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Um chinelo, uma conquista e a liberdade de ser incluída

Para muitos, apenas um chinelo. Para Gabriela, de 15 anos, uma conquista que representa autonomia, inclusão e a liberdade de fazer algo que nunca havia conseguido: calçar e andar com um chinelo.

Flávia Avelar Gomes
21/08/26 às 08h08
Post que Gabi fez em seu instagram, fotografando os chinelos em seus pés

Há compras que chegam em uma caixa. Outras chegam carregadas de emoção, esperança e significado. Nesta semana, recebi uma encomenda que, para muita gente, poderia parecer apenas um simples par de chinelos. Para mim e para minha filha Gabriela foi muito mais do que isso: foi liberdade.

Gabi me disse uma frase que guardarei para sempre: “Agora eu tenho liberdade.” Ela estava falando de algo que, para muitos adolescentes, é absolutamente comum: colocar um chinelo nos pés e sair andando. Para ela, porém, isso nunca foi possível.

Gabriela teve complicações logo após o nascimento. Uma bactéria atingiu seu pulmão e, durante horas, ela lutou pela vida, até que seu coração parou. Durante a reanimação, houve um sangramento cerebral de grau 1, considerado leve, mas que atingiu uma região motora do cérebro.

Desde então, andar, falar, pular, correr e realizar tantas atividades que parecem simples fazem parte de uma trajetória diária de superação. E que trajetória.

Gabi enfrenta cada desafio com uma garra e uma alegria que contagiam. Ela não é definida pelas dificuldades que encontrou pelo caminho. Pelo contrário: todos os dias, ela mostra que é possível avançar, conquistar espaços e celebrar pequenas vitórias que, para nós, têm tamanho gigantesco.

Durante anos, ela conviveu praticamente apenas com tênis, inclusive com um modelo especial e palmilha confeccionada especialmente para suas necessidades. Um chinelo parecia um sonho distante. Até que encontramos uma possibilidade.

A Havaianas desenvolveu, em parceria com o Comitê Paralímpico Brasileiro, um modelo pensado também para pessoas com deficiência. Quando descobrimos que aquele chinelo poderia dar a Gabi a possibilidade de experimentar algo que nunca havia conseguido usar, a esperança voltou.

E veio a expectativa pela chegada da encomenda. Até que o pacote chegou. Ela calçou. E andou.  Pode parecer pouco. Pode parecer apenas um chinelo.

Mas, para uma mãe que acompanha diariamente a luta de uma filha para conquistar autonomia, acessibilidade e inclusão, aquele momento foi enorme. Foi emocionante ouvir minha filha dizer que agora ela tinha liberdade.

E talvez seja justamente essa a questão que mais me toca: inclusão não pode ser apenas uma palavra bonita. Ela precisa existir na prática.

Nós, mães e famílias de pessoas com deficiência, sabemos que ainda existe um longo caminho pela frente. Muitas vezes, nossos filhos precisam lutar para ocupar espaços que deveriam ser naturalmente deles. As “panelinhas” se formam, as oportunidades nem sempre chegam e, muitas vezes, eles ficam de fora.

Eu vejo isso. Sinto isso. E sei que outras mães também sentem.  Por isso, quando uma empresa decide olhar para essas pessoas e pensar: “Elas também precisam disso”, a diferença é enorme.

Talvez exista apenas uma cor disponível. Talvez seja apenas um modelo. Mas, para quem nunca conseguiu usar um chinelo, é libertador.

Não estou escrevendo isso como publicidade. Estou escrevendo como mãe.  Como mãe que chorou ao ver a filha de 15 anos colocar um chinelo pela primeira vez.  Como mãe que sabe o quanto cada conquista custou.

Como mãe que deseja que outras mães tenham a mesma oportunidade de ver seus filhos experimentarem pequenas liberdades que, durante tanto tempo, pareceram impossíveis.

Obrigada à Havaianas por pensar em quem tantas vezes não é lembrado. Obrigada por incluir de verdade. E, principalmente, obrigada por proporcionar à minha filha um momento que talvez pareça simples para muitos, mas que, para nós, ficará para sempre na memória.

Gabi ganhou um chinelo. Eu ganhei uma das mais bonitas cenas da minha vida de mãe. E ela ganhou algo ainda maior: liberdade.

Flávia Avelar Gomes é jornalista, proprietária da Revista FALA! e do site Hojemais Andradina, atual gestora da Anhanguera polo Andradina. Além de empresária, é mãe. Pela primeira vez, Flávia decidiu trazer seu ponto de vista sobre diversos assuntos que refletem a sociedade em que vivemos. Sua opinião sobre algo mostra quem é ela e como se posiciona no mundo.

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