, um sonho que se concretizara.
Desde que viera para a região, a médica que era apenas membro associado da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), sendo aprovada num concurso, tornara se Especialista em Cirurgia Plástica e alguns anos depois, realizara um trabalho “Mastopexia associada a Implantes Mamários de Silicone”, submetida a uma banca examinadora, galgara o último degrau dentro da SBCP, conquistando o título de Membro Titular desta sociedade. Conta nos um pouco do que vivenciou nestas, praticamente, três décadas de profissão.
Fala: Qual a mudança que mais lhe chamou a atenção?
MRS: Foram incontáveis as transformações tanto no universo da cirurgia plástica, mas também na sociedade de forma geral. Nossa população aumentou, mas proporcionalmente o numero de cirurgiões plásticos cresceu mais; somos o terceiro país em numero de profissionais e de cirurgias realizadas do mundo. A cirurgia plástica está mais acessível, não só financeiramente, mas também com relação às informações presentes em todos os meios de comunicação, mas principalmente na internet. Houve uma democratização da cirurgia plástica, está para todos. Somos procurados por pessoas de diferentes idades, gêneros, credos, raças, atividades profissionais. Os procedimentos se tornaram mais seguros, pois incrementaram se os cuidados pré e pós operatórios, assim como os equipamentos para monitorização e as técnicas de anestesia.
Fala: As informações passadas pela mídia colaboram com a plástica?
A mídia, principalmente a internet, ao divulgar qualquer área, seja da medicina ou outras, tem seus dois lados, o bom e o mau. Mostra resultados maravilhosos em pessoas que tanto geneticamente, quanto através de uma série de cuidados, atingem aquele visual e, não são nem de longe, representantes da população. Também, ocasionalmente, expõe resultados grotescos, que também não são frequentes, nem são esclarecidos quando expostos.
Divulga o tempo todo o Trinômio Juventude, Saúde e Beleza, relacionando o visual com o bem estar, o “ser capaz”; com a autoestima. Este conceito cria uma cobrança ensandecida; praticamente impondo uma obrigação ao ser humano de ser “bonito”, com um visual atraente.
Cultua demais o exterior em detrimento do interior do mesmo, menosprezando características não físicas; de caráter, sabedoria, bondade, inteligência; o que faz, produz, pensa. Hoje seria pertinente ressaltar a honestidade. É importante que nos sintamos satisfeitos, bem; não só com a nossa aparência, “de bem com o espelho”, mas também com o que somos e realizamos. Este conjunto eleva a nossa autoestima e nos faz felizes.
Fala: Algumas transformações na nossa população se refletiram nas plásticas?
MRS: Sim, com certeza. Um exemplo disto foi o crescimento do número de pessoas com sobrepeso e obesidade; com isso a cirurgia de abdome e a lipoaspiração passaram a ocupar, há anos, o topo das mais procuradas. A lipoaspiração, cirurgia plástica mais realizada aqui e em todo o mundo, acompanha quase todos os outros procedimentos: cirurgias das mamas, abdome, face, nádegas, dentre outras. Quase todos tem alguma “gordurinha” para ser retirada. Antigamente fazíamos abdominoplastia e, no máximo, uma pequena lipoaspiração nos flancos (pneus) ou nas laterais das coxas (culotes); hoje realizamos uma técnica criada por um brasileiro, a lipoabdominoplastia; sendo o abdome operado e lipoaspirado num mesmo tempo.
Ressaltamos que a lipoaspiraçao continua sendo um método para aprimorar o contorno corporal e facial; não para promover o emagrecimento. Surgiu um novo grupo de pacientes, aqueles que eliminaram muito peso, permanecendo uma enorme flacidez e sobra de pele, que nos procuram para uma série de cirurgias; algumas antes pouco realizadas, como mamoplastia masculina, “lifting” de coxas, de braços; abdominoplastias em âncora, e outras. São pessoas com peculiaridades físicas, clínicas e psíquicas. Muito tivemos e temos que aprender para satisfazê-los.
Fala: Com relação às mamas, algo mudou? O silicone das mamas parece ser muito comentado.
