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Tribunais da imbecilidade

 Não é de hoje que se dissemina pelo nosso Brasil varonil a idéia de se fazer “justiça” com a própria histeria.

REVISTA FALA! - TONI FONZAR
09/03/18 às 08h43
(Flávia Staut)

 Não é de hoje que se dissemina pelo nosso Brasil varonil a idéia de se fazer “justiça” com a própria histeria. Já vi notícias lamentáveis dessas demonstrações de ódio explicito partindo de todos os lados, então não me venha algum paladino vociferar que isso é coisa de esquerda ou de direita.

 Isso é coisa, acima de tudo de gente sem noção, que acha que tem razão em todas as suas verdades estabelecidas, mas que se recusa a ouvir qualquer opinião que não seja idêntica, ou no máximo uma variação da sua. Um horror desses tempos de tanta “democracia” digital. Nunca sonhei ver tanto ódio destilado.

 A justiça histérica a qual me refiro é essa coisa, aplaudida por muitos, de se achincalhar qualquer pessoa com a qual não se tenha apego ideológico ou que se considere “do outro lado”. De estalo lembro-me de várias vítimas dessa burrice crônica. Mirian Leitão, José de Abreu, Chico Buarque e mais recentemente Gilmar Mendes, o cara que costuma envergonhar ainda mais o STF.

 Ao expor aqui minha indignação com essas ações absurdas, com toda a certeza ouvirei coisas como “Ele merece”; “Essa coxinha é vendida”; “Tinha era que dar um pau nesse vagabundo” etc. O único problema é que esse negócio de cada cidadão, do alto de sua hipocrisia e ignorância sair fazendo julgamentos e executando a pena a seu bel prazer nunca acabou bem, e nem tem como. A turba é sempre insana. Basta um fósforo, um lampejo incitador e a merda estará consumada.

 Lembro de um linchamento ocorrido no Guarujá, onde alguém por pura maldade berrou que uma coitada, que tinha inclusive problemas mentais, mas não fazia mal a uma mosca, era responsável pelo desaparecimento de crianças, e era uma mentira total, mais ou menos como as notícias notadamente falsas que vários “cidadãos de bem” ficam disseminando em redes sociais. São linchadores acéfalos, tais quais os do Guarujá.

 Li outro dia, e concordei plenamente, que o ódio é a maior das zonas de conforto. Nele o imbecil se reveste de uma espécie de capa de super herói, porque sempre haverá idiotas aos montes para lhe ecoar as cretinices. Repare que é impossível discordar de quem odeia, e todo ser imbuído nessa empreitada maligna atribui ao outro o ódio que exala. Quem não concorda é que está disseminando ódio, agora se você concordar que tem que bater, tem que matar e começar a gritaria, aí és uma pessoa do bem, ligada na realidade. Um menino bom, inteligente.

 Essa frase, inclusive, é das mais canalhas que alguém pode soltar. Quando alguém discorda de você e diz “poxa rapaz, mas você é uma pessoa inteligente”. Algo como: você pensa diferente de mim, então é um asno que deve ter sido cooptado por alguma força do mal. Daí a pregar a sua destruição é um passo minúsculo. Afinal, se você não compactua com as minhas certezas é porque está redondamente enganado, é mal intencionado e merece ser anulado, seja por gritos, cinismo ou violência física. Simples e fácil.

 Dentro desse ódio todo, o mais estranho é que estamos numa época em que não é mais preciso ler, se informar, argumentar e convencer, basta achar um meme, um quadradinho, ou qualquer idéia alheia com a qual haja identificação e pronto, todos se sentem formadores de opinião. A culpa deve ser do Sol.

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