...Das dores maiores de amores que nunca ficam e que ardem e que queimam e que marcam pele, pelos, pelos cantos, pelo espaço, pelo pranto, pelo passo, pelo pasto, pelo asno, pleonasmo... De dores maiores de amores que ficam em pessoas que se calam, que se espantam, que se assombram, que se espancam, que se xingam, que se latem e se acham exímia, metonímia... Sobram dores de amores incolores, indolores: e de dores de amores sobram flores, de gasto espinho, de perfume vazio cuja flor furta cor ninguém sabe ninguém viu...
O cúmulo do absurdo é quando você ouve o deputado Beto Mansur defendendo a nomeação de Cristiane Brasil (uma espécie rara de cacatua cariocamente nervosa), para o Ministério do Trabalho só porque a mesma possui ação trabalhista e concluiu que “daí você não vai poder indicar um ministro da Saúde porque ele fuma, você não vai poder indicar um ministro dos Transportes porque tem algum tipo de multa de trânsito...” É muito boçal pois não consegue entender como alguém que não respeita lei trabalhista pode estar à frente de um ministério e logo do Trabalho... Bom, também não consigo entender como alguém assim tipo ele e tantos outros conseguem chegar a deputado...??
...Fim de festa e as pessoas caminham mais vagarosas, mais lentas, talvez devido a muitas protuberâncias adquiridas pela comilança desvairada, o corpo fica mais pesado, as pernas custam obedecer ao comando de caminhar... Cabeças baixas de olhos fixos nos celulares, carranca fechada pela lembrança de contas a pagar e a vagarosidade continuam como se não houvesse amanhã nem o resto de 2018 a passar.
Foram-se as festas e com elas o fim da solidariedade, da simpatia de largos sorrisos “colgate”, da alegria de cabelereiras esvoaçantes e piolhos fugitivos e a necessidade desenfreada da gastança. Descobri enfim que meus chinelos não são havaianas legítimas (aquela uma que não descora, não tem cheiro, não desliza) pois com uma chuvinha fraca, descendo a Paes Leme escorreguei e lá se foi chinelo para um lado e pernas para outro; caí estatelado, batendo o joelho no chão. As pessoas passavam e desviavam de minhas mãos que, espalmadas, se apoiavam na calçada; vi meu chinelo (falsamente havaiana) sendo chutado (foi sem querer, não deu prá desviar) por três pessoas e ninguém se ofereceu para me levantar. Respirei fundo e me levantei massageando o joelho e saí depressa na captura do chinelo, antes que fosse mais longe, levado por transeuntes provincianos e carrancudos. Descobri então que agora é assim: cada um por si e Deus por todos... Feliz 2018 a todos e viva o direito de ir e vir, sem cair.
Enquanto muitas pessoas procuram clínicas de emagrecimento caríssimas ou “spas” que prometem corpo sarado e mente sana, presencio o seguinte diálogo em minhas andanças (desta vez pela J.A. de Carvalho), uma jovem caminhando pela calçada e um rapaz de bicicleta: “Oi fulana, tudo bem??”, já descendo e empurrando a bicicleta; a jovem sorri e diz que estava tudo bem. O rapaz continua: “Nossa, você tá gorda, tava presa??”. “Sim”, responde a jovem e conclui com largo sorriso “mas você conseguiu fugir da cana...” Entendo então que prisão é sinônimo de engorda... Ninguém merece esse descaramento todo.