MRS: Demais! Quando cheguei a Andradina, as mulheres buscavam reduzir suas mamas e, na maioria já eram mães e tinham encerrado sua fase reprodutiva; quando desejavam aumenta-las, escolhiam volumes pequenos; entre 130 e 200 cc. Hoje “reina” a inclusão dos implantes de silicone e com volumes, por vezes exagerados, acima de 400 cc. Temos que deixar claro que no implante de silicone, o volume é igual ao peso; já o tecido mamário, é bem mais leve. E se o peso for razoável, acelerará a queda destas mamas, e aumentará a chance de complicações.
Existe na Alemanha uma pesquisa, com a fabricação de implantes compostos de uma mistura de moléculas de silicone e um material bem leve que, se for aprovada, reduzirá consideravelmente o peso dos implantes. Criou-se um conceito de que seria impossível ter mamas bonitas sem portar implantes mamários. É uma inverdade, mas ainda existe, pois muitas mulheres nos procuram para reduzir suas mamas e “troca-las” por silicone. Como profissional penso que isso deve ser bem discutido. Esse é um passo que, na maior parte das vezes, não poderá ser retrocedido.
Fala: Na face, há novidades?
Para os profissionais conscientes, tanto na face, como nos implantes mamários e de glúteos, como na lipoaspiração; rinoplastia, preenchedores; enfim praticamente em tudo, MENOS é MAIS! Tracionar menos a pele da face, arrebitar menos o nariz, injetar menos produtos; sempre procurando a naturalidade. “Chic” é o simples; bonito é o “natural”; o que combina, o que é proporcional. Em pessoas de mais idade, alguns detalhes contam; como a redução das orelhas; se “mexer” no nariz, arrebitar pouco a ponta. No sexo masculino, nem se fale.
O enxerto de gordura é muito utilizado, associado ao “lifting facial” ou isoladamente. Preenche e ameniza os sulcos faciais como o “bigode chinês”; Aumenta e projeta o queixo, define a linha mandibular, realça as “maçãs” da face. Mesmo que possa ser reabsorvido pelo organismo sempre trará algum benefício a estas estruturas. Já a “bichectomia”, remoção de parte ou de toda a “Bola de Bichat”, uma gordura da face, muito em voga atualmente, deve ser vista com todo o cuidado, pois é fácil observar como a maioria das faces emagrecem com a passagem do tempo. Não é previsível a evolução desta face no futuro.
Fala: E os homens estão buscando mais a cirurgia plástica? Existe algum preconceito?
MRS: Sim, estão. Tanto para procedimentos faciais, dentre eles, a cirurgia das pálpebras e a aplicação da toxina botulínica (botox) e dos preenchedores.
Dentre os mais jovens; rinoplastia e correção das orelhas em abano. Com a maior longevidade, e a vida produtiva se prolongando, inclusive após a aposentadoria, a procura pela cirurgia facial cresceu bastante. Hoje, com o aumento e também, com a perda de peso; tornou- se mais frequentes a procura pela abdominoplastia, a lipoaspiração e a correção da ginecomastia (mamas).
Não acredito que o fator preconceito seja o predominante; o que “freie” o sexo masculino em relação á plástica; mas sim o receio, tanto do ato em si, quanto do pós-operatório. São mais sensíveis á dor e mais resistentes ás mudanças; não apenas á cirurgia plástica, mas aos tratamentos médicos, odontológicos, e a outros em geral. Muitas vezes são estimulados por suas parceiras. Mas este comportamento está mudando muito.
Fala: O que nos diz do Botox e dos preenchimentos?
São métodos usados há anos, existem diversos fabricantes, e embora pareçam simples e inócuos, também exigem cuidados na indicação e execução. A toxina botulínica, popularizada como “Botox” (nome dado pelo laboratório que a desenvolveu, o Allergan) alivia as “rugas de expressão”, bloqueando a ação dos músculos que se contraem quando nos expressamos (riso, susto, preocupação, atenção, etc.) e provocam estas rugas.
Com o uso contínuo do Botox, evitamos que estas rugas marquem a pele e se tornem permanentes. O bloqueio incorreto da musculatura pode levar á queda das sobrancelhas, dificuldade para abrir os olhos, lábios tortos, assimetria facial e outras intercorrências. Por isso deve ser realizado por profissionais médicos com habilitação para tal.
Os preenchedores, destacando-se o ácido hialurônico, são injetados em sulcos, depressões e nas várias áreas da face, como queixo, mandíbula, malar (“maçãs”), com o intuito de modificar a volumetria facial. Usados com parcimônia e adequadamente podem produzem efeitos fantásticos, tais como: realce no olhar e no sorriso, revitalização da pele, atenuação das rugas e sulcos.
Não são permanentes, podendo durar de 6 a 24 meses. Não substituem a cirurgia plástica. Devem ser empregados com cautela. Também exigem habilitação para a sua prática e conhecimentos de anatomia e inclusive de conceitos de estética, cirurgia facial e envelhecimento. Muitas vezes notamos maior queda dos tecidos após o preenchimento. Volumes exagerados criam caricaturas e faces grotescas; lábios muito grossos, maxilares salientes e outras aberrações; observadas com frequência em algumas celebridades.
FALA: Novas técnicas, algo que não era requisitado na clínica antes?
Como já comentei, tudo evoluiu, a lipoabdominoplastias, as técnicas para “pós-obesos”, o advento dos preenchedores, da toxina botulínica. Mas o enxerto de gordura, tanto para modelagem facial como corporal, e a cirurgia íntima ganharam um grande espaço e vem aumentando cada vez mais. No caso da cirurgia íntima, acredito que não era solicitada por simples falta de informação e um pouco de inibição por parte do(a)s pacientes. É muito tranquila e de recuperação rápida.
FALA: Destes 28anos de cirurgia plástica e 20 anos de Clínica Spazz & Forma , o que acha que mais a marcou?
Aquilo que só o tempo, o exercício da profissão, a convivência diária com as pessoas podem nos agraciar.
Principalmente, que nós cirurgiões plásticos devemos ser conscientes de que somos depositários dos sonhos, das expectativas daqueles que nos procuram. Isso é inebriante, mas também uma responsabilidade inigualável.
Operamos uma matéria que pulsa, que se emociona e que reage de forma diversa à ação do nosso bisturi; das nossas mãos. Além de que o resultado máximo para uns, pode ser pouco para outros. Há um corpo e uma psique embutidos ali. Por isso, penso que a consulta, nosso encontro inicial é de extrema importância. Para nós, a arte dos 3E; escutar, examinar, explicar.
Avaliar se conseguiremos satisfazer aquele ser; se o que nos solicita lhe será benéfico ou prejudicial. Todas as dúvidas devem ser esclarecidas. Enxerga-lo por inteiro, e ser cristalino na nossa avaliação. Dizer "não" pode ser terrível naquele momento, mas benfazejo futuramente; evitará muito sofrimento de ambas as partes. Para o paciente, esta mesma consulta, serve para avaliar aquele a quem se entregará. Gosto quando vem para mim com indicações, já viram resultados e acima de tudo questionaram os cuidados pré e pós-operatórios prestados.
Não somos juízes para julgar o colega que nos precedera numa cirurgia anterior e da qual o paciente esteja se queixando. É fácil opinar depois que a obra fora realizada; em tudo. Acolher e tentar ajudar aquele que nos procura, e não amontoar mais críticas e despertar mais dúvidas.
Toda queixa deve ser valorizada, mesmo que pensemos ter feito o melhor. Talvez falte um pouco de atenção. Amparar esta pessoa, se dispor a entende-la e ajuda-la; dar lhe segurança. Muitas vezes, resolve-se totalmente a “questão”.
Diante das novidades, não sermos sensacionalistas e precipitados. Devemos nos habilitar para realizar tal técnica, questionar todas as consequências da mesma, sua evolução no tempo, e aí, quando seguros, iniciarmos a sua indicação. Foi assim que abandonei os fios de suspensão. Notei que os custos não compensavam os resultados discretos e pouco duradouros. Permaneço ainda estudando, atenta ao desenvolvimento deste método. O mesmo posso dizer da "bichectomia".
Devemos escolher e organizar o nosso local de trabalho e a nossa equipe, que devem ser a nossa “cara”, com a qual nos identificamos. Na Clínica Spazz & Forma encontrei meu ponto de equilíbrio: segurança, conforto e privacidade. Mantê-la não apenas agradável aos olhos, confortável; mas sempre com o maior grau de segurança que poderíamos disponibilizar. Essa é a nossa meta.
E assim, persistimos no exercício desta especialidade que é ao mesmo tempo carregado de cobranças e responsabilidade, porém gratificante e apaixonante.