Andradina carrega uma ferida que jamais deveria ter sido aberta — e que, infelizmente, ainda não cicatrizou.
O caso de Vanessa, vítima do que se tornou o primeiro feminicídio registrado no município em 2024, não pode — e não deve — ser esquecido. Espancada brutalmente pelo ex-namorado, Vanessa procurou atendimento médico. Foi até uma unidade de saúde, recebeu atendimento, foi liberada… e morreu depois, no sofá da casa de sua mãe.
A pergunta que ecoa desde então é simples, dolorosa e ainda sem resposta suficiente: será que tudo o que deveria ter sido feito, de fato, foi feito?
Hoje, dois anos depois, Andradina se vê diante de uma situação que, embora diferente na origem, carrega semelhanças assustadoras na condução.
Um jovem sofre um grave acidente de moto. Impacto forte. Cabeça e tórax atingidos. Um quadro que, por si só, exige cautela, investigação detalhada, exames de imagem — o mínimo esperado em qualquer protocolo médico. Mas, segundo a família, não foi o que aconteceu.
Ele foi atendido na UPA e liberado no mesmo dia. Horas depois, começaram as crises convulsivas. A família, em desespero, retornou à unidade não uma, mas duas vezes, buscando aquilo que deveria ter sido garantido desde o início: atendimento adequado.
Ainda segundo a família, somente após a insistência e agravamento do quadro, veio a internação na UTI. Agora, o jovem aguarda transferência para Araçatuba, enquanto sua família vive a angústia da espera — aquela mesma espera que tantas vezes separa a vida da morte.
E, diante de tudo isso, surge um contraste que incomoda, revolta e precisa ser dito.
Enquanto famílias lutam por atendimento, o que se vê nas redes sociais são vídeos e fotos impecáveis, produções bem elaboradas, discursos ensaiados sobre uma saúde que “avança”, que “cuida”, que “acolhe”.
Mas qual saúde é essa? A da propaganda ou a da realidade?
Porque, para quem está do lado de dentro da dor, da urgência, do medo — a realidade é outra. É a da falta de exames básicos. É a da demora. É a da insegurança. É a da sensação de abandono.
Não se trata de desmerecer profissionais que, muitas vezes, trabalham no limite, sob pressão e com estrutura insuficiente. Trata-se de questionar a gestão, os protocolos, as prioridades.
Trata-se de lembrar que saúde pública não se faz com vídeos e fotos bonitas. Se faz com diagnóstico rápido. Com atendimento responsável. Com estrutura adequada. Com decisões que salvam vidas — não que colocam vidas em risco.
Vanessa não teve uma segunda chance. Hoje, a família de Kaique luta para que outro desfecho não se repita.
A história está avisando. A realidade está gritando. A pergunta é: alguém está, de fato, ouvindo?